ELVIRA VIGNA - O QUE DEU PARA FAZER EM MATÉRIA DE HISTÓRIA DE AMOR



esse texto foi escrito em 2006 e permanece inédito.

o trecho abaixo – que é o início do romance – foi publicado pelo jornal Rascunho, em novembro de 2009, no caderno Dom Casmurro.




Chega um cheiro de cigarro da mesa ao lado, que eu aspiro, ávida. Não fumo, nunca fumei, se me perguntarem, não gosto de cigarro, não perguntam, já sabem. No entanto, gosto.
Preciso pôr um pouco de suspense aqui. Se houver mesmo que só uma aparência de história de suspense ficará mais fácil porque aí, depois de tudo acabado, será maior a sensação de dever cumprido. Suspense resolvido, vida idem. Mas a palavra principal não é “suspense†e sim “históriaâ€, é este o segredo. Até mesmo porque suspense não vai ter. Digo logo de cara, matou. É o que eu acho, sempre achei. Mas digo mais, não é isso o importante. O importante é haver uma história que, por ser uma história, parecerá sempre inventada. E não o é. Ou quase não. E parecerá inventada por mais que eu me esforce em dizer que não é, e não me esforço.
Há uma vantagem nas histórias, vantagem esta da qual não me beneficiarei aqui, justamente por ser esta do jeito que é, quase não. Ponto final. Vida real não tem ponto final, nem mesmo este, a que me imporei lá adiante, ao acabar de escrevê-la. Nem mesmo então. Pois vou levantar, quando terminar. Vou largar o teclado, levantar, me espreguiçar e enfrentar o pior: a dissolução daquilo que seria uma história, ponto final incluído, em um cotidiano sem fim nem forma. Há uma outra vantagem, e desta me aproveito: histórias são abordadas, hoje, com meio ouvido. Todos meio ouvintes que mal iniciam a escuta do relato já pensam em outra coisa, imersos na condescendência displiscente de quem senta em uma cadeira e se prepara para umas pequenas férias da sua vida (que é sem fim nem forma, como a minha). E que faz isso, esta meia-entrada em uma narrativa sobre vidas alheias, para tentar recuperá-la, a sua própria vida, nestas vidas dos outros. E faz isso sem acreditar muito que vá de fato funcionar, mesmo em se tratando de vida com certificado de simplicidade. Pois apresentada frase depois de frase, se não linear, pelo menos sequencial, tal vida será necessariamente mais simples. Mesmo esta. Nem um pouco simples.
E eu preciso desse meio ouvido. E não do ouvido inteiro, pois sequer sei como começar.
Década de 60 me parece bom, década de 60 explica muita coisa, os petrodólares, a Revolução, a trepada no chuveiro enquanto as pessoas tomavam cerveja na sala e diziam aos cochichos, em risadas, mas será que eles estão trepando no chuveiro? Estão. Estávamos. Mas não é nem justo falar sobre isso agora, de entrada, porque ainda não sei, neste momento, como podem ser entendidas as coisas que aconteceram então. Preciso criá-las, recriá-las, para saber, para achar que sei.
Quem dirá saber como é trepar no chuveiro enquanto pessoas tomam cerveja na sala, o disco da Elis Regina. Quem dirá saber como é escutar Elis Regina com o braço levantado e aquela cara de burra que, não, desculpe, mas tinha. Porque as coisas mudam.
As coisas não mudam.
Porque posso contar, não a história de Arno, Rose, Gunther, Roger e, em menor escala, Ingrid. Mas a minha, final da década de 60, início da de 70, a trepada no chuveiro, as pessoas bebendo cerveja na sala. Entre uma e outra uns vinte anos de diferença. E em ambas, na verdade, nada de tão bombástico porque as coisas mudam, as coisas não mudam, mas bombástico definitivamente não é mais uma possibilidade. Bombástico é o nine eleven, bombástico, agora, só em inglês.
Perdemos o bombástico, nós.
Até o mar, quando sobe, o faz devagarinho, ressaca por ressaca, ninguém de fato percebe. E tornam a consertar a calçada.
 
