ELVIRA VIGNA: COISAS QUE OS HOMENS NÃO ENTENDEM (Brasil, Companhia das Letras, 2002, 160p.; Suécia, ed. Tranan, 2005, 220p) – uma seleção de críticas publicadas na imprensa, entrevistas, palestras e monografias acadêmicas sobre o livro
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Beatriz Resende – Jornal do Brasil, Caderno Idéias, 16/03/02
Há escritoras e escritoras – Questão da identidade feminina nas obras de Elvira Vigna e Simone Ostrowski
Se já foi politicamente importante criar um Dia Internacional da Mulher, marcado por protestos, atos de solidariedade e de luta pelos direitos humanos, entre nós, as sem véus, a data provoca hoje uma atitude um tanto dúbia. Por um lado, cumplicidade através de sorrisos e e-mails, mas, por outro, certa impaciência. As que lidam com a data através do humor são, em geral, as mais bem-sucedidas, ainda que raras. Se aproveitamos para reiterar as campanhas contra a opressão que chega a ameaçar a vida de ”irmãs” submetidas ao autoritarismo de regimes políticos e/ou religiosos, sentimos também algum incômodo, como se saíssemos à rua com uma roupa fora de moda.
Parece-me que este pouco à vontade surge, principalmente, diante da generalização totalizante com que o termo mulher vai sendo absorvido por campanhas publicitárias ou qualquer outra forma de expressão dirigida ao grande público que pretenda atingir a minoria que, por aqui, é numericamente maioria.
Aí temos desde ”desejos de mulher”, ”bolsa de mulher”, ”coisa de mulher” até ”candidata de mulher”. E percebemos o quanto tais generalizações podem ser perigosas em vez de unificadoras.
Ética e sobrevivência – Apresentando Critical passions, Mary Louise Pratt e Kathleen Newman, editoras deste último livro de Jean Franco, apontam, no trabalho da ensaísta, dois conceitos fundamentais: ética e sobrevivência. Ética proposta não como uma forma fraca de moralidade, mas como estrutura de pensamento e valores ligada à prática e ”capaz de exercer uma força epistemológica contra a extrema instrumentalidade dos regimes”. Sobrevivência não como o estado mínimo, mas como categoria analítica e existencial surgida de confrontos entre autoritarismo e sistema de gênero. Através da chamada ”análise de gênero” do autoritarismo, sobrevivência adquire sentido, para Jean Franco, como categoria existencial, analítica e ética. Segundo a dupla de editoras, torna-se então necessário redefinir sobrevivência em termos positivos: sobrevivência versus desintegração social, versus etnocídio, versus vitimização, morte, passividade.
Pensando nesta oposição entre sobrevivência/ética e vitimização/passividade e tentando o humor, eu poderia afirmar que, mais diferente de uma mulher do que outra mulher, somente um homem.
É assim com consumidoras, com amantes, com eleitoras ou candidatas e com escritoras. Foi assim que me senti diante de dois romances escritos por mulheres: Coisas que os homens não entendem, de Elvira Vigna, e A arte secreta do desejo, de Simone Ostrowski.
Os dois romances têm como personagem principal uma mulher. No romance de Elvira Vigna esta personagem é a narradora, sujeito portanto. Em Simone Ostrowski não, há o tradicional narrador onisciente, sabe tudo. As duas mulheres se deslocam espacialmente e, nessa viagem, buscam mais que uma mudança de lugar, buscam uma compreensão de sua identidade. Provavelmente por haver estes pontos iniciais em comum, as duas obras revelam-se tão profundamente diferentes.
Diferenças – A principal diferença diz respeito justamente à questão da identidade . Elvira Vigna cria um romance em que se percebe que a identidade contemporânea é plural, contraditória por vezes, e que o sujeito – da vida, do romance, da experiência cultural – pode assumir identidades diferentes em momentos diferentes. Já a personagem de Simone Ostrowski quer convencer o leitor de que existem indivíduos (neste caso uma jovem mulher) dotados de razão e sensibilidade reunidas num núcleo contínuo e imutável, detentores de critérios de valores universais.
Coisas que os homens não entendem é um livro arrojado, com uma técnica de condução da narrativa tão elaborada quanto pouco arrogante. A escrita que não teme o fragmentário também não se apóia, em momento algum, nos ”efeitos especiais” que andaram perturbando a ficção contemporânea. A mesma coloquialidade que aproxima o leitor da história contada traz para a narrativa o repertório de referências da autora desde o título, saído de poema de Camões – ”coisas do mar, coisas que os homens não entendem” – mas que se faz familiar ao ser ressemantizado de forma a evocar a oposição homem/mulher.
