ELVIRA VIGNA: NADA A DIZER (Companhia das Letras, 2010, 168p.) – uma seleção de críticas e entrevistas sobre o livro
arquivos internos de ‘nada a dizer’:
trecho & vídeo
a voz de ‘paulo’

Vou falar para vocês sobre meu projeto literário.
Isso não quer dizer que, quando sento para escrever, sei de antemão que o que vai ser escrito pertence a um projeto literário.
Não.
Sei que tenho um projeto literário porque, ao ver meus livros já escritos, percebo que são todos iguais.
Não sei se vocês conhecem um crítico literário e professor de filosofia chamado Juliano Pessanha. É dele o seguinte trecho:
“Mas eu não sofro de auto-observação. A auto-observação implicaria em pensar que algo jorrasse antes para ser depois observado. Haveria uma precedência do gesto e da opacidade inomeada sobre o que é, ali, clarificado. Mas não é assim que me acontece. Os nomes precedem tudo.”
Ele se refere ao fato de nós, humanos, só sermos capazes de entender o que estiver estruturado, dentro da linguagem. O que escapa, a gente não entende. Sequer é capaz de descrever, de apreender.
Isso é teoria da significação. Que foi o que estudei. Para você captar alguma coisa, é preciso que essa coisa já esteja, um pouco, presente dentro de sua estrutura de pensamento.
Só que existe, sim, o que escapa.
E são essas coisas de que fala a arte. Qualquer arte. Literatura inclusive. Então, vejam só, a gente fala daquilo sobre o que não dá para falar.
Então a gente mente.
Escrevo ficção – ou seja, minto – e escrevo, ou seja, minto, a respeito da própria mentira.
Porque meu tema, desde meu primeiro livro, é a mentira.
Ou seja, escrevo a respeito do processo de escrever.
Meu último livro, o Nada a dizer, razão de eu estar aqui com vocês hoje, é uma história de adultério.
O cara trepa com outra mulher, a mulher dele descobre, ele diz que se arrepende, blábláblá.
Uma história banal.
Mas é sobre a mentira.
Meu primeiro livro de adultos foi o Sete anos e um dia.
E lá eu também falo das mentiras que os personagens vivem para fingir que suas vidas não estão limitadas pela ditadura.
O assassinato de Bebê Martê é a história de uma morte sobre a qual todos mentem. Todos sabem, ou intuem, o que aconteceu, todos fingem que não sabem.
Às seis em ponto conta como uma filha mata o pai sem querer ou talvez querendo, mas isso não dá para dizer. Em todo caso, tanto faz, porque todos sabem, ninguém diz, todos mentem.
Depois do Às seis em ponto, veio Coisas que os homens não entendem.
Esse título é uma citação de Camões, canto V.
“Contar-te longamente as perigosas
Coisas do mar, que os homens não entendem:
Súbitas trovoadas temerosas,
Relâmpados que o ar em fogo acendem,
Negros chuveiros, noites tenebrosas,
Bramidos de trovões que o mundo fendem,
Não menos é trabalho, que grande erro,
Ainda que tivesse a voz de ferro.”
Contar histórias é grande erro, diz o Camões.
É o começo de seu famoso excurso, em que se queixa da vida para o leitor.
Mas o mais importante da citação fica mais embaixo:
Contar-te longamente as perigosas coisas do mar, que os homens não entendem.
As coisas que os homens não entendem.
Aquilo que eu disse lá no começo.
É essa a verdadeira mentira do escritor.
Ele estará sempre falando de algo que não tem como explicar.
E fala isso para alguém que também não tem como entender.
É uma missão impossível.
Porque a gente fala sobre as quebras lógicas.
A gente fala sobre o que não fez sentido.
E tenta dar um sentido.
Nunca consegue.
Eu repito esse drama que é o meu, de escritora, em um eco, dentro do próprio livro que escrevo, fazendo com que um de meus personagens também minta sem parar, para enfrentar o que ele, o personagem, também não tem como entender.
