ELVIRA VIGNA: DEIXEI ELE LÁ E VIM (Companhia das Letras, 2006, 152p.)

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Capítulo 1:

Meire está ali, de pé na minha frente. Sua cara é a única coisa que muda em um mundo em que nada muda há muito tempo. Então acompanho cada músculo, é o que há para olhar. Ela tenta, com a bochecha que incha e desincha, a velha brincadeira sobre o aventalzinho. Porque é ridículo, o aventalzinho de babadinho. Mas tanto eu quanto ela já sabemos disso e então ela pára.
Depois olha para meus peitos chatos. Ridículos, os peitinhos.
Quase ouço: e quando é que vai aumentar esse siliconezinho, que aliás está torto?
Mas ela disse isto não faz muito tempo. Me pegou nua, saindo do banho. Então não repete.
Ficamos lá, só isso.
Lembro de cada coisa. Revivo. No fim, nada teve ou tem muita importância. É só uma história. Vai ver, é esta a história, a da falta de importância. Deve ter muitas assim, ninguém fica sabendo realmente o que aconteceu, nem se importa. Eu é que fico com isso na cabeça, acho que não há um dia em que não pense. Entre outros motivos, porque gosto de histórias, sempre gostei. Mas há os outros motivos.
Ficamos um tempo assim, então, eu e a Meire. Ela parada em frente à minha mesa, o restaurante vazio. Lembro da música ambiente. Tinha sempre. Tem sempre. Faz parte da suavização geral de tudo. Pena que não funcione. Não funcionava. Não teve nada suave, não tem.
Lá pelas tantas, ela pergunta:
“O que você está fazendo aqui?”
O que é algo difícil de responder. Em qualquer tempo e local. A velha pergunta sobre nós e o mundo. E o que o mundo está fazendo aqui.
Até então ela não havia olhado uma única vez para minha mochila esborrachada na cadeira. Ela tem disso, a Meire, uma força de vontade férrea. Não quer olhar, não olha.
“Jantar.”
Chega um pouco para trás. Cara de ofendida. Vai ver ofendi. Sai, pega um menu. Volta.
“Semana Jorge Amado. Badejo à Gabriela. Camarão do Turco.”
Aí também já é demais e a gente começa a rir. Primeiro só uma risadinha, a cabeça baixa, disfarçando. Depois risadas incontroláveis. Depois a gente chora. Mas nessa hora ainda dava para dizer que o choro era de riso.
Não estou com fome, o badejo entra no quesito lazer. Sei lá há quanto tempo não como.
Badejo, então.
“Caro pra cacete.”
“Foda-se.”
Os palavrões rearranjam a cena.
Vem com pimenta, o badejo, e demora. Restaurante vazio, fogão apagado. Era tudo assim, nessa época, depois piorou. Ruas escuras, vitrines atrás de portas de ferro, carros passando à noite só de vez em quando. Eu estava com o bolo de dinheiro no sutiã. O único dinheiro da cidade, afora o dos bancos, futucava minha pele toda vez que eu curvava as costas.
Meire senta em uma pontinha de cadeira, está de serviço. Olha o badejo, eu também olho. Um retângulo marrom. Ponho a pimenta. Mais. Agora temos retângulo marrom com detalhes em verde. O verde brilha. Azeite. Pimentas vêm sempre em azeite. Não parece comestível não fosse o cheiro, nauseabundo, a dizer que, sim, é comestível.
Na mesma hora em que enfio o garfo na boca, Meire fala. É de propósito, não posso responder com boca cheia. Só falta saber com quem fica o de propósito, se com ela a falar na hora em que encho a boca ou se comigo a encher a boca quando pressinto que ela vai falar.
“Então você vai mesmo.”
Faço um sim com a cabeça. Depois acrescento mímica de muito quente, muita pimenta, muito espinho, ataque de epilepsia, qualquer coisa que justifique meu olho que lacrimeja e meu tempo, grande, até a resposta.
Acaba que engulo. E ainda assim não falo, só balanço a cabeça, sem dizer o que eu não ia conseguir escutar.
Ela se levanta, vai para a cozinha. Nunca deixa que alguém saiba o que está sentindo. (Nunca deixe.)
Esse é o primeiro momento em que fico sozinha no restaurante. Em que achei que estava. Naquela noite fiquei sozinha (ou achei que estava) algumas poucas vezes, e então aproveitei para olhar em volta com mais afinco, cadê o mapa, qualquer mapa. Sinal, seta, guarda apontando: é por aqui.
Aí notei o cara de meia-idade na mesa do canto. Bebe. Me olha. Bebe mais. Já devia estar lá desde a semana passada, o mês passado.
