ELVIRA VIGNA: NADA A DIZERÂ (Companhia das Letras, 2010, Â 168p.) – a voz de ‘Paulo’
VIGNA, Elvira. “5 mil toques é tudo o que ele tem a dizer – a voz de Paulo do romance Nada a dizer”. In: Suplemento Pernambuco. Recife: Cia. Ed. de Pernambuco, no 51, maio 2010. pp 16.
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texto integral:
Alguns jornalistas homens que resenharam o Nada a dizer disseram sentir falta de uma voz masculina nos acontecimentos narrados. Nunca li o contrário. Quero dizer, nunca soube de alguém cobrando do John Updike uma voz feminina que falasse a respeito do galinha do seu personagem principal em Cidadezinhas. Ou que sugerisse a seus criadores uma alternativa à morte das adúlteras Madame Bovary, Anna Karenina ou Thérèse Raquin.
Mas aceito o exercÃcio: como seria o Nada a dizer se o “eu†do livro fosse o Paulo.
Primeiro, acho que não daria um livro, pois a pouca densidade emocional do personagem não cobriria 168 páginas. Ele não ama a amante, aliás nem a mulher. E acha que afinal não fez nada de tão grave assim. Ok. Livro, Paulo não escreveria, mas as 5.000 batidas desse artigo talvez estejam na sua medida.
“Acho, agora, em retrospecto, que o principal foi o fato de eu me sentir bem. Muito bem. Nem sei há quanto tempo, antes do meu caso com N., eu não tinha tanta energia, alegria, confiança em mim mesmo. Por que? Não sei e não sou muito de ficar escarafunchando razões e poréns. Foi como foi. Se o caso ia durar, caso minha mulher não tivesse visto o email com senha? Também não sei e, já disse, não sou de ficar especulando se isso, se aquilo. Acho que não ia, mas não sei. Acho difÃcil que eu fosse manter aquele pique, aquela alegria por meses a fio, sempre dentro de um quarto de motel, sem poder sair com medo de alguém ver, perceber. Mas não sei. Quem foi N. para mim, afinal de contas? Acho que isso posso responder. Eu gostava dela. O que minha mulher falou – que nosso caso foi uma história escrota, boçal, medÃocre – isso é minha mulher dizendo, e ela tem suas razões, não é. Mas não foi isso. Houve afeto de parte a parte. Aliás, da parte de N., segundo ela disse e não tenho razão para duvidar, mais do que afeto. N. me amava. Estava apaixonada por mim. É isso aÃ. Eu, capaz de fazer uma mulher se apaixonar por mim. Bom demais. Minha mulher critica, dizendo que, se N. de fato fosse apaixonada por mim, teria largado o marido. Minha mulher não entende que as coisas podem ser complicadas, difÃceis. Sou mais tolerante. Agora, se N. largasse o marido, talvez isso fosse uma complicação, porque eu não estava pensando em ir morar com ela. Não era isso, para mim. Foi o que foi. E, aliás, passou. Minha mulher, hoje, pensa mais nela do que eu. Não costumo me lembrar de N. E não estou falando de saudade, de ter ou não ter saudade, é não lembrar mesmo. Saudade, por falar nisso, não é um termo que se aplique. Quando acontece de me lembrar do caso, tenho saudade, não de N. propriamente, mas de como eu me sentia naquele perÃodo. Agora, se o que vivi foi real? Acho que não. Acho que não dá para você viver a vida, as aporrinhações normais que toda vida tem, o trânsito, as contas, os outros por perto – e que no caso de N. incluiriam filhos adolescentes, as amigas dela, a sua enorme famÃlia – e continuar louco de alegria. Se eu tiver de resumir diria que foi muito bom, mas que não era real. O e-mail que esqueci de deletar foi a realidade que caiu em cima de mim. Como estou hoje? Bem, acho. Quero dizer, sempre gostei da minha mulher, nunca foi esse o problema. Temos momentos agradáveis, trepamos bem juntos. Às vezes, principalmente quando vou ao Rio por um motivo ou outro, fantasio que me encontro por acaso com N. na rua. E sinto, frente a essa hipótese, mais dissabor que alegria. Acho que ela poderia se mostrar desagradável ou agressiva. Afinal, acabei nosso caso por telefone, falando com ela à s pressas, num dia em que ela me esperava num hotel para treparmos. Depois de bastante tempo, tornamos a nos falar, ela e eu, de maneira mais demorada. Foi em outro telefonema, feito por insistência de minha mulher. Minha mulher era de opinião que eu devia dizer a N. com todas as letras que o caso estava acabado e que eu não a amava. Eu disse a primeira parte, a segunda preferi deixar implÃcita. Nesse telefonema, eu disse também que me arrependia. O que é verdade. Minha vida virou um inferno de tumultos, choros e brigas. Na ocasião, N., do outro lado do fio, disse que não se arrependeria jamais, e deu um risinho. Conheço esse risinho. N. é uma mulher sacana. Melhor dizer isso no diminutivo, sacaninha. Às vezes, penso que seja até mais do que pude ou quis perceber. E que, com o tempo, eu iria me decepcionar. Uma repetição, talvez, do problema que vivo com minha mulher. É difÃcil para mim manter minhas opiniões pessoais, quando ela começa a falar sem parar. Talvez a doçura de N. fosse fingimento, a terminar um dia. Durante a curta duração de nosso caso, N. nunca criticou nada do que fiz. Ou seja, ela se mostrava como o contrário da minha mulher. Talvez fosse uma capa, uma manipulação. É o que minha mulher diz. O fato é que não sei quem é N. de fato. Tentei outro dia me lembrar de seu rosto, não consegui.â€
Outro exercÃcio seria dar voz a N. Em um livro meu ainda não publicado, o “eu†foi no passado a amante de um homem casado. Então, prefiro esperar por esse livro.
.December 29, 2009