Uma solidão radical, o impulso sem sentido de matar alguém por quem nada sente, nem ódio, nem amor. Ou simplesmente, a falta de sentido total de uma vida banal.
Em geral, o personagem escolhido para encarnar essa mentira que é a minha, de escritor, é o personagem narrador.
Os narradores dos meus livros não são confiáveis. Em geral, são eles que matam, roubam, fazem coisas que não podem explicar. E mentem para você. Não dizem, de jeito algum, o que foi que eles fizeram.
Você que tem de desconfiar do que está lendo.
É minha maneira de avisar. Ó, esse personagem aí, cujo ponto de vista é o que você está sem querer adotando como seu ao ler o livro, ó, esse cara aí pode estar mentindo. Ele não tem como te dizer a respeito da falta de sentido da vida ou da ação dele.
E é isso o que eu – o escritor do livro – está na verdade dizendo para você:
Há uma falta de sentido. É dessa falta de sentido que eu quero falar. E essa é a única maneira que há de falar dela.
O livro que vem depois do Coisas que os homens não entendem é o A um passo.
Trouxe ele para vocês.
Nesse livro, um personagem conta a história de outro.
Pode ser a história verdadeira, pode não ser.
São quatro personagens na festa de inauguração de um apartamento.
Um deles destá atrasado, não aparece. E, no entanto, é o dono da casa.
No final ele aparece.
Se chama Própero. E foi ele que inventou tudo aquilo que você leu até então.
É uma referência à peça A tempestade, de Shakespeare.
A tempestade é uma história de como se inventa uma história.
Isso em 1600.
Ou seja, não estou inventando aqui nada de novo.
Meu método de trabalho é muuiiito antigo.
Na peça de Shakespeare, um cara é exilado em uma ilha deserta.
Só ele e a filha dele.
Há uns seres estranhos que também habitam a ilha.
Aí esse cara, que se chama Próspero, inventa uma tempestade.
E um naufrágio.
No navio naufragado, ele inventa, estão seus inimigos políticos.
Ele os vê chegarem, quase mortos, após o naufrágio.
É sua vingança e é também o seu perdão.
Ele está muito cansado de tudo.
Nada mais faz sentido, essas brigas, esses jogos de poder.
A peça acaba com esse personagem, o Próspero, pedindo palmas à platéia.
Ele quer ir embora. Ele não aguenta mais a sua vida. Ele está muito cansado de tudo.
Ele acha que ficar inventando coisas para resolver outras coisas não tem mais sentido.
É a última peça que Shakespeare escreveu.
Continua tudo igual até hoje.
Como falar da quebra da lógica, da ausência de sentido, daquilo que não cabe na linguagem.
Hoje temos palavras para fingir que sabemos o que é isso: metalinguagem, desconstrução do contrato ficcional, excurso do escritor.
Depois de A um passo, fiz Deixei ele lá e vim.
Mais mentira.
Shirley, a narradora, se apresenta como mulher, mas é um travesti.
O que não faz muita diferença para o que acontece no livro.
E chegamos ao Nada a dizer, meu último livro.
Lá no começo citei um trecho do Juliano Pessanha.
Vou repetir um pedacinho daquele pedacinho:
“Mas eu não sofro de auto-observação. A auto-observação implicaria em pensar que algo jorrasse antes para ser depois observado. Mas não é assim que me acontece. Os nomes precedem tudo.”
E aí vem o problema de que eu falo no Nada a dizer.
É um problema bem contemporâneo, e aí sim há uma diferença da época de Shakespeare, e que é o problema da anomia.
Tem um outro cara de que eu gosto muito.
O nome dele é Wladimir Safatle.
É professor de filosofia.
Ele diz que a gente vive uma espécie de patologia social.
Que, com a anomia da contemporaneidade, os nomes – e, portanto, os conceitos – não tem mais um uso claro, hegemônico.
O que é hegemônico é o uso cínico, racionalizado, dos conceitos.
Hoje podemos usar um nome com seu significado original e com o significado contrário, ao mesmo tempo, sem que isso se apresente como uma impossibilidade lógica.
