ELVIRA VIGNA – LIVROS FORA DE CATÃLOGO
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Veja lá.
Sete anos e um dia foi meu primeiro livro publicado depois que abandonei a área infanto.
Só besteira foi um texto feito especialmente para a internet.
Os dois livros estão em doc, mas sem vÃrus. Se não abrir direto no teu mozilla, dê um ’salvar como’.
(O site tem mais um texto integral, o ‘histórias da arte’, que está embaixo da seção ‘artigos’)
Aqui, uma crÃtica do Só besteira:
Prosa Online, jornal O Globo;Â em 27/04/07; Guilherme Freitas
Os Novos Escritores Brasileiros (N.E.B.) são a entidade mais secreta que existe. reúnem-se periodicamente em uma espelunca de Ãndole duvidosa chamada Repolho Cultural, de onde observam o movimento no Centro Cultural, do outro lado da rua. Observam, mas nunca entram. Também não gostam de ver seus nomes nos jornais.â€Ter nome em jornal é falta gravÃssima. Significa expulsão imediata. Quiçá la muerteâ€, alerta no romance “Só besteira†a autora…
Sob pena de colocar sua vida em risco, publicamos aqui seu nome: Elvira Vigna. Não que seja a primeira vez que o nome da Elvira aparece na mÃdia: autora de outros seis livros, teve os últimos quatro publicados pela Companhia das Letras, entre eles Deixei ele lá e vim, lançado ano passado. Mas este Só besteira não pode ser encontrado nas livrarias. Foi escrito “especialmente para a internetâ€, segunda a autora, e está disponÃvel apenas em seu site: www.vigna.com.br (na seção “Fora de catálogoâ€)
O tÃtulo adianta as duas caracterÃsticas principais de Só besteira: desprentensioso e auto-irônico, o romance é antes de tudo um divertido exercÃcio de provocação literária. O fiapo de trama acompanha a rotina de uma narradora neurótica que divide seu tempo entre a composição de um romance em eterna mutação e as sessões de duas entidades muito semelhantes a grupos de auto-ajuda: Os N.E.B., onde os escritores partilham as angústias da vidinha literária, e o Vivenda e Aprendenda, caótica organização de mulheres mal-amadas que se reúnem para falar mal do mundo, dos homens e das outras.
Os relatos das reuniões dos dois grupos dão a Elvira a chance de atacar em duas frentes. Com o Vivenda e Aprendenda ridiculariza clichês da literatura “feminina†(a lista dos cursos oferecidos pelo grupo inclui Sistema de Visão para Dimensionamento da Coisa Preta em Tempo Real; Câmera Hiperbárica, Recorde em Produndidade e Depressões: Tiro Tudo Daquele Puto etc.). Com os N.E.B. ela caçoa da vida literária contemporânea: “Apesar de todos os cuidados, não é difÃcil reconhecer um N.E.B. Em geral carregamos nossa obra embaixo do braço e somos muito sentimentais. Damos estes livros para qualquer um que nos trate com o mÃnimo de simpatia. O guarda de trânsito que faz ponto em frente ao Repolho, por exemplo, já tem uma estante cheia.†E não sobra só para escritores. “Hoje guarda-trânsito, amanhã editor, nunca se sabe.â€
A crÃtica também ganha seu quinhão de farpas. A narradora, que se define como “homem de letrasâ€, guarda em um arquivo de computador uma coleção de frases feitas, jargões e clichês literários para usar em caso de emergência, como quando elogia o próprio texto pelo “pleno aproveitamento da intertextualidade com desvio semântico dos sintagmas.â€
Só besteira é cheio desses comentários metanarrativos: personagens enaltecem o romance por sua “estrutura moderna†e pela forma como a autora “deixa aparente todo o processo de gênesisâ€. É como se Elvira tentasse embutir no texto sua própria defesa deixando-o imune a crÃtica, ironizando de antemão qualquer tentativa de análise mais profunda. Mas à s vezes esses comentários são reveladores, e que parece tentar justificar a fragmentação da narrativa: “O problema é que eu acho chato. A falta de transcendentalidade da expressão burguesa, mais um casinho, uma traminha, será sempre mais uma historinha.â€
A falta de apreço por “traminhasâ€e “historinhas†gera um romance que vai sendo escrito praticamente diante do leitor, enquanto a narradora se desdobra para incluir no enredo elementos como um anão extemamente sexualizado e um coronel com tendências assassinas, em tentativas cada vez mais desesperadas de dar rumo à história. Mas também esses esforços são desmoralizados: “Enfim, crime, sacanagem, crÃtica polÃtica: as coisas melhoraram muito por aqui.â€
Quase no fim do romance, porém, num rompante de simplicidade, Elvira deixa de lado toda a parafernália literária pós-tudo para arriscar uma definição singela de literatura: “Então é isso, espero que vocês tenham gostado. Escrevi esses textos não sei por quê. (…) Não entendo quase nada do mundo. Por isso escrevo. Quem sabe lendo depois, entendo.†Mas uma observação tão sincera e desarmada não escaparia da consciência vigilante da narradora, que logo manifesta uma visão amarga, ainda que cômica, do futuro dos escritores: “Pois é esta nossa meta, minicontos, microtextos, pÃlulas poéticas, palavras-Ãcones, e por fim design das letras do alfabeto. Não todas, apenas as mais comuns, para não cansar.â€
A orelha da edição original de Sete anos e um dia:
Sete anos e um dia - apresentação; AloÃsio Branco; setembro de 1987
Elvira Vigna, já conhecida por seus livros não convencionais destinados ao público infantil, estréia, aqui, com total segurança no romance. O estilo ágil, que foge à rigidez gramatical ou à lógica insossa, revela-se cheio de inventiva, presenteando-nos com surpresa sobre surpresa. O rumo inesperado da narrativa ou de certas frases alternadamente nos coloca dentro deste ou daquele personagem, sem reservas. A linguagem é repassada de informalismo e de um coloquial que no entanto jamais incidem em qualquer lugar-comum.
