ELVIRA VIGNA - NADA A DIZER  (Companhia das Letras, 2010,  168p.)





Marcelo Pen, Ilustrada, Folha de São Paulo, 06/03/2010

Há na literatura brasileira contemporânea uma série de livros que traz à cena a burguesia urbana, seus problemas, angústias e crimes. Dos romances de Beatriz Bracher, como Azul e dura, e de João Gilberto Noll, como Acenos e afagos, até os policiais de Luiz Alfredo Garcia-Roza, como Espinosa sem saída, poderíamos mapear a nossa classe média mais ou menos educada.
O novo romance da escritora carioca Elvira Vigna, ao examinar a questão do adultério, inscreve-se nessa seara. O par de portagonistas, por exemplo, tem uma empresa de tradução; morava em uma coberura na zona sul carioca antes de mudar-se para São Paulo. Seus amigos são professores universitários, filhos de diplomatas, marqueteiros de multinacional. A amante de Paulo é, segundo a mulher dele e narradora da história, uma “moça rica do Leblon”.
Não é um retrato maniqueísta, embora os traços satíricos da obra reforcem alguns estereótipos quando descrevem os gostos e inclinações dessa classe. A questão não é essa, embora ela se manifeste de modo claro. De certa forma, o romance de Elvira, apesar de leve e, por vezes, bem-humorado, mostra um quadro soturno.
Pois a narradora e seu marido (que até certo ponto, é literalmente seu personagem também) nutriram-se dos ideais políticos e do estilo de vida libertário dos anos 60. Ambos opuseram-se à ditadura. Ele foi preso. Como diz a narradora; “fomos nós, os que fizemos sessenta anos no início do século XXI, os que lutaram e enfrentaram hostilidades de todo tipo para que pudéssemos viver, todos, do jeito que quiséssemos, trepando com quem quiséssemos, sem que as peias e o jugo de uma estrutura burguesa conservadora tivessem algo a ver com as decisões pessoais de cada um”.
É nesse contexto que se situa o adultério de Paulo: o de uma traição a ideais – mas talvez não à realidade. O adultério põe a nu a horrível constatação de que o que foi combatido retorna, feito a Hidra de Lerna, no cenário cínico e apático do novo milênio. Pior: como a cabeça regenerada do monstro, pode tratar-se de algo que esteve ali desde os anos áureos da contestação, algo sempre igual a despeito da nova roupagem.
Chama a atenção no texto o uso de termos em inglês e mesmo de certos anglicismos sintáticos, a ponto de o relato assumir em certos momentos o jeito de uma tradução, uma boa tradução – o que combina com o ofício da narradora. Se conhecemos o que ela traduz (e inventa ou imagina) de si mesma e do outro, ainda resta saber o que está ali no original, nunca revelado.


Paulo Paniago, Diversão & Arte, Correio Braziliense, 06/03/2010
 
É possível fazer uma prosa que seja ao mesmo tempo enxuta e detalhista. Elvira Vigna prova isso no mais recente livro, Nada a dizer. Um triângulo amoroso é o mote da história, mas contado do ponto de vista da mulher que descobre que o marido teve amante durante breve período. A narradora nunca tem o nome revelado. Ela é casada com Paulo, que desenvolve um caso com N. por três meses. Esse arcabouço dos nomes próprios é indicativo de hierarquias. Só quem tem direito a nome explícito é o macho, muito embora ele vá ser maltratado também pelo rancor da mulher. Logo na primeira página está dito, numa amostra de quão cortante pode ser o punhal das palavras: “Paulo não era uma pessoa de muitas reflexões”. A amante ainda recebe uma inicial. A narradora, nada.
A história avança em movimentos muito bem estipulados: o início do caso, quando Paulo volta ao Rio de Janeiro a pretexto de participar de uma festa de velhos amigos, de onde a família de tradutores acabou de se mudar, para São Paulo; as idas ao motel com a amante; a volta para São Paulo e para a vida aparentemente normal; a manutenção do caso; a descoberta; a crise que se instala; a saída de casa da narradora; a volta e a retomada do antigo relacionamento. Para entender: o casal de tradutores está na casa dos 60 anos, embora se diga aqui e ali que se trata de meia-idade, o que não me parece o mais adequado. A amante N. também é casada, separa-se em seguida do marido, sendo 20 anos mais nova.
Parte do conflito está nas diferenças de geração: a da narradora foi responsável por lutar por liberdades individuais e contra o regime militar, a da amante apenas se beneficiou com os ganhos. Isso, claro, do ponto de vista da mulher afrontada.
Não se espere uma prosa simplesmente ressentida. Há muito amargor na narrativa, sem dúvida, mas há sobretudo um retirar de véus em prol de chegar à verdadeira natureza dos fatos. A narradora fala as coisas como são, sem qualquer pudor: “Depois do Então vamos – que deveria encerrar uma cena e, corte, ação, grudar em outras, eles já nus, gritos, pernas abertas -, ainda houve todo o intermediário, o mingau que a tudo arrefece”. O texto é, para dizer o mínimo, implacável.
Até mais da metade do livro, os capítulos têm datas específicas, dia do mês. Depois, os capítulos são relativos ao mês inteiro e passam a tratar do modo como a relação se deixou contaminar por esses fatos. As reações da narradora se modificam. Primeiro, ao deixar de existir para o outro, para o marido, ela deixa de existir para si mesma: “Não existente, me multiplicava por mil, milhões.” Passa a se reconhecer em todas as mulheres traídas de todos os seriados de televisão, CSI, Criminal Minds, SVU, Cold Case. Próxima etapa: o desenvolvimento de tramas cinematográficas na imaginação, cenas que ajudam a colocar as coisas no devido lugar.
Nada a dizer trata sem dó nem medo da fratura que certas atitudes masculinas são capazes de provocar e também trata do modo como a maturidade feminina termina funcionando como remendo dos estragos provocados pelo outro. Nesse sentido, o livro de Elvira Vigna é dotado de um discurso absolutamente rico e perspicaz, embora se saiba que para fazer tudo isso será necessária uma travessia pelo sofrimento. Se particularmente discordo da ausência de um aprofundamento das motivações do personagem de Paulo em relação às suas atitudes, é preciso entender, no entanto, que a trama foi extremamente bem-articulada para mostrar a perspectiva da mulher traída, e de fato ela não tem como entender motivações se o homem é incapaz de fornecê-las. De onde, suas insistentes e recorrentes perguntas.
Paulo não fornece respostas, prefere silêncios ou rompantes violentos de discussão, o que a princípio desgasta ainda mais a relação. Como se fosse desprovido da racionalidade que normal e talvez equivocadamente se associa à parte masculina, que é o que de fato acontece nesse livro. Paulo nega e nega, primeiro. Depois, quando as evidências são incontornáveis, age de maneira mesquinha, egoísta e não consegue ser maduro. Cabe à narradora, traída, o papel do perdão e das emendas dos pedaços fragmentados. Não é a alternativa mais fácil. Ela chega a sair de casa, alugar outro apartamento, mas depois volta. O tempo todo analisando cada passo, cada decisão, com a coerência e o amargor necessários, mas também com capacidade incrível de superação.
A ironia que o texto tem – em grau elevado – está contaminada por esse agridoce que a situação sugere. Aliás, é talvez o tom mais apropriado para a ironia, como quando a narradora diz que, se tivesse pensado a respeito, Paulo teria entendido que pensou com cinismo ao agir como agiu. “Mas acho que não pensou, nem com cinismo nem sem.” O homem nessa trama se movimenta sob reflexo, sem elaboração. Cabe à mulher a tarefa de processar. Há também um final em aberto que só aumenta o poder da narrativa de Vigna e que não é o caso antecipar aqui. Mais uma vez, ela fez um livro poderoso.