Nita, a narradora personagem, sai de Nova Iorque, onde mora com a namorada Eva, garçonete de um Brooklyn empobrecido e de mau gosto, e volta ao Brasil, em viagem que deve ser rápida, sob desculpa de trabalho, mas na verdade em busca de algum tipo de acerto de contas. No Rio, divide o pouco tempo de que dispõe entre o sujo apartamento de temporada emprestado e as ruas de Santa Teresa. Essa Santa Teresa, minuciosamente descrita, é a Santa Teresa decadente, de uma classe média rebaixada aos limites mínimos, vizinha do narcotráfico. Mas Nita é artista gráfica, seu olhar, sua sensibilidade vão revelando sem mediadores as seduções dos becos e das pessoas.
O acerto de contas que marca esta volta passa pela morte de Lio, o marido da Lia, assassinado ao abrir a porta do apartamento em Santa Teresa. Lio é o ex-traficante que decidira ”ano que vem vou ficar pobre” para poder se casar com a Lia, na verdade Suélia. Mas a violência está na história como está no nosso cotidiano carioca, brasileiro. Receber um bala no peito é questão de acaso.
Plano B – A viagem de Nita, mochileira, viajando com três blusas boas e uns cacarecos, é uma espécie de ”plano B” para a própria vida, na busca de uma independência que a arrasta por hotéis baratos, televisões sem som, bares e caminhadas sem muito destino pelas ruas do centro do Rio tanto como pelas de Nova Iorque. ”Eu sempre acho que minha vida eu mesma invento, eu sempre acho que eu ainda não cheguei”. Se o pretexto é descolar ”alguma picaretagem com a festa dos 500 anos”, mostrando bem que ”uma coisa eu aprendi nesse tempo em que passei entre os gringos e foi não discutir com dinheiro, se você quer, você pega, se não quer não enche o saco” , o sentido da volta vai sendo descoberto na própria viagem. Não deixou Nova Iorque por causa da ”mulher cor-de-rosa e rebolativa” e nem vai ficar por causa do amor de Nando: ”não foi esse o motivo de nada, imagine, um homem, tão pouco”. Porque não procura termina achando. Porque afirma que ”só conseguimos enxergar o que já vimos”, o encontro é um reencontro. Reencontros com Nando e com Nita, ela mesma.
A arte secreta do desejo lembra, várias vezes, Fragmentos de um discurso amoroso de Roland Barthes. Mas lembra pelo contraste. Enquanto Roland Barthes, reconstruindo o discurso que afirma ser ”de uma extrema solidão”, se utiliza de um repertório de citações e referências literárias e filosóficas para criar uma composição absolutamente original, num trânsito entre a tradição e inovação antecipadores das criações pós-modernas, o romance de Simone Ostrowski não passa de uma exibição gratuita (será gratuita mesmo?) de erudição. Ou melhor, de conhecimentos que parecem sair dos Gênios da pintura e outras obras de divulgação.
Pretensão – Obras mais autênticas e sinceras que o exercício de pedantismo deste romance dedicado a São Judas Tadeu em que o leitor é submetido a breves lições como: ”Segundo Platão, aquilo que não se tem, aquilo que não se é, eis os objetos do desejo e do amor.” Ou, mais adiante: ”Vamos ver suas origens. Vindo do grego metamorphosis, assinalava a transformação de um ser em um outro, tão habitual na mitologia.” Pois é assim mesmo que fala a personagem principal, Kandinsky, historiadora da arte e conservadora de um grande museu, que deixa a Itália, vem para o Brasil e se envolve com o blasé Goya, mistura de marchand com playboy e o encanta em momentos tão espantosos como este: ”Por exemplo, existe um ponto na teologia, explicou Kandisnsky, bastante interessante. É o que se chama de apofaticismo.” Mas, na verdade, o que quer é vingar a mamãezinha, seduzida e abandonada, com dois filhos para criar num palacete renascentista qualquer.
Pensando bem, se o leitor é submetido a tão maçantes lições e louvações à alta cultura – ”Eu não gosto de inconsistências, só a obra autêntica me interessa” – a culpa é toda dele. Afinal, Antonio Olinto avisara, no prefácio, que se trata de ”romance de um misticismo intenso, mas também, lírico”.
Chegamos à conclusão de que Paulo Coelho não é para qualquer um. Mais uma página e faço a defesa veemente da candidatura do mago à ABL.
Para piorar a situação, ao publicar este manual de citações para encontros românticos, a simpática editora Revan parece ter despedido o revisor e a linguagem da autora, em sua opção pelo registro erudito, ignora as mais básicas regras de colocação de pronomes ou regência verbal.
Acabando com quem merece a atenção do leitor, faço uma ressalva a Coisas que os homens não entendem. Pessoalmente, preferiria que o romance terminasse com a radicalidade com que se inicia, mas isso não chega a ser um problema. Talvez, neste ”Brasil de bunda solta e ritmado, o Brasil da música americana”, não dê ainda para contar a história dos índios de Campo Grande, ”índios prostitutos, de michê, à noite, na praça” nem o romance da artista brasileira com a garçonete americana. Talvez ainda seja necessário afirmar muita igualdade para se indagar sobre as diferenças. Afinal, como diz a narradora em determinado momento: ”A guerra não acabou, É só uma trégua. Assinado Primo Levi.’