Trata-se de uma racionalização que é aceita pelo indivíduo – e pela sociedade – como normal e legítima.
Por exemplo, a palavra liberdade.
Todo mundo aqui não duvida nem por um instante de que sabe o que quer dizer liberdade.
Mas podemos torcer esse significado, cada um, a partir de seus interesses.
Até poder chegar em uma liberdade que inclui a negação da liberdade.
Para você mesmo e para os outros.
É esse o meu livro.
Já disse, uma história banal.
O cara trepa com outra mulher, a mulher dele descobre.
Acontece todos os dias.
Então é assim:
Você, ao trepar, usufrui de uma liberdade que você considera sua.
Sai e trepa com quem bem entende. A vida é sua, raciocina você.
Para manter essa sua liberdade de agir, então, como você quer e como você considera ser seu direito, você é obrigado a estabelecer muitas regras e cuidados, para você mesmo.
Obedecer agendas, cronogramas e esquemas bastante elaborados.
Tudo para defender o que você acha que é o seu direito de liberdade.
Adeus impulsos.
Não, tudo tem de ser muito bem planejado.
Você não pode fazer o que pinta na hora porque é preciso ter cuidado.
Cuidado para manter a liberdade que fica menor a cada sofisticação extra nos cuidados para sua manutenção.
Você não pode seguir pela rua que tem vontade, porque é muito movimentada. Precisa inventar outro caminho.
Não pode ficar o tempo que quiser nos encontros. É preciso que os horários sejam cuidadosamente calculados.
Precisa controlar até mesmo seu comportamento, para não levantar suspeitas.
Você precisa de desdobrar para atender às aspirações e exigências das outras pessoas envolvidas, para que elas não fiquem insatisfeitas, reclamem ou, pior, espionem e destruam a sua possibilidade de viver aquilo que você definiu ser sua liberdade.
Só que você não tem liberdade alguma, segue horários, cuidados, faz o que não quer na hora em que não tem vontade. Você perdeu a liberdade.
Isso você.
Agora o outro, a pessoa a quem você engana.
Ao mentir para esse outro, você também retira dele a liberdade que você, no entanto, considera como um direito seu, alienável.
É um direito seu, mas você retira esse mesmo direito do outro.
Porque ao omitir um aspecto importante da vida dela – qual seja, a que ela está sendo enganada por você – você impede que esse outro decida o que quer fazer da sua vida.
Que é um direito que você defende para você, exaltadamente.
Ou seja, o exercício da liberdade se transforma em um exercício de autoritarismo e cerceamento, próprio e alheio.
Meu livro não é ético.
Inclusive, porque eu estendo a mentira até incluir, dentro dela, o próprio ato de escrever, não estou aqui fazendo um libelo contra a mentira.
Nem poderia.
No livro, eu não me preocupo com as consequências dos atos de um personagem sobre outro personagem.
Embora essas consequências, desastrosas, estejam lá.
Mas o ponto focal é a construção identitária de quem mente.
Falei que o escritor mente para dar conta do que não tem como dizer.
E a pessoa, escritor ou não, mente na sua vida privada pelo mesmo motivo.
Só que há, hoje, o problema da anomia.
Ou seja. A mentira não é mais percebida como tal.
A consequência é uma espécide de fragmentação do indivíduo.
Ele se vê verdadeiro, só que aos pedaços.
O Nada a dizer trata de quem admite a fragmentação identitária como uma possibilidade viável de vida.
É antes da ética, portanto.
Mais uma vez voltando ao começo.
A questão da auto-observação de que fala Juliano Pessanha.
Ele tem razão, a auto-observação já se dá a partir de uma narrativa prévia que a gente faz para a gente mesmo, sem parar, recorrente.
Você se observa e se nomeia sem parar, mas sempre a partir de um conceito prévio, a partir de um nome que você já se deu, antes, você para você mesmo.
Mas estamos em uma época cínica, conforme diz meu outro citado, Wladimir Safatle.
Então há essa possibilidade nova, típica da nossa época.