 
Ubiratan Brasil, Caderno 2, O Estado de São Paulo, 02/03/2010 

O prazer da leitura de Nada a Dizer é semelhante ao de se admirar um quadro hiper-realista, em que as aparências enganam. O novo romance de Elvira Vigna (Companhia das Letras, 168 páginas, R$ 38) conta uma história aparentemente corriqueira: sexagenário, Paulo inicia uma relação extraconjugal com N., mulher 20 anos mais nova. O adultério logo é descoberto pela esposa de Paulo, que assume o papel de narradora da trama. Ou seja, o caso é apresentado sob o ponto de vista da figura traída que, inconformada com as falsas negativas do marido, disseca todos os momentos a ponto de expor a verdade com uma tal nudez que a palavra se torna desnecessária: não há mais o que se dizer.
“Eu pretendia algo quase estereotipado, em que a técnica da narração se comparasse ao hiper-realismo da pintura”, conta Elvira, autora também de Coisas Que os Homens Não Entendem e Deixei Ele Lá e Vim. “Assim como quem vislumbra uma tela, o leitor/observador tem uma primeira impressão da trama que não lhe apresenta novidades, pois ali está algo que lhe é familiar, como uma cena de boteco. Ao fazer uma revisão, no entanto, acontece o mesmo quando diante de um quadro hiper-realista, em que as pinceladas perdem a hierarquia e o principal e o secundário têm a mesma importância.”
Esse momento acontece quando a narradora descobre um e-mail de N. no computador de Paulo. Como o acesso ao texto exige uma senha, ela desconfia: jamais Paulo havia imposto tal limitação. Interpelado, o marido nega qualquer envolvimento amoroso. A versão, porém, não convence a mulher, que inicia uma sacrificante filtragem do passado, revendo minúcias aparentemente banais e descobrindo nelas partículas acusadoras. Ou seja, a realidade ganha um novo formato. “A narradora se apropria da versão contada por Paulo e a devolve para ele, sem mudar uma linha, mas com todos os detalhes evidenciados que o deixam sem palavras.”
A escritora exemplifica com a obra do pintor americano Edward Hooper (1882-1967) e seu universo de pessoas solitárias diante de portas e janelas, com o olhar desesperançado em um horizonte vazio. “Hooper parte de um recorte neutro ou até positivo da realidade e o transforma em algo perverso. Sua atitude é desestabilizadora.”
Algo semelhante acontece à medida que progride a leitura de Nada a Dizer. Mentira e adultério tornam-se o tema principal do livro, assuntos que envenenam a relação de Paulo com sua mulher a ponto de descobrirem uma estranha liberdade afetiva e sexual na relação, algo tão poderoso que os leva ao fundo do poço, com tudo zerado. É chegado, portanto, o momento de um recomeço.
A trajetória de Paulo e a mulher representa ainda um balanço dos ideais de uma geração que foi jovem durante os anos 1960, época libertária que contrasta com as instáveis relações atuais. “A geração de hoje, ligada à internet, apresenta uma brutal mudança de paradigmas, pois comprova ter memória”, comenta Elvira. “O fato de utilizarem a rede mundial constrói uma visão com resíduos históricos que vão se chocar (e destruir) essa fragmentação.”


 
arquivos internos de ‘nada a dizer’:
opiniões pesssoais

.January 2, 2010