Carlos Graieb – Revista Veja, seção Veja Recomenda, 20/02/02
Há vezes em que um título é apenas um título. Em outras ocasiões, ele é uma boa chave de interpretação. Coisas que os homens não entendem pertence ao segundo caso. Ele ajuda o leitor a perceber que o que está em jogo no quarto romance da carioca Elvira Vigna é a questão da identidade feminina. E o lembrete é importante porque essa questão de identidade, ainda que central, aparece de maneira encoberta no texto.
Ostensivamente, Coisas que os homens não entendem gira em torno de uma morte. Ao voltar para casa uma tarde, Aureliano é atingido por um tiro e morre estirado na escada. O disparo será creditado a um assaltante. Mas o fato é que ele foi feito por uma das pessoas que estavam na casa: a mulher e o filho de Aureliano, seu pai e uma amiga da família – Nita, que é também a narradora. De volta ao Brasil depois de uma temporada nos Estados Unidos, as circunstâncias desse assassinato são um assunto que persegue Nita, e que ela tenta abordar de várias perspectivas.
A verdade, porém é que a morte de Aureliano é apenas um elemento do enredo. Aquilo que realmente importa é a caracterização de Nita. Bissexual, desprovida de quaisquer laços familiares, profissionais ou afetivos firmes, estrangeira em Nova York e desenraizada no Brasil, ela é uma mulher de meia-idade que não se encaixa em nenhum dos papéis que mulheres de meia-idade costumam ocupar – na sociedade e na literatura. Impaciente com as convenções, exasperada com as “coisas que os homens não entendem”, é o enigma de como construir sua liberdade o que realmente interessa a ela. E é esse “enigma” que Elvira Vigna de fato tenta explorar em seu livro. Fragmentário, opaco, às vezes até mesmo cansativo, Coisas que os homens não entendem não é um livro de leitura envolvente. Nita, porém, é seu trunfo: um dos personagens femininos mais inusitados da ficção brasileira recente.
Patrícia Rocha – Zero Hora, segundo caderno, 20/03/02
Coisas que os homens não entendem, romance de Elvira Vigna, não é uma versão brasileira de best-sellers à moda Bridget Jones nem um desabafo feminista.
É a história de um crime e de uma dor contados por uma mulher de meia-idade, Nita, embora em nada se pareça com uma trama de suspense. O mistério revelado em uma mala com três blusas boas, muitas lembranças e uma conversa são as coisas do passado de Nita que os homens de sua vida não entendiam. Nem ela.
No início do livro, tudo o que o leitor consegue descobrir sobre essa mulher intrigante é que a fotógrafa brasileira havia encontrado refúgio e o ombro de outra mulher em Nova York. E que finalmente era hora de viajar ou voltar ao Brasil. Ela não saberia qual o verbo certo a usar, porque temia chegadas e decisões definitivas. Mas Nita infim chega ao Rio de Janeiro e se aproxima de seu destino e de suas lembranças, o tradicional bairro de Santa Tereza. Lá, havia morrido Aureliano, o Lia, no momento em que chegou a seu apartamento, onde o aguardavam a mulher, o pai, o filho e a amiga da família, Nita.
O tiro disparado em Aureliano vai sendo reconstituido aos poucos, pelas lembranças e ironias da personagem. É quando o leitor descobre que ela teve parte na morte de Lia, um criminoso regenerado, filho de Barbosa e irmão de Nando. E que Barbosa era um antigo caso de Nita, que nunca pôde ser chamado de amor, e Nando, o único homem que sempre esteve ao lado da protagonista e provavelmente quem mais a compreendia.
Nesse emaranhado, Nita descobre a si mesma, e finalmente revela o que há por trás de seu olhar mórbido e seco ao descrever pessoas e lugares e ao assistir televisão sem som. Mas a fotógrafa tem somente três blusas na mala, e com tão pouca roupa e tão poucas certeza, nenhuma chegada pode ser para sempre.
No romance, a jornalista carioca Elvira Vigna desarma o leitor a cada capítulo com uma trama original e envolvente. O leitor se envolve nas memórias e contradições de Nita, por vezes se impacienta com seu tom mordaz, e é incitado a acompanhá-la até o fim das 160 páginas. O crime se desvenda muito antes disso, mas o grande desafio do livro não é descobrir o assassino e sim entender Nita. E seus homens.
Elvira formou-se em literatura pela Universidade de Nancy, na França, e tornou-se mestre em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela assina uma coluna mensal no jornal O estado de São Paulo e lançou três títulos anteriores – O assassinato de Bebê Martê, Às seis em ponto e O jogo dos limites (juvenil).
