ELVIRA VIGNA: COISAS QUE OS HOMENS NÃO ENTENDEM (Brasil, Companhia das Letras, 2002, 160p.; Suécia, ed. Tranan, 2005, 220p) – uma seleção de críticas do livro publicadas na imprensa
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Beatriz Resende – Jornal do Brasil, Caderno Idéias, 16/03/02
Há escritoras e escritoras – Questão da identidade feminina nas obras de Elvira Vigna e Simone Ostrowski
Se já foi politicamente importante criar um Dia Internacional da Mulher, marcado por protestos, atos de solidariedade e de luta pelos direitos humanos, entre nós, as sem véus, a data provoca hoje uma atitude um tanto dúbia. Por um lado, cumplicidade através de sorrisos e e-mails, mas, por outro, certa impaciência. As que lidam com a data através do humor são, em geral, as mais bem-sucedidas, ainda que raras. Se aproveitamos para reiterar as campanhas contra a opressão que chega a ameaçar a vida de ”irmãs” submetidas ao autoritarismo de regimes políticos e/ou religiosos, sentimos também algum incômodo, como se saíssemos à rua com uma roupa fora de moda.
Parece-me que este pouco à vontade surge, principalmente, diante da generalização totalizante com que o termo mulher vai sendo absorvido por campanhas publicitárias ou qualquer outra forma de expressão dirigida ao grande público que pretenda atingir a minoria que, por aqui, é numericamente maioria.
Aí temos desde ”desejos de mulher”, ”bolsa de mulher”, ”coisa de mulher” até ”candidata de mulher”. E percebemos o quanto tais generalizações podem ser perigosas em vez de unificadoras.
Ética e sobrevivência – Apresentando Critical passions, Mary Louise Pratt e Kathleen Newman, editoras deste último livro de Jean Franco, apontam, no trabalho da ensaísta, dois conceitos fundamentais: ética e sobrevivência. Ética proposta não como uma forma fraca de moralidade, mas como estrutura de pensamento e valores ligada à prática e ”capaz de exercer uma força epistemológica contra a extrema instrumentalidade dos regimes”. Sobrevivência não como o estado mínimo, mas como categoria analítica e existencial surgida de confrontos entre autoritarismo e sistema de gênero. Através da chamada ”análise de gênero” do autoritarismo, sobrevivência adquire sentido, para Jean Franco, como categoria existencial, analítica e ética. Segundo a dupla de editoras, torna-se então necessário redefinir sobrevivência em termos positivos: sobrevivência versus desintegração social, versus etnocídio, versus vitimização, morte, passividade.
Pensando nesta oposição entre sobrevivência/ética e vitimização/passividade e tentando o humor, eu poderia afirmar que, mais diferente de uma mulher do que outra mulher, somente um homem.
É assim com consumidoras, com amantes, com eleitoras ou candidatas e com escritoras. Foi assim que me senti diante de dois romances escritos por mulheres: Coisas que os homens não entendem, de Elvira Vigna, e A arte secreta do desejo, de Simone Ostrowski.
Os dois romances têm como personagem principal uma mulher. No romance de Elvira Vigna esta personagem é a narradora, sujeito portanto. Em Simone Ostrowski não, há o tradicional narrador onisciente, sabe tudo. As duas mulheres se deslocam espacialmente e, nessa viagem, buscam mais que uma mudança de lugar, buscam uma compreensão de sua identidade. Provavelmente por haver estes pontos iniciais em comum, as duas obras revelam-se tão profundamente diferentes.
Diferenças – A principal diferença diz respeito justamente à questão da identidade . Elvira Vigna cria um romance em que se percebe que a identidade contemporânea é plural, contraditória por vezes, e que o sujeito – da vida, do romance, da experiência cultural – pode assumir identidades diferentes em momentos diferentes. Já a personagem de Simone Ostrowski quer convencer o leitor de que existem indivíduos (neste caso uma jovem mulher) dotados de razão e sensibilidade reunidas num núcleo contínuo e imutável, detentores de critérios de valores universais.
Coisas que os homens não entendem é um livro arrojado, com uma técnica de condução da narrativa tão elaborada quanto pouco arrogante. A escrita que não teme o fragmentário também não se apóia, em momento algum, nos ”efeitos especiais” que andaram perturbando a ficção contemporânea. A mesma coloquialidade que aproxima o leitor da história contada traz para a narrativa o repertório de referências da autora desde o título, saído de poema de Camões – ”coisas do mar, coisas que os homens não entendem” – mas que se faz familiar ao ser ressemantizado de forma a evocar a oposição homem/mulher.
Nita, a narradora personagem, sai de Nova Iorque, onde mora com a namorada Eva, garçonete de um Brooklyn empobrecido e de mau gosto, e volta ao Brasil, em viagem que deve ser rápida, sob desculpa de trabalho, mas na verdade em busca de algum tipo de acerto de contas. No Rio, divide o pouco tempo de que dispõe entre o sujo apartamento de temporada emprestado e as ruas de Santa Teresa. Essa Santa Teresa, minuciosamente descrita, é a Santa Teresa decadente, de uma classe média rebaixada aos limites mínimos, vizinha do narcotráfico. Mas Nita é artista gráfica, seu olhar, sua sensibilidade vão revelando sem mediadores as seduções dos becos e das pessoas.