Para você manter o seu nome, o conceito que você tem de você mesmo, é preciso um esforço e um processo constantes de autoconstrução. Dá trabalho. Obriga a atitudes, escolhas. Você precisa tomar decisões para manter uma noção minimamente estável a respeito de quem você é, de como você se vê.
Mas temos, hoje, à disposição, um atalho.
Podemos, hoje, sem muito trabalho, manter o conceito que temos de nós mesmos, sem precisar a todo momento fazer escolhar aborrecidas.
E nos fragmentarmos para acomodar, em pedacinhos do eu que nunca serão um eu inteiro, o que nesse conceito não caberia.
Podemos assim ser ultralegais e fazer calhordices à vontade, porque nas calhordices, nós dizemos para nós mesmos que não estávamos verdadeiramente lá. Ou que não estávamos inteiros. Que foi uma coisa de momento. Uma necessidade das circunstâncias. Nada de muito importante.
O contexto fica mais importante do que o texto, do que a palavra, do que o conceito.
Nos constituimos como um lugar de impacto. Impactos não produzem conceitos.
Se algum ato executado por nós não se encaixar na pessoa ultralegal que achamos que somos, é porque continuamos ultralegais, e aquilo lá foi um acidente não importante.
E será sempre não importante porque nesse ato não estávamos inteiros.
Voltando ao exemplo que dei com a palavra liberdade:
Paulo mente para a mulher – e para a amante também, aliás – porque ele é ultralegal. E aquilo que poderia ser considerado como não-legal foi apenas uma necessidade para ele se manter ultralegal. Ele mentiu porque precisou, porque não teve outro jeito, porque ele é ultralegal.
Se Paulo falasse com sua mulher que na verdade tinha passado o dia no motel com a amante, a mulher dele ficaria arrasada. E como ele é ultralegal, achou melhor não falar nada. Até porque estar no motel com N. não é importante para ele. Nada é importante.
Quer dizer, ele usa sua autodefinição de um sujeito ultralegal de maneira a se defender de qualquer necessidade de ter de reavaliar esse conceito. Vai ser ultralegal sempre. Ou não vai ser nada nunca.
E não vai sentir nada de importante, nunca.
É esse o meu livro.
Como é a formação identitária de indivíduos que levam a vida de forma fragmentada.
O personagem Paulo faz isso com seus sentimentos e também com suas atividades profissionais.
É o que permite a ele evitar conflitos.
Os dele, os internos. Os com a mulher ou com a amante são só a capa aparente daqueles.
O que é mais importante na mentira é sempre o que não é dito.
Por exemplo, o que Paulo jamais diria para ele mesmo é que sobreviver sem estar inteiro em nada é exatamente o que o impede de viver.
É uma das leituras possíveis para o título Nada a dizer.
Paulo não tem nada a dizer. E nada a viver.
Há um adendo a esse livro, que fiz dois meses depois do lançamento.
Esse adendo foi publicado pela revista Pernambuco, editada no Recife, em maio de 2010.
Nesse adendo, eu escrevo o que seria a fala de Paulo.
Como seria essa história do adultério, se fosse contada por ele e não pela mulher dele.
O Nada a dizer tem 168 páginas. Esse adendo tem 5.000 caracteres, contando os espaços em branco.
É mais ou menos o correspondente a uma página do livro, ou a uma tela de computador.
Paulo não conseguiria falar mais do que isso.
Ele não viveu intensamente a história dele mesmo.
Ele não estava lá, não por inteiro.
É esse questão que o livro descreve.
Não o problema ético de mentir para o outro.
Mas o problema muito mais grave de mentir para si mesmo.
Já falei, o mais importante na mentira é o que não é dito.
E já falei também que escrevo ficção, ou seja, minto, e que a ficção que escrevo é sobre a mentira.
Então, o principal do livro é o que fica de fora dele.
O tema do livro é a mentira.
A verdadeira história que inventei para falar dessa mentira não é o adultério.
A verdadeira história desse livro é a de um assassinato.
Não está descrito, é apenas aludido.
Quem morre é o marido da amante do marido na narradora.