Carlos Herculano Lopes – Estado de Minas, caderno Pensar, 23/03/02
O centro narrativo de Coisas que os homens não entendem, novo romance de Elvira Vigna, carioca que nasceu em 1947, passa pela personagem Nita, uma fotógrafa que vive em Nova York, onde divide um apartamento e a intimidade com uma modelo. Só que, de um dia para o outro, Nita resolve voltar ao Rio de Janeiro, com a desculpa de que faria uma viagem rápida, de tabalho, para assim despistar a amiga. Mas o que ela quer mesmo – e à medida que vamos nos aprofundando na leitura, isto também vai se tornando claro – é fazer uma espécie de acerto de contas com o passado.
Este volta com força quando Nita, já no Rio, vagando pelo bairro de Santa Teresa, com seus velhos casarões e ruas íngremes, tenta entender o assassinato de Aureliano, o Lia, um ex-traficante que um dia, nandando contra a maré, resolveu que queria ser pobre. Como a morte de Lia, que também é casado com a Lia, cujo nome de fato é Suélia, está no epicentro do romance, Elvira Vigna vai levando o leitor, aos poucos, a não só ir se embrenhando na obra, como também a querer saber o mais rápido possível o desfecho do romance. Por trás de tudo está Nando, irmão do morto, que não tem interesse em ver o crime esclarecido, “pois será melhor para todos”. Ele não se importa, inclusive, em dar grana a alguns policiais, para que as investigações não andem.
O livro de Elvira Vigna, que se formou em literatura pela Universidade de Nancy, e é autora, entre outros, de O assasinato de Bebê Martê e Às seis em ponto, no entanto, não tem nada a ver com os promances policiais clássicos, com aquele tradicional e esperado princípio, meio e fim. Não é este, também, o objetivo da autora, cujo interesse principal é levar o leitor até o último instante a participar com ela da trama, que seduz e intriga ao mesmo tempo. E mais: a descobrir as normas de um jogo cujas peças, nem sempre convencionais, podem ou não se encaixar.
Ligia Cademartori – Correio Braziliense, caderno Pensar, 31/03/02
Um livro de Elvira Vigna é para se ler devagar, sem risco de perder nada. A linguagem, no primeiro momento, parece simples e informal. Mas logo se percebe que no texto não há nada fora de lugar. A autora escreve como se macerasse cada palavra, para conhecê-la no íntimo, antes de liberá-la no fluxo do narrado. Nenhuma a mais nem a menos. É preciso conhecer e trabalhar muito a língua para escrever assim. Simplicidade? Não, estilo. Apurado, meticuloso, sutil. Mas nunca pedante.
Pouca gente do ramo consegue isso. Comprove na leitura de Coisas que os Homens não Entendem. Nada da tal escrita espontânea, de quem acredita demais no próprio talento e considera acabado o que ainda está em processo. Ou de seu contrário, os pretensos experimentalismos, não raro apenas contorções formais que pretendem efeitos que não alcançam. Tampouco se trata daquela escrita asséptica de quem morre de medo de emocionar e esquece por que, afinal, se abre um livro de ficção.
No romance de Elvira Vigna, a precisão da linguagem e o equilíbrio artesanal da forma encaminham a descoberta e o exame dos meandros de gentes e coisas, prestam-se à investigação de fatos e sentimentos contraditórios.
Há uma morte, uma saída repentina do país e um retorno em busca de algo que Nita, a protagonista, vai descobrir, passo a passo e com esforço, em parceria com o leitor. A maneira como morreu um homem, no pequeno apartamento do bairro Santa Teresa, é lembrança recorrente mas fragmentada. Precisa ser esclarecida. E, com ela, a identidade da narradora e dos que a cercavam na época, em teia de cumplicidades silenciosas.
O tempo na narrativa é tratado de modo impreciso, frontal e recusa à linearidade e à confiança no que guardou a memória. Narra-se no subjuntivo, o modo da incerteza. Um dos recursos desse processo é a repetição de frases que já foram ditas. Algo permanece na consciência e, no entanto, não é claro. Escapa. Resiste. E volta a desafiar. Mas a cada vez que retorna a ele, Nita consegue remover uma camada fina do enigma. Precisa continuar a fazê-lo para que o mistério se desfaça: ”Percebi que esse contar para ver se entendia o que ele próprio contava era um pouco o que eu fazia, sem parar, me contando, sem parar, a mesma história.”
Ela volta de uma sombria Nova York, onde trabalha como fotógrafa, para se pôr diante de um edifício decadente de Santa Teresa. Nele se espreme, em cômodos estreitos, uma classe média empobrecida, vizinha do narcotráfico. E, então, é como se uma lente invadisse o apartamento de subsolo, onde a morte ocorreu, para esquadrinhar minuciosamente aquilo que se entrega fácil à vista e também minúcias em que ninguém repara, pois não despertam interesse. No destaque de pormenores, uma arte de olhar, exercício de entender. A percepção e a explicação dos detalhes é parte do fazer literário dessa escritora para quem uma toalha de xadrez vermelha e branca não é só uma toalha de xadrez vermelha e branca. É um simulacro: o que as pessoas que a usam julgam que significa e foi a razão da escolha.