Ontem ganhei um CD com uma peça de Gluck.
É Gluck, então, que faz fundo ao que vou dizer. Não que eu a esteja escutando neste momento. A última música que me vem é de outro tipo.
É a de um carrão parado no sinal do Passeio Público quando andei, apressada, entre camelôs, pivetes, caixas de papelão que servirão, mais umas poucas horas, de moradia às sombras marrons que se movem, pouco, nos cantos. O carrão freia sem necessidade, empinando a traseira. O ônibus da frente colabora, um Goya dark, com a fumaça cinza no papel de uma espiritualidade de óleo diesel para o funk do carrão, Maverick no estilo turbinado azul perolizado cabeçote rebaixado e, concordo com a cabeça, só pode se roubado.
Quatro caras atrás, dois na frente.
Gluck, então, é apenas o que eu gostaria de ter, em flautas educadas, por trás da minha vida. Não toda, mas ao menos em algumas cenas, como essa para a qual volto, em ondas.
Estou em uma mesa de bar e, como sempre, minha tentativa é fazer o chope durar. Uso para isso o truque da água mineral concomitante – um gole no chope, outro na água. Funciona por um tempo, não muito e está prestes a deixar de funcionar. O copo de chope vazio e a pergunta vem rápido: se eu vou querer outro.
Posso escolher, senhora bem comportada aguardando Roger em total sobriedade.
Ou não.
“Mais um, por favor.â€
Motoboys.
Uma mulher com três pinguins quase apagados na blusa branca, uma tempestade de neve lenta, se materializando em várias lavadas na máquina de lavar.
Um cara de terno ao celular.
“Vão empurrando com a barriga, porra, e é aí que a gente se fode.â€
E, logo depois:
“Ah, gata, só vontade de ver a alegria no teu rosto, a tesão.â€
É o mesmo cara, outra ligação. As pessoas não mudam, só as ligações.
Um sinal de trânsito pisca inútil sua mão vermelha. Atravessamos sempre de qualquer maneira, nós, nesta cidade, por entre carros, suicidas que somos, correndo na frente, correndo atrás. A toalha de papel ensaia ir com o vento, eu ensaio sair correndo a tempo de pegar o sinal fechado, mas somos contidas por copos, garrafas, guardanapo, chaveiro e o palito, os objetos sendo sempre âncoras mais eficientes do que todos os sinais de trânsito, do que todos os rogers.
O grupo chega, conheço quase todos.  Me chamam. Não quero. Tenho consciência de que sou patética com meu chope, minha água mineral, esperando o quê, e há quanto tempo.
Então vou.
“Vou fazer a Silvia Terezaâ€, diz Marcelo, “a Regina não vai poder. Ponho um vestidão, peruca, um ar espiritualizado e estou pronto para a estréia.â€
“Eles estavam contando com 80 mil reais para 60 pessoas, cinco dias. Hospedagem na universidade, cano total.â€
“Passaporte faz pela internet?â€
“Eu estava cheio de cortisona, fiz um escândalo.â€
Marcelo torna a contar uma história que já conheço, a da velha artista que, às voltas com a burocracia bancária, fala com um funcionário, com outro, vai ao caixa, volta e enfim solta, a voz mansa:
“Amanhã é sexta, dia de exu papacu, o nome de vocês está aqui, no papelzinho, e eu vou estar no terreiro….â€
Gargalhada geral que acompanho.
Os celulares da mesa começam a tocar, sei o que se segue, irão embora. Uma moça de cabelão chamada Ana Paula se levanta, diz que está na rua desde a manhã, tem de chegar em casa, o cachorro. Carol pede a conta.
“Incompreensível.â€
Outro pega a conta da mão dela, confabulam, destrincham. Marcelo, bêbado, não deixa que se concentrem, ao lembrar em voz alta da rua em Saquarema, ele, eu, Roger, um revéillon. Estávamos de carro procurando um vinho para comprar. Ele fala Saquarema com todas as sílabas, não deve estar tão bêbado. Os dinheiros se somam na mesa, não me levanto. Vou esperar, afinal. Ou beber mais. Ou ficar sozinha. Ou catar homem.
Um mendigo também chega em casa depois de estar na rua desde a manhã. Limpa o banco na minha frente com a mão, se deita, satisfeito, ele acha bom chegar em casa.
 