E quem mata é a narradora.
Sempre, nos meus livros, quem mata é a narradora.
E é claro que ela não diz isso assim, de cara, para o leitor.
Ela mente.
Não há um motivo forte, claro, para esse assassinato.
Em geral, os assassinatos dos meus livros não tem motivo claro para terem acontecido.
Ninguém odeia ninguém. Ninguém quer nada de ninguém.
As mortes são um impulso possível, uma transgressão sempre lá, prestes a acontecer com qualquer um.
Elas são uma maneira de falar da quebra de estrutura.
É esse o assunto.
A mentira sempre foi uma maneira de manter o status quo.
Paulo – e a maioria de nós – não consegue mais ver a mentira como tal.
Ela mudou de nome.
Paulo Paniago, Diversão & Arte, Correio Braziliense, 06/03/2010
É possível fazer uma prosa que seja ao mesmo tempo enxuta e detalhista. Elvira Vigna prova isso no mais recente livro, Nada a dizer. Um triângulo amoroso é o mote da história, mas contado do ponto de vista da mulher que descobre que o marido teve amante durante breve período. A narradora nunca tem o nome revelado. Ela é casada com Paulo, que desenvolve um caso com N. por três meses. Esse arcabouço dos nomes próprios é indicativo de hierarquias. Só quem tem direito a nome explícito é o macho, muito embora ele vá ser maltratado também pelo rancor da mulher. Logo na primeira página está dito, numa amostra de quão cortante pode ser o punhal das palavras: “Paulo não era uma pessoa de muitas reflexões”. A amante ainda recebe uma inicial. A narradora, nada.
A história avança em movimentos muito bem estipulados: o início do caso, quando Paulo volta ao Rio de Janeiro a pretexto de participar de uma festa de velhos amigos, de onde a família de tradutores acabou de se mudar, para São Paulo; as idas ao motel com a amante; a volta para São Paulo e para a vida aparentemente normal; a manutenção do caso; a descoberta; a crise que se instala; a saída de casa da narradora; a volta e a retomada do antigo relacionamento. Para entender: o casal de tradutores está na casa dos 60 anos, embora se diga aqui e ali que se trata de meia-idade, o que não me parece o mais adequado. A amante N. também é casada, separa-se em seguida do marido, sendo 20 anos mais nova.
Parte do conflito está nas diferenças de geração: a da narradora foi responsável por lutar por liberdades individuais e contra o regime militar, a da amante apenas se beneficiou com os ganhos. Isso, claro, do ponto de vista da mulher afrontada.
Não se espere uma prosa simplesmente ressentida. Há muito amargor na narrativa, sem dúvida, mas há sobretudo um retirar de véus em prol de chegar à verdadeira natureza dos fatos. A narradora fala as coisas como são, sem qualquer puder: “Depois do Então vamos – que deveria encerrar uma cena e, corte, ação, grudar em outras, eles já nus, gritos, pernas abertas -, ainda houve todo o intermediário, o mingau que a tudo arrefece”. O texto é, para dizer o mínimo, implacável.
Até mais da metade do livro, os capítulos têm datas específicas, dia do mês. Depois, os capítulos são relativos ao mês inteiro e passam a tratar do modo como a relação se deixou contaminar por esses fatos. As reações da narradora se modificam. Primeiro, ao deixar de existir para o outro, para o marido, ela deixa de existir para si mesma: “Não existente, me multiplicava por mil, milhões.” Passa a se reconhecer em todas as mulheres traídas de todos os seriados de televisão, CSI, Criminal Minds, SVU, Cold Case. Próxima etapa: o desenvolvimento de tramas cinematográficas na imaginação, cenas que ajudam a colocar as coisas no devido lugar.