Nada é estável nem inequívoco nesse mundo romanesco: ”A única coisa real sendo sempre a coisa inventada, eu sei disso.”
Não se entenda pelo título, extraído de verso de Camões, que a perspectiva da narração exclui o mundo masculino. O terreno não é o das dicotomias. Nem incorre a autora nos desconcertantes estereótipos de relação amorosa presentes, hoje, em boa parte da literatura dita feminina. Lugar-comum e gosto folhetinesco nela não têm vez. A protagonista não é figura fácil. Na contramão da tendência conservadora de muitas autoras recentes, Coisas que os Homens não Entendem vem afirmar a pluralidade do feminino e seu transbordamento.
André Luis Mansur – O Globo, caderno Prosa & Verso, 04/05/02
Tudo começa numa Nova York onde as pessoas mal se falam e continua num bairro perdido no passado, a Santa Teresa boêmia de sempre, dos casarões antigos e das ruas de paralelepípedos. Num dos casarões houve um crime, contado de várias formas pela protagonista, que está sempre em busca de “um começo, um ponto de partida” e nunca sabe se suas viagens são de ida ou de volta.
Antes que se pense que este é um livro dirigido apenas às mulheres, como poderia sugerir o título, é preciso admitir que muitas das observações da fotógrafa Nita, que conta a história de um modo todo pessoal, sem obedecer aos cerimoniosos “começo, meio e fim”, serão entendidas de uma forma toda particular pelo público feminino. Mas o livro não discrimina ninguém.
Os detalhes são acrescentados aos poucos e dão a impressão de que tudo o que foi dito pode mudar completamente de sentido entre um parágrafo e outro. Parágrafos, aliás, muitas vezes separados por pequenas lamentações, observações críticas ou frases de impacto.
Com uma prosa leve e atraente, Elvira Vigna desvenda o sóbrio irritante das declarações de quem não tem o que falar na hora da morte (“para morrer basta estar vivo, dessa vida nada se leva, mais vale a nossa saúde…”) e descreve um domingo ensolarado e entediante, véspera de um exame de próstata às sete da manhã, como o pior dos infernos.
Um elemento estranho na narrativa é a extensa descrição do que aconteceu durante o noticiário de TV, visto de um apartamento de temporada numa noite solitária. Além da linguagem nada literária da decupagem de um programa de TV, o tom excessivamente irônico destoa do restante do texto, que muitas vezes é de uma informalidade típica das mesas de bar que retrata: “E que a verdade é que o fulano tinha tido um terrível piriri por causa de uma rabada na casa do sicrano, aonde ele fora sem avisar a mulher, porque ele estava de saco cheio da mulher”.
Na memória de Nita, que iniciou a carreira no antigo Correio da Manhã, o crime de Santa Teresa funciona como referência para uma vida resgatada nos aparelhos de TV sempre sem som, nos apartamentos vazios e nas dificuldades quase intransponíveis de relacionamento entre as pessoas. Uma busca constante por afeto, por entendimento, que tanto pode se dar no calçadão da orla, em Santa Teresa, no Acre ou na fria Nova York.
Os momentos felizes não duram muito e parecem cercados de uma tragédia iminente. O ritmo é dinâmico como as reviravoltas na vida da protagonista, que muitas vezes parece resumir seu cotidiano como se estivesse escrevendo um irônico diário feito às pressas: “Chegou de manhã bem cedo, fomos para o hotel, trepamos e depois saímos. Andamos, falamos bobagens, comemos porcaria”. A própria descrição do sexo deixa de lado qualquer tipo de lirismo e parece justificar o título do livro: “eu notando pela primeira vez a existência de centímetros quadrados de mim que antes me eram insuspeitados e que, para minha surpresa, pareciam ser importantíssimos para ele”.
palestra do evento Viagem Literária, organizado pela Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo entre os dias 17 e 20 de outubro de 2011, nas cidades de Bastos, Getulina, Penápolis, Pacaembu e Tupi Paulista.
esta palestra foi repetida, de forma atualizada e ampliada, em apresentação na Embaixada do Brasil em Lisboa, em 17/01/2012.
Passados dez anos da publicação do meu “Coisas que os homens não entendem”, volto a ele com um olhar menos pessoal. Vejo-o agora inserido em um panorama maior, e sobressai aquilo que primeiro me fez escrevê-lo: uma leitura detalhada e apaixonada de Camões. Só que Camões são muitos e, descubro, mais um além de todos os que vi naquela época. Então, o que trago aqui é um Camões a posteriori, um Camões no seu encaixe póstumo, recente, com a história macunaímica que é a nossa. Um Camões em um imaginário que só é perfeitamente entendível se na companhia de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e, modestamente, na minha.
Antes de mais nada, uma explicação sobre o título do meu livro. Sou feminista – no sentido “direitos humanos” da coisa. E que é , a meu ver, no que se resume o termo: uma questão básica de direitos humanos e nada além. Então, sou feminista sim. Mas o título do meu livro não diz respeito às muitas coisas que homens insistem em não entender. O título é um verso de Os Lusíadas.