Gluck, então. O meu Gluck, dou-o para Rose, que dança. É esta a cena:
Uma mulher dança sozinha em meio a sofás, poltronas, estofados gastos. Há toalhinhas com acabamento em renda, almofadas adamascadas. Objetos em cima de móveis de madeira escura e os pés desses móveis são torneados em forma de espiral. Um brilho burguês na madeira, realçado pela claridade que vem da janela mas ela fecha a cortina.
É o primeiro dia.
Está nua e a peça de Gluck é sugestão que vem da memória, nada específico, nunca é, não poderia. Especificidades, para esta mulher, vão todas em uma só direção, insuportável.
Flautas pouco definidas, então, e o cheiro. É um cheiro de poeira, de uma poeira diferente da poeira porventura existente neste lugar, e essa outra poeira, ela acha, a subjugará assim que pare de dançar. Sabe que inventa. Permite-se. Acha que será fácil ver essa outra poeira, grão por grão, caso feche os olhos. A poeira – e ela continua – cairá assim que pare, e em cada vez maior quantidade, ameaçando esvanecer tudo, ela incluída. E isso embora constate com uma supresa igualmente pouco focada que a poeira some assim que pousa. Nos móveis, então, e nos objetos e no chão de taco de duas cores, no papel de parede, nos vestidos já rasgados e substituídos por uniformes sem cor ou forma, nos cabelos já cortados, e nas janelas muito pequenas e altas, ou nas outras, que se lhes sobrepõem, grandes e acortinadas, e em nenhum candelabro ou estrela. Sem símbolos, por favor. Não gostamos de reducionismos fáceis.
(Ela não gostava, nem eu.)
Bem.
Braços e pernas ao alto, eis onde ela estava, onde eu estava.
Vamos mais rápido: 1) a dança, antes do banho; 2) respiração ofegante pela dança recém-dançada, já embaixo do chuveiro; 3) a entrada na cozinha, cabelos molhados, pingando ainda, na blusa de pence e costuras, cós e botões, gola virada e ombreira.
Década de 50. Ainda.
E as sobrancelhas da década de 50, que se sobressaem no arco perfeito do lápis, nesse caso não por moda mas por necessidade. Será sempre útil, nesta vida que aqui se inicia, sobrancelhas altaneiras, para o caso de embates, altercações. Nunca se sabe.
A mulher dança na década de 50, a guerra logo ali mal-terminada, a não-estrela uma escolha, como o é o dançar nua que, ao ameaçar tornar-se, isso também como tudo, símbolo de alguma coisa (por exemplo, erotismo, feminilidade), é imediatamente interrompido.
Não ela.
Dança porque dança, e não para seguir roteiro por outros determinado. Daí que, no seguir dos dias, não dança. Apenas fica lá parada e nua. E não fecha mais a cortina. Dane-se. Diz dane-se e não foda-se. E a porta da cozinha, outro dane-se, este dirigido à empregada, dona de barulhinhos irritantes e que não canta. Não canta porque está proibida. Também está proibida de barulhinhos, mas isso ela não consegue evitar, embora tente, com mais barulhinhos.
A mulher nua tem um nome, Rose. E marido, Arno. E uma coleção infinita de dane-se, o terceiro deles dirigido justamente para o próprio, dane-se, porque mesmo com marido em casa, ela fica lá, na poltrona, depois no sofá, depois na cadeira, nua. E de perna aberta. Mas é um dane-se de mentirinha, este, e ela sabe disso. Porque Arno não sai, a não ser em horas pré-estabelecidas, incapaz que é de quebrar rotinas ou atender a expectativas não anunciadas com antecedência. Fica lá, no que chama de sua oficina, na verdade o segundo quarto, o do bebê que nunca veio nem virá, a depender da lei das probabilidades. Afinal, depois de uns cálculos mensais embaraçosos, Rose compreende que, sem trepar, ou quase, que se dane. E o lápis pendurado no calendário da cozinha migra para paisagens mais estimulantes, o bloquinho de compras, as palavras cruzadas.
É de Rose que falarei aqui, é através dela, todo o resto. Não dá para ser de outra maneira. 
  