Estou na mesa mais perto da porta. Como sempre. Qualquer lugar que seja e fico perto da porta, de costas para a parede. Nunca me protegeu de nada, mas continuo.
O cara de meia-idade então não estava muito perto. Uma desculpa por não tê-lo visto antes. Tenho outras. Já disse: não estava muito bem. Ou não disse. E mesmo quando estou bem. Presto atenção em algumas coisas e em outras não. Em geral escolho as que não me serão úteis.
Então, saiba: minha história tem falhas, buracos. E pior: vou preenchê-los.
Meire volta do jeito que foi. Tinha ido para a cozinha não porque houvesse algo a fazer mas porque não queria ficar. Foi, olhou o cozinheiro fumar, limpar o nariz, palitar os dentes, limpar o ouvido com a ponta de um garfo, ler jornal, coçar a barba de três dias, os culhões de dois tamanhos, se suicidar com a faca de carne, apostar em cavalos. E depois, que remédio, volta.
“Estive lá, hoje”, digo.
Ela me olha.
“Aquele negócio que eu ia ver, daquele carinha.”
Continua a me olhar. Sei que se lembra, não quer é falar, quer me obrigar a dizer a frase inteira, ridícula.
“O cara do teste de cinema.”
“Ahh. E aí?”
“Furada.”
Ela tinha dito, não vai, é furada.
“Ahh. Furada? Que pena…”
E depois:
“Tem um pessoal desses, de filmagem, hospedado no hotel. Permuta. Não deixam um puto de gorjeta. Para ninguém. As mulheres são gostosonas, loironas.”
“Loironas? Vai ver é a mesma equipe.”
“São sempre loironas, ou você ainda não reparou?”
O que eu reparei é que o peixe caiu mal. A garfada, aquela, a única, parou no meio do caminho e ameaça um retorno triunfal. Peço água.
“Água?”
“Água.”
Meire ri.
“Com bastante gelo e limão?”
“Pode ser.”
Ela ri mais.
“Na-ne-ni-no-não.”
Que se o gerente entrar e ver eu tomando vodca trazida de casa, ela está na rua. Meire não tem dúvida de que dentro da mochila está a vodca. Que eu, último dia, última passada em frente ao armário, afanei vodca e o que mais houvesse. Digo que não. Meire sempre me achou babaca. Eu também. Ela confirma, confirmamos.
“Duvido.”
Abre minha mochila.
“Porra, tu é babaca mesmo.”
E sai, em busca da água com gelo e limão.
Ou porque o cara da outra mesa está prestando atenção, ou porque às vezes acho que comer disfarça babaquice, o que só prova o quão babaca eu sou, ou porque se há um peixe na frente de uma pessoa é porque um vai comer o outro, o caso é que ponho nesta hora a segunda garfada na boca.
E, claro, não passa da garganta. Tenho de pôr ele para fora. Tem mais coisa para pôr para fora. Minha infância infeliz, a injustiça do mundo, o por quê de eu não ter nascido loirona. O negócio é eu fazer lista, distribuir senha, organizar o vômito. Ou partir para a ação, começar a resolver as coisas pelo peixe. Escolho o peixe. O problema é que Meire, de sacanagem, me deu serviço completo, pão, patê cinza, patê rosa, patê amarelo, picles e guardanapo de pano. O cara da outra mesa me olha sem curiosidade. Acho que ele sabe que eu tenho uma fila de coisa para pôr para fora, a começar por um peixe e que eu não sou porca o suficiente para cuspir comida em guardanapo de pano.
Cuspo em guardanapinho de papel. Veio embrulhando os talheres, très chique. O cara observa. Foi esta nossa primeira relação, foi isto que ficou e que marcou todo o resto: eu cuspo peixe, ele me olha como se não esperasse outra coisa.
Meire largou minha mochila aberta. Fecho. Lá dentro não tenho vodca mas tenho a chave do meu ex-quarto. Plano B. Qualquer coisa, volto. Não sei se ela viu, prefiro que não veja. Ela já volta com a água. Quando tomo, tomo sabendo que não é para tomar, que só vai piorar tudo. Piora. E piora mais ainda porque lembro de todas as coisas que já fiz na vida sabendo que só ia piorar e que fiz mesmo assim. Fiz, não, faço. Ainda faço.
No caminho para o banheiro passo pelo cara que continua não esperando outra coisa do que me ver correndo na frente dele em direção ao banheiro.
Eu vomitava por qualquer coisa, naquela época. Acho que melhorei. Na verdade, não tenho certeza. Escrever isto não está me fazendo muito bem.

.23 de December de 2008