Eu cito:
“Contar-te longamente as perigosas
Coisas do mar, que os homens não entendem:
Súbitas trovoadas temerosas,
Relâmpados que o ar em fogo acendem,
Negros chuveiros, noites tenebrosas,
Bramidos de trovões que o mundo fendem,
Não menos é trabalho, que grande erro,
Ainda que tivesse a voz de ferro.”
(Canto V)
Vou traduzir do português quinhentista para o nosso de agora. Diz ele que falar do novo, do inesperado (os relâmpagos que parecem fogo, trovoadas assustadoras e repentinas, chuvas torrenciais noturnas, trovões que parecem cortar o mundo em dois), e isso em meio a um oceano imenso e desconhecido, é um trabalho árduo. Aliás, nem é trabalho, é erro. Mesmo se ele, Camões, tivesse uma voz tão forte quanto o ferro.
Por quê? Por que falar do novo é tão trabalhoso, além de poder ser um erro?
É isso que vou responder, com a ajuda de um terceiro livro, Macunaíma, de Mário de Andrade, com seu personagem famoso pela frase-bordão “ai, que preguiça”. Mas não é por causa de uma preguiça macunaímica e tropical que integrar o novo parece ter sido tão trabalhoso e mesmo um erro, no entender de Camões. É porque é difícil mesmo. Macunaíma se lê Macunáima, como Roraima, que é, aliás, de onde vem o personagem, um mito indígena da fronteira do Brasil com a Venezuela. Mário de Andrade não é seu inventor, ele o roubou. Macunaíma, no mito e no livro de Mário de Andrade, nasce de uma índia que nem grávida estava, em meio a uma noite vazia, assustadora. No livro de Mário, ele nasce feio, negro e, depois de muitas aventuras, sai da floresta amazônica e acaba aparecendo em São Paulo, em busca de uma pedra mágica, o muiraquitã – que tinha virado um objeto de arte valioso, na coleção de um ricaço.
Vou falar um pouco de Mário de Andrade e da Semana de Arte Moderna, de 1922. O Brasil era visto como atrasado. Havia a questão de inserção de sua cultura em um panorama capitalista, urbano, cosmopolita. Foi um primeiro momento do modernismo, que podemos chamar então de vanguardista ou, pelo menos, inclinado à absorção das vanguardas. Logo depois, vem um segundo movimento. O que se colocou para os nomes principais do movimento – os dois Andrade, e mais Tarsila do Amaral e outros – era o que fazer com o acervo cultural coletivo, não autoral, de um Brasil rural, português, indígena e negro. Principalmente para Mário de Andrade, que inicia, então, uma série de viagens pelo interior do país, recolhendo as danças e cantos populares, e reproduzidno o jeito de falar interiorano, caipira, em seus livros.
É uma questão séria e não apenas brasileira. Todos os países de modernização tardia – e não gosto do termo: dá a impressão de que há uma data ideal para mudanças modernizadoras, e um caminho único para obtê-las, e não é isso de jeito nenhum. Mas é um termo usado. Então, todos os países de modernização tardia enfrentam o mesmo dilema e cada um resolve, ou não resolve, como pode. O Japão, por exemplo, resolveu abandonar suas tradições e se americanizar, inclusive na aparência, com uma avalanche de operações para amendoar os olhos das pessoas. A China gostaria muito de “modernizar” alguns aspectos de sua cultura, embora olhando com desconfiança para os apelos de democracia que lhe chegam do Ocidente. Lá, vê-se atualmente uma tensão que acompanho com muito interesse, porque acho parecida com a tensão que Mário de Andrade enfrentou e tentou resolver. Há, na China, um artista muito famoso, o Ai WeiWei. Ele pega peças tradicionais, de uma artesania muito disseminada, como a de trabalhos em madeira, e usa essas peças em suas montagens de arte contemporânea. Então são pilhas de cadeiras velhas, com encaixes manuais, sem pregos. Ou um chão coberto de sementes de girassol, feitas uma a uma, em cerâmica de forno caseiro, e pintadas a mão. WeiWei vive preso. O regime ditatorial chinês detesta ele. Acha que ele dá força e sustenta uma China arcaica que era bom se desaparecesse de vez. WeiWei é um Mário de Andrade. O que ele tenta, com sua insistência nas atesanias tradicionais, é uma junção entre o desenrolar moroso de uma cultura e o choque súbito desta cultura com outras, diferentes, e que lhe são sincrônicas no tempo. É o grave erro do Camões.