O acerto de contas que marca esta volta passa pela morte de Lio, o marido da Lia, assassinado ao abrir a porta do apartamento em Santa Teresa. Lio é o ex-traficante que decidira ”ano que vem vou ficar pobre” para poder se casar com a Lia, na verdade Suélia. Mas a violência está na história como está no nosso cotidiano carioca, brasileiro. Receber um bala no peito é questão de acaso.
Plano B – A viagem de Nita, mochileira, viajando com três blusas boas e uns cacarecos, é uma espécie de ”plano B” para a própria vida, na busca de uma independência que a arrasta por hotéis baratos, televisões sem som, bares e caminhadas sem muito destino pelas ruas do centro do Rio tanto como pelas de Nova Iorque. ”Eu sempre acho que minha vida eu mesma invento, eu sempre acho que eu ainda não cheguei”. Se o pretexto é descolar ”alguma picaretagem com a festa dos 500 anos”, mostrando bem que ”uma coisa eu aprendi nesse tempo em que passei entre os gringos e foi não discutir com dinheiro, se você quer, você pega, se não quer não enche o saco” , o sentido da volta vai sendo descoberto na própria viagem. Não deixou Nova Iorque por causa da ”mulher cor-de-rosa e rebolativa” e nem vai ficar por causa do amor de Nando: ”não foi esse o motivo de nada, imagine, um homem, tão pouco”. Porque não procura termina achando. Porque afirma que ”só conseguimos enxergar o que já vimos”, o encontro é um reencontro. Reencontros com Nando e com Nita, ela mesma.
A arte secreta do desejo lembra, várias vezes, Fragmentos de um discurso amoroso de Roland Barthes. Mas lembra pelo contraste. Enquanto Roland Barthes, reconstruindo o discurso que afirma ser ”de uma extrema solidão”, se utiliza de um repertório de citações e referências literárias e filosóficas para criar uma composição absolutamente original, num trânsito entre a tradição e inovação antecipadores das criações pós-modernas, o romance de Simone Ostrowski não passa de uma exibição gratuita (será gratuita mesmo?) de erudição. Ou melhor, de conhecimentos que parecem sair dos Gênios da pintura e outras obras de divulgação.
Pretensão – Obras mais autênticas e sinceras que o exercício de pedantismo deste romance dedicado a São Judas Tadeu em que o leitor é submetido a breves lições como: ”Segundo Platão, aquilo que não se tem, aquilo que não se é, eis os objetos do desejo e do amor.” Ou, mais adiante: ”Vamos ver suas origens. Vindo do grego metamorphosis, assinalava a transformação de um ser em um outro, tão habitual na mitologia.” Pois é assim mesmo que fala a personagem principal, Kandinsky, historiadora da arte e conservadora de um grande museu, que deixa a Itália, vem para o Brasil e se envolve com o blasé Goya, mistura de marchand com playboy e o encanta em momentos tão espantosos como este: ”Por exemplo, existe um ponto na teologia, explicou Kandisnsky, bastante interessante. É o que se chama de apofaticismo.” Mas, na verdade, o que quer é vingar a mamãezinha, seduzida e abandonada, com dois filhos para criar num palacete renascentista qualquer.
Pensando bem, se o leitor é submetido a tão maçantes lições e louvações à alta cultura – ”Eu não gosto de inconsistências, só a obra autêntica me interessa” – a culpa é toda dele. Afinal, Antonio Olinto avisara, no prefácio, que se trata de ”romance de um misticismo intenso, mas também, lírico”.
Chegamos à conclusão de que Paulo Coelho não é para qualquer um. Mais uma página e faço a defesa veemente da candidatura do mago à ABL.
Para piorar a situação, ao publicar este manual de citações para encontros românticos, a simpática editora Revan parece ter despedido o revisor e a linguagem da autora, em sua opção pelo registro erudito, ignora as mais básicas regras de colocação de pronomes ou regência verbal.
Acabando com quem merece a atenção do leitor, faço uma ressalva a Coisas que os homens não entendem. Pessoalmente, preferiria que o romance terminasse com a radicalidade com que se inicia, mas isso não chega a ser um problema. Talvez, neste ”Brasil de bunda solta e ritmado, o Brasil da música americana”, não dê ainda para contar a história dos índios de Campo Grande, ”índios prostitutos, de michê, à noite, na praça” nem o romance da artista brasileira com a garçonete americana. Talvez ainda seja necessário afirmar muita igualdade para se indagar sobre as diferenças. Afinal, como diz a narradora em determinado momento: ”A guerra não acabou, É só uma trégua. Assinado Primo Levi.’
Carlos Graieb – Revista Veja, seção Veja Recomenda, 20/02/02
Há vezes em que um título é apenas um título. Em outras ocasiões, ele é uma boa chave de interpretação. Coisas que os homens não entendem pertence ao segundo caso. Ele ajuda o leitor a perceber que o que está em jogo no quarto romance da carioca Elvira Vigna é a questão da identidade feminina. E o lembrete é importante porque essa