ELVIRA VIGNA: ÀS SEIS EM PONTO (Companhia das Letras, 1998, 128p.) – uma seleção de críticas do livro publicadas na imprensa
– prêmio Cidade de Belo Horizonte de Melhor Romance.





Furio Lonza – Jornal do Brasil, caderno Idéias, 24/07/1999

Estranho livro esse da Elvira Vigna. Tinha tudo para ser desinteressante, algo entre o check-up de uma crônica familiar e o detalhamento meticuloso do cotidiano feminino de uma mulher. Enfim, um déjà-vu meio mineiro de uma escritora carioca. E no entanto, surpreende. Às seis em ponto, a princípio, parece um exercício de exorcismo de uma personagem que acaba de receber alta de seu analista.

O livro surpreende principalmente pelo seu estilo – seguro, eficaz, invulgar – e pela maneira de narrar, que mescla o suspense sutil à idéia de contar uma história de forte conteúdo edipiano. Elvira Vigna vai sobrepondo camadas e camadas de texto, como se estivesse pintando um quadro, acrescentando dados e dicas pouco a pouco, homeopaticamente, desenrolando o fio condutor como no labirinto de Teseu.
Muito se tem escrito e especulado sobre as formas da escrita feminina. Haverá realmente um jeito da mulher escrever? Existirá concretamente uma maneira de expressar os sentimentos diferente do homem? Será que Clarice Lispector, Hilda Hilst e outras subverteram e inventaram uma narrativa tão peculiar a ponto de terem uma linguagem própria?
O fato é que já foi tentado de tudo: a pontuação seguiu uma ordem aleatória, a gramática foi para o espaço, os diálogos foram intercalados às sensações interiores, os monólogos de consciência vieram interceptados por descrições do cotidiano mais banal, maiúsculas e minúsculas ganharam uma nova autonomia, parágrafos abolidos, vírgulas vieram soltas em fins de frase.
Para Elvira Vigna, tudo isso parece não despertar curiosidade alguma. E, no entanto, sua visão de mundo é essencialmente feminina, harmônica, pausada, o tempo rege o texto e as lembranças de forma implacável. Ela escreve, apaga, reescreve, emenda, corrige, acrescenta, mente, como num palimpsesto egípcio.
Neste curioso Às seis em ponto, a personagem Teresa tem a obsessão de prestar contas com o passado, com a infância, mais especificamente, onde se imagina posando nua para seu pai, que a estaria pintando numa tela no quartinho dos fundos. Realidade, ficção, memória, emoções se fundem num retrato obscuro. Como resgatar isso tudo de forma madura e ponderada se sugestões de incesto e voyeurismo se imiscuem na lembrança de maneira tão dura e, às vezes, cruel?
A mãe solitária, a irmã gorda e o companheiro de plantão fazem pontas nessa trama demencial. Em contrapartida, está o quadro As meninas, de Velázques, numa metáfora de quem observa e de quem é observado, num jogo de espelhos pertinente a quem deseja obstinadamente desvendar o lado mágico da vida e suas implicações emocionais.
Tudo isso são conjecturas algo abstratas numa análise literária. O livro de Elvira Vigna lê-se numa tacada, seu brilho independe de maiores conceituações, tem várias entradas e admite diversas leituras. Vem em camadas, da mesma forma que Velázques pincelava irritado suas telas, tentando encontrar a verdade por trás da mediocridade que regia sua vida.


Jefferson de Andrade – Estado de Minas, seção Livros, 22/11/1998

Ano passado, ao comentar O assassinato de Bebê Martê, de Elvira Vigna, começamos dizendo que existem escritores que realizam seus romances buscando o que pode determinar uma atmosfera. Ao finalizar o comentário, sinalizamos que o livro era um esboço para novas tentativas da autora, mas que o caminho escolhido era um longo e árduo percurso.
Ainda no ano passado, Elvira Vigna foi premiada no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte com o romance Às seis em ponto. No Brasil, muitas vezes, os livros são premiados e mesmo assim não são publicados imediatamente. Mas ela teve a sorte de ver seu novo livro editado logo, em 98. Como a leitura do anterior está viva na lembrança, mais fácil fica determinar a diferença fantástica entre uma e outra obra.
Elvira Vigna mereceu o prêmio. Às seis em ponto atesta seu crescimento como escritora. Ela domina a história e a narrativa da primeira à última frase. “Haroldo, eu estive em Miracema sexta passada. Eu sei que ele já sabe. O papelzinho.” – a descrição da vida de Maria Teresa surge entre confissões, lembranças e uma história forte.
Como a história está centrada em torno da pintura de Velásquez, diríamos que as pinceladas da escritora para resumir situações e descrever anos de ocorrências são extremamente agudas e definitivas, perfeitas. Surgem algumas histórias paralelas na narrativa como se fossem contos inseridos no romance. E todos giram em torno de uma só personagem – a mulher.
Um comentário infeliz de quem escreveu as orelhas do livro faz com que o leitor inicie sua caminhada pela obra com uma falsa impressão. Sugere-se que a narradora, Maria Teresa, mente e é cínica. Nada disso. Em tom confessional, com o ressaltado estilo elíptico, Elvira Vigna narra a história de uma mulher e seus relacionamentos com o homem. E o homem primeiro da vida de Maria Teresa é seu pai. Na verdade, o pai é o primeiro homem na vida de todas as mulheres. São relacionamentos humanos muito fortes que não comportam mentiras, no máximo frases dissimuladas para empreender fugas.

Às seis em ponto entra para a galeria dos importantes livros brasileiros. Prêmio maior é a sua leitura. E Elvira Vigna é de fato uma grande escritora nacional.





.23 de December de 2008