Veja bem. Camões não considera grave erro se lançar em uma viagem pelo novo. O que ele suspeita que seja um erro é contar essa viagem para quem ficou. É integrar o novo com o velho. Tal qual nosso Macunaíma sem nenhum caráter, Camões se enrolou com tudo que foi mulher, matou um cara, fugiu da polícia e buscou, a vida inteira, mostrar que seu muiraquitã – que no caso não era uma pedra verde em forma de sapo, mas uma obra em versos – merecia ser guardada com carinho. E merecia ser guardada e louvada, porque podia ser uma possibilidade de se integrar um velho povo rural e sedentário aos viajantes, através dos quais chegavam a Portugal as novidades de um Oriente muito sofisticado, culto, avançado e quase desconhecido.
Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno;
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor supremo,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.
(Canto X)
No meu “Coisas que os homens não entendem”, uma fotógrafa brasileira, que mora em Nova York, volta ao Brasil e depois volta a Nova York. É ela que conta a história, e o texto tem, inseridos nas frases, sem o uso de aspas ou qualquer outra marca, versos da obra de Camões. Fiz isso por pura admiração. Acho Camões um dos maiores escritores que já existiram. E fiz isso também porque o que conto no meu livro é, guardadas as diferenças entre um poema épico renascentista e um romance policial contemporâneo, a mesma coisa. Como Camões, eu também acho que contar o novo é grave erro, além de um trabalho muito grande.
A primeira frase do meu livro é:
Já faz muito tempo e é dessas coisas que a gente conta e reconta até perder completamente o que queria dizer e nem que soubesse.
O trabalho de Nita é ligado às comemorações dos 500 anos do descobrimento. Ela precisa fazer uma imagem que dê conta de representar o Brasil. Representar o que o Brasil foi e o que é. Integrados. Não consegue. Há um crime. Aconteceu antes de ela ir para Nova York da primeira vez. E aqui eu faço mais uma pausa: para falar de uma questão à qual Mário de Andrade e Camões se dedicaram muito. É a questão de que é preciso haver uma aceitação da morte para ser possível viver.
Em Macunaíma, o herói de Mário de Andrade perde sua pedra mágica porque ele se nega a fazer uma escolha. A deusa Vei oferece a ele uma das suas três filhas, com a condição de que se case e seja fiel à escolhida. Macunaíma engana a deusa, papa as três moças e não casa com nenhuma. E perde o muiraquitã que tinha sido uma espécie de presente de núpcias antecipado da sogra. É muito comum, nos contos populares do mundo inteiro, essa situação em que o herói precisa escolher entre três mulheres. Há uma explicação freudiana para isso. As três mulheres primordiais na vida de um homem são a mãe, a amante e a morte. É preciso, para a história acabar bem, que ele escolha sempre a terceira mulher que lhe é oferecida, e que sempre é a mais feinha. E isso porque só com a aceitação do imperfeito, do arriscado, do que não parece nem um pouco desejável, que é possível recuperar, no plano simbólico, as outras duas mulheres não escolhidas. Ao aceitar que você morre, que sua amante morre, e que sua mãe morre, a relação amorosa se torna uma relação de adulto. E você só ama se puder incluir neste amor a parte não prazerosa da vida.
Nita, ao voltar para o Brasil, precisará encarar de frente a morte ocorrida antes de sua partida para Nova York, há tantos anos.
Camões também precisa encarar a morte para ser recebido por Tétis na Ilha dos Amores.
Mário de Andrade dá uma versão escatológica de uma entrega física de Macunaíma – aquele que tentou não acolher a morte. Ele é literalmente comido por piranhas de um lago. Mas temos permissão do autor para interpretar este final de forma metafórica. O romance dele apresenta as cinco estruturas narrativas do romance ocidental. 1) A do mito – com personagens-deuses; 2) a romanesca – com personagens humanos mas que detêm poderes especiais, mágicos; 3) a imitativa elevada, típica das epopéias, das grandes histórias moralizantes e modelares, com grandes homens, que não são deuses nem têm poderes mágicos, mas são monumentos da moral e da coragem; 4) a imitativa baixa, que é uma crônica realista, cotidiana de personagens comuns; e, finalmente, 5) a irônica, com o autor mostrando seus personagens em situações ridículas, decadentes e malsucedidas. Mário usa as cinco, então, podemos entender essas piranhas, peixes femininos e agressivos do jeito que quisermos.
Essa viagem em direção ao novo e sua sempre difícil volta ao que ficou podem ser percebidas, não em relação a pontos geográficos, mas dentro de um processo de produção de bens simbólicos. Quer dizer, podemos falar a mesma coisa que estamos falando aqui dentro do próprio processo interno do fazer literário. O novo na literatura. A inclusão dos versos de uma obra antiga, a de Camões, no texto de um romance contemporâneo, o meu “Coisas que os homens não entendem”, é um processo de lidar com o novo já testado antes, e muitas vezes. Por exemplo, na pintura. Edouard Manet, incluiu seu tempo presente na feitura de uma arte que estava em outro tempo, o neoclassicismo. Manet resolveu seu problema através da cópia e da paródia. Seu “Déjeuner sur l’herbe” é uma paródia de um quadro renascentista. Seu retrato de Marcelin Desboutin, chamado “O artista”, é uma cópia de um bobo da corte de Vélasquez. Ele também precisava incluir um novo, a vida moderna, m uma prática artística que privilegiava o clássico. Seu método foi apontar essa tradição clássica, descontruí-la e repeti-la, com um novo significado.