Ficção legÃtima, Sete anos e um dia expressa ao mesmo tempo um pedaço vivo arrancado do Brasil real, um Brasil que experimenta mudanças sociais e polÃticas através de processo quase sempre doloroso. O personagem Caloca, com rasgos de otimismo ingênuo, pronto a exercer o escapismo por meio da mais espontânea fantasia, é bem o retrato do brasileiro tÃpico ou mediano. Essa face do Brasil verdadeiro, de dias recentes, é vista pela ótica de um pequeno grupo de pessoas; vÃtimas de algum modo do esquema represssivo e com as quais os leitores certamente se identificarão. Não menos expressivo é Pedro, propenso mais do que ninguém a conceituar e verbalizar, intelectual preso a formalismos, máscaras de sua verdadeira identidade; e Tânia, figura um tanto enigmática, com a biografia marcada por um trauma irremediável; e sobretudo Catarina, mulher moderna, liberal e liberada, voluntariosa e decidida, mesmo quando envolvida pela emoção mais arrebatada. Convivendo na mesma casa-sÃmbolo, são todos eles seres de carne e osso – cabeça, estômago, sexo – captados em sua mais recôndita intimidade, com seus sonhos e pequenas misérias cotidianas, momento a momento seres carentes, cheios de expectativas, vivenciando anos de espera, à s vezes de maneira intensa, à s vezes inconscientemente.
Este livro de Elvira Vigna apresenta ainda um desfecho inesperado, embora de absoluta coerência com o desenvolvimento da história. Um desfecho pungente, comprometido com o que há de mais lidimo e inquietante na verdade humana: a solidão e a busca do outro.
E um artigo, da época em que trabalhava no Estadão, em que falo do clima que deu origem a esse livro.
Primaveras; O Estado de São Paulo; em 20/10/02; Elvira Vigna
Na casa do médico e pintor Pedro Escosteguy havia uma miquinha que ficava presa em uma gaiola na cozinha toda vez que lá ia alguma mulher. A miquinha tinha ciúmes. Se solta, arranhava e mordia a visitante. Presa, via-se limitada a caretas furiosas.
Escosteguy morava então sozinho em Copacabana quase Leme, mas sua casa era movimentada, com os amigos da filha Solange e do genro, Antonio Dias. A miquinha volta e meia tinha de ir para a gaiola, para proteção nossa, e então nos sentávamos na mesa da cozinha, para bebericar uÃsque nacional e conversar uma das conversas mais inteligentes de que participei, até altas horas – que naquela época eram altas mesmo. Não havia tanto problema em andar de madrugada pelas ruas da cidade.
Tempos depois entrevistei Iole de Freitas para uma revista. Queria saber como ela montava seus desequilÃbrios delicados, de vento, seus enormes objetos de fios de aço. Ela se atrasou e fiquei bebericando café, muito doce, com a mãe dela, mineira. Falamos dos sucessos escolares do neto, filho de Iole e Antonio Dias e quando Iole chegou, mudamos o assunto para Milão. Perguntei qual era a diferença entre o ambiente artÃstico de Milão – onde ela tinha morado com Antonio – e o do Rio.
“Aqui cada obra é a primeira. Você tem de recomeçar sempre, a cada vez.”
Depois de mais tempo ainda, encontrei Antonio Dias bebericando água mineral no CCBB e fui falar com ele. No começo não me reconheceu, depois falamos um pouco do passado e também da nova exposição dele, recém-aberta ali do lado. Disse que era difÃcil, que as coisas eram sempre muito difÃceis.
Pedro, Antonio, Palatnik, Helio, as Ligias, esse povo todo foi filmado por Paulo Martins, com quem eu era casada na época, em um documentário, o “Arte Pública”. Em um dado momento, atravesso o campo da câmera. Sei que sou eu, mas há sempre um primeiro minuto, quando vejo o filme, em que eu também não me reconheço. Estranha primavera aquela, nossas vidas explodindo, mas sem alegria. Muitos anos depois, ditadura acabada e no lugar dela um vazio, pensei naquela época tentando achar legal, como se alegria fosse um decalque a ser colocado a posteriori em porta de geladeira. Essa tentativa virou meu primeiro livro.
Me lembrei disso tudo porque o CD que está no carro é do Aznavour. Vidros fechados, fiquei berrando “la bohème” enquanto ia à mostra Arte Contemporânea Brasileira, que aqui no Rio ficou no Paço Imperial e aà em São Paulo vai ser na Pinacoteca do Estado (a partir do dia 6). Lá estarão Iole, Antonio, Pedro, Palatnik, Helio, as Ligias, e mais revistas daquela época, noticiários antigos de TV, fotos de passeatas onde vocês poderão buscar rostos que não reconhecerão.
O pior é que continuamos com esse decalque besta na mão. Só que agora, em vez de colá-lo no passado, tentamos o futuro – sem nem notar que enquanto isso roubam nossa geladeira.
.December 23, 2008