Nada a dizer trata sem dó nem medo da fratura que certas atitudes masculinas são capazes de provocar e também trata do modo como a maturidade feminina termina funcionando como remendo dos estragos provocados pelo outro. Nesse sentido, o livro de Elvira Vigna é dotado de um discurso absolutamente rico e perspicaz, embora se saiba que para fazer tudo isso será necessária uma travessia pelo sofrimento. Se particularmente discordo da ausência de um aprofundamento das motivações do personagem de Paulo em relação às suas atitudes, é preciso entender, no entanto, que a trama foi extremamente bem-articulada para mostrar a perspectiva da mulher traída, e de fato ela não tem como entender motivações se o homem é incapaz de fornecê-las. De onde, suas insistentes e recorrentes perguntas.
Paulo não fornece respostas, prefere silêncios ou rompantes violentos de discussão, o que a princípio desgasta ainda mais a relação. Como se fosse desprovido da racionalidade que normal e talvez equivocadamente se associa à parte masculina, que é o que de fato acontece nesse livro. Paulo nega e nega, primeiro. Depois, quando as evidências são incontornáveis, age de maneira mesquinha, egoísta e não consegue ser maduro. Cabe à narradora, traída, o papel do perdão e das emendas dos pedaços fragmentados. Não é a alternativa mais fácil. Ela chega a sair de casa, alugar outro apartamento, mas depois volta. O tempo todo analisando cada passo, cada decisão, com a coerência e o amargor necessários, mas também com capacidade incrível de superação.
A ironia que o texto tem – em grau elevado – está contaminada por esse agridoce que a situação sugere. Aliás, é talvez o tom mais apropriado para a ironia, como quando a narradora diz que, se tivesse pensado a respeito, Paulo teria entendido que pensou com cinismo ao agir como agiu. “Mas acho que não pensou, nem com cinismo nem sem.” O homem nessa trama se movimenta sobre reflexo, sem elaboração. Cabe à mulher a tarefa de processar. Há também um final em aberto que só aumenta o poder da narrativa de Vigna e que não é o caso antecipar aqui. Mais uma vez, ela fez um livro poderoso.
Trabalhos acadêmicos:
Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da UnB; transcrito por Edma Cristina de Góis, doutoranda em Literatura, no endereço web: http://gelbcunb.blogspot.com/
É na quebra do vínculo de confiança, aparentemente forte, que se acomoda a dor da mulher traída, narradora de Nada a dizer, de Elvira Vigna. O romance, publicado neste ano pela Companhia das Letras, traz uma história banal, sob as lentes de uma personagem feminina, que abandona sua, até então, “zona de conforto” quando descobre a traição do marido. Ela é quem narra, a partir desse episódio, a busca de uma mulher por sua própria identidade.
A narradora sem nome e o marido Paulo viveram as rupturas comportamentais e a efervescência dos anos de 1960, tiveram filhos, mudaram de casa e de cidade algumas vezes e, na percepção da mulher, construíram um outro e novo padrão de relacionamento conjugal. Mãe na adolescência, ainda solteira, tolerante com pequenas escapulidas dentro do casamento, adepta de uma concepção alternativa dos papéis de gênero na estrutura familiar, essa mulher simplesmente desmorona ao descobrir o caso extraconjugal do marido com N., vinte anos mais nova, também casada e com dois filhos. Em resumo, apesar de toda a filosofia em voga nos anos 60, incluindo a onda feminista, ela termina se comportando como qualquer mulher traída se comportaria. Com um agravante de que ela conhece N.
Nada a dizer, que titula a obra, poderia ser uma frase proferida pelo marido, em algum dos questionamentos da esposa quando o coloca na parede – bem no tom policial de quem não assume a culpa pelo ato “criminoso”. Nada a dizer também poderia ser o que a mulher supõe ser a única resposta do marido, afinal, Paulo poderia dizer alguma coisa diante das evidências? Dos emails trocados com N. e descobertos pela esposa no Outlook, das desculpas esfarrapadas para os horários e viagens?
Elvira Vigna faz o melhor retrato do que acontece nos dias de hoje, em que crises conjugais são escancaradas na internet. Depois de ficar com uma pulga atrás da orelha, ao encontrar um email suspeito de N. para o marido, ela passa a fuçar pistas do caso extraconjugal no celular de Paulo, em outros emails e até no blog de N.