Para não parecer que estou me comparando a Manet, Mário de Andrade e Camões, vou citar a professora Virgínia Maria Vasconcelos Leal, da Universidade de Brasília, que fez um estudo sobre este meu livro, intitulado Corpos, gêneros e identidades nos romances de Elvira Vigna, publicado no livro Deslocamentos da escritora brasileira, editado pela Universidade de Maringá e organizado por Lúcia Osana Zolin e Carlos Magno Gomes:
“A ideia da ida e da volta, e do encerramento de uma viagem se dar quando se rtorna ao ponto inicial marca o poema épico de Camões e também o romance de Elvira Vigna. Nita enfrenta ” coisas que os homens não entendem” (não mais as perigosas coisas do mar, do Canto V de Camões) não só os grandes desafios da aventura ultramarina, mas o elucidar da própria história em busca de um ponto ou porto de chegada que, no fim, estaria no seu relacionamento com Nando. A personagem que retorna ou vai a Nova York questiona, como Camões, onde ‘pode acolher-se um fraco humano’. A narrativa é circular, com frases que se repetem, e parágrafos irregulares, muitas vezes lembrando até mesmo o movimento das ondas do mar.”
E, em outro trecho:
“As personagens retornam ao Brasil, como os marinheiros de Camões, mas como diz a fotógrafa Nita: ‘não foi bem assim, cortando o mar sereno, com vento sempre manso e nunca irado, até que houveram vista do terreno em que nasceram, sempre desejado. Foi mais complicado’”.
Na leitura de Camões, ressalto cinco “inícios”.
São eles: 1) o início-início, quero dizer, o primeiro verso, o “As armas e os barões assinalados”; 2) o início da viagem, tema da epopéia, que vai se dar no I-19, aliás com os navios já em alto mar: “Já no largo Oceano navegavam”; 3) o terceiro início é quando Vasco da Gama, o principal dos vários narradores secundários, toma a palavra: III-3: “Prontos estavam todos escutando”; 4) o quarto início na verdade não é bem um início, mas a visão a partir da terra daqueles que partem. É o episódio do Velho do Restelo, personagem importantíssimo porque, nessa minha leitura, consolida todos os que ficam, simboliza o reacionarismo, conservadorismo e apagamento do povo português, incapaz, na visão de Camões, de absorver ou acolher o novo, o que lhes vêm através dos navegantes. É o IV-94: “Mas um velho de aspeito venerando”. O que o Velho do Restelo vai dizer aos que partem é uma maldição, é o rancor do antigo frente o novo: IV-102: “Oh! maldito o primeiro que no mundo / Nas ondas vela pôs em seco lenho!”. 5) o quinto início é quando Vasco da Gama conta afinal sua partida: V-3: “Já a vista pouco e pouco se desterra / Daqueles pátriso montes, que ficavam”.
Uma vez terminada a longa e sempre retomada partida, Camões começa a se desesperar com a impossibilidade de uma volta bem sucedida, a saber, uma volta que integre o novo no que ficou. Ele considera essa dificuldade uma característica do povo português. E se compara aos mestres das epopéias gregas que teriam obtido o que ele duvida obter. No entanto, tanto ele, Camões, quanto esses mestres antigos, são iguais: ambos falam só a verdade sobre as maravilhas desconhecidas: V-23; V-89; V-97/98.
No VII, a viagem chega ao seu destino, as Índias. E Camões passa a alternar seu desalento com a admiração pelos feitos portugeses: VII-14: “E, se mais mundo houvera, lá chegara”, que se contrapõe aos VII-78; X-8/9.
Depois de iniciar cinco vezes sua viagem/epopéia, usar quase 9 mil versos para descrevê-la, Camões retorna a Portugal em 14 versos. X-143/144: “Assim lhe disse; e logo movimento / Fazem da ilha alegre e namorada.
Do X-145 em diante, Camões retoma o verdadeiro tema de sua obra: a dificuldade em integrar o novo em algo muito antigo, a pátria portuguesa: “Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenha / Destemperada e a voz enrouquecida”.
Na verdade não são 14 versos a representar a chegada de uma viagem. É toda a epopéia, é a verdadeira epopéia: o que fazer com o novo.
Trabalhos acadêmicos
MIRANDA, Adelaide. “A amnésia no campo minado: o papel do esquecimento na literatura brasileira de autoria feminina”. UnB, Instituto de Letras, programa de pós-graduação em literatura, abril 2011.
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DA MATA, Anderson Luís Nunes. “As fraturas no projeto de uma literatura nacional: representação na narrativa brasileira contemporânea”. UnB, Instituto de Letras, programa de pós-graduação em literatura, maio de 2010, orientação Regina Dalcastagnè.
.23 de December de 2008