Peço meu primeiro chope da segunda fase, o grupo não mais lá, o garçom separa mesas, dez centímetros de permissão para que outros sentem, eu lá, na mesa subitamente minúscula, a solitária. E recomeço de onde estava quando aqui sentei, cinco da tarde, ainda claro, esperando Roger, de quem gosto mais quando está perto. Não é isso. Gosto mais de mim, como sou, quando ele está perto. O grupo, este, me é indiferente. Não são meus amigos, são de Roger, são emprestados. Como é Rose, também um empréstimo.
Se recomeço com Rose mais uma vez, cineasta que sou de finais de tarde, é porque com ela acho que preciso de menos palavras. Recomeço com uma dança, o que não se descreve. E esta dança, imagino a partir de outra dança, a minha. E esta dança, a dela (e a minha) vem misturada com o que vi e vivi depois, e que não foi a dança. Foi Rose já velha, mas como sempre propensa a impor seu corpo, então disforme, a quem ousasse visitá-los, ela e Arno, fora de horários agendados de antemão.
Nas horas marcadas, o café, a colherinha, o biscoito feito em casa.
Nas horas verdadeiras, um outro menu. Panos baratos e ralos, quase transparentes, sobre seios caídos e livres, bunda e coxas também livres, reentrâncias aterrorizantes torneadas a cada levantada da cadeira, o tecido leve se lhes grudando, possessivo, muito calor nesta terra.
O calor é importante nesta construção que (vai ser assim até o final) flutua entre Rose e mim, porque a dança-base a partir da qual faço a outra, é de fato minha. É esta a saudade. O motivo. Na época, os amigos eram meus. Um pouco mais meus.
Devo ter, então, mais ou menos a mesma idade de Rose quando dança, danço, mas é outra a época. No meu caso, como cenário tenho um edifício em construção, o teto dele. Termino há pouco um banho com água que sai direto de um cano de pvc. A água está morna de um sol que não está mais. Escorre água de meus cabelos e esta água, já  morna de nascença, mais morna fica, meu o calor. Uso vestido largo, de elástico nos ombros e me dirijo a um recinto de apenas três paredes, a quarta, por fazer, por fazer ficará por todo o tempo em que freqüento esse lugar. O caminho é de cimento áspero, grosseiro. Estou descalça. O chão do recinto de três paredes é de cimento liso. Chego aos pulinhos e tento limpar as solas dos pés passando-as pelo tecido do vestido. Me desequilibro. Desse desequilíbrio passo à dança, uma ligação para mim quase automática: sou desajeitada aos 17 anos. Não melhorei. Não se trata apenas de adequação corporal, é uma questão de fitness, e na palavra para mim tão estrangeira, mais estrangeira, tenho certeza, do que para outros, há inclusos um andar empinado, um olhar de cima, uma adaptabilidade social de todo ausente nisso aqui que, por falta de melhor termo, chamo de eu. Talvez surja nome melhor, no futuro, como foi o caso de fitness, termo inexistente na época em que o meto.
Só não posso demorar muito ou morro antes.
Chamo de eu e poderia chamar também de Rose. Nunca falamos sobre isso, nós duas, mas quando penso na dança dela, penso na minha, parecidas. Não graciosas.
Mas enfim, danço. Como dançaria ela, em falta de outra definição para os movimentos que fazemos. Eu, primeiro, embaixo de vestido largo que mais largo fica com meus gestos de afastá-lo do corpo. Depois, largo pernas e braços qual pássaros ao vento, sem o vestido. A luz é a da lua e estou alegre ou com raiva, as duas coisas na verdade parecidas.
É dessa dança que se trata. E tanto em um caso como no outro, eu ou Rose, tê-la feito provoca em nós um certo olhar sobre as coisas, o que, por sua vez, provoca um certo tipo de palavras.
São essas. Até hoje, em eco. 
 

.December 23, 2008