A traição é uma feridinha que teima em não sarar e a todo momento a narradora a machuca sem querer, o que torna mais difícil a cicatrização. No entanto, é nesse mesmo espaço de dor, o fundo do poço, como se diz na vida fora da literatura, que ela tenta ganhar impulso e subir novamente, para, quem sabe, sair do fosso cheia de arranhões, mas inteira.
Vigna parece dar continuidade aos questionamentos dos livros anteriores, em que a ordem das coisas, dos gêneros, da composição da sociedade tal e qual conhecemos, é colocada em xeque. Como em Coisas que os homens não entendem e Deixei ele lá e vim, a autora está interessada nas identidades, que tanto podem ser voláteis quanto estão em permanente construção, como sentencia Stuart Hall. Não há, obviamente, uma troca de identidade, mas acúmulos cujo produto, quando somados, não se sabe ao certo no que dará. Talvez por isso a narradora se torce e contorce dentro da história, para não ser, de repente, reduzida à identidade de mulher traída. Lucidamente, ela percebe que não é só isso. A traição é apenas uma das cascas da cebola, a mais visível porque chegou por último, acobertando todo o resto e todo o resto é simplesmente a vida.
Como ela poderia esquecer uma vida construída ao lado de Paulo, a dedicação ao marido e aos filhos, a troca de afeto e de intelecto? A narradora definitivamente não é apenas a mulher traída, muito embora, em um estado de choque, a visão turva não deixe ver as coisas como elas são. “Não existente, me multiplicava por mil, milhões. Em cada uma dessas histórias em que eu estava, estava também um pedaço da minha dor – e da minha acusação. Eu colava em mim, ou melhor, na minha casca vazia, essas dores e essas acusações que escutava, em eco, da cultura, dos veículos de massa. Aliás, era o contrário: eu, ao colar meu eu em cada uma dessas dores e acusações, buscava, em pequenos detalhes que apareciam na tela, um eu que escapasse, que renascesse desse nada genérico em que eu morria” (p. 107)
As dores se acumulam quando ela percebe que nem mesmo seu espírito libertário, cultivado desde a adolescência, a fizera ter um comportamento diferente das outras mulheres diante da traição. O que é alternativo é o modo como ela disseca o acontecimento e a dor, resignificando inclusive posturas cristalizadas há décadas. “Eu continuava estereotipada. Mas mudava o acervo de meus modelos pré-fabricados” (p. 118).
Ao tratar das instabilidades identitárias, a autora termina por apresentar também um panorama dos relacionamentos na contemporaneidade, mostrando que não há qualidades fixas nos sujeitos. Mais do que acontecimentos, a narrativa traz as reflexões da narradora, numa tentativa de refazer o passado para entendê-lo, ou na melhor das hipóteses, para resignar-se. É essa mulher quem conta como se deu o envolvimento de Paulo com N., com descrições precisas de idas rápidas ao motel e encontros sorrateiros. Em determinada passagem, ela justifica que foi Paulo quem lhe contou, mas é possível pensar que parte do que é narrado seria a interpretação do relato do marido e o restante o seu “achismo” sobre o que aconteceu. Nesse ponto, de pensar como as coisas aconteceram, a narradora pode pintar os eventos com as suas cores; o sexo sem graça dos amantes, a descrição das roupas e da maquiagem de N., “inacreditáveis e justos vestidos estampados que fazem ficar parecendo uma arara tropical” (p. 147).
Se alguém ainda duvida da vida como literatura, Nada a dizer está aí mostrando que, infinitamente melhor do que livros e palestras de auto-ajuda com exemplos genéricos, a boa literatura traz personagens vivíssimos. Talvez tão vivos que não soaria estranho ouvir alguém perguntar se tudo exposto é realmente ficção ou autobiografia da autora. Pode-se até entender, mesmo sem concordar. O pacto de realismo da narradora com o leitor, que sofre junto a dor da traição, é sinal de que a literatura contemporânea não consegue se omitir das questões do sujeito do tempo presente, e nisso está um dos seus maiores trunfos.
.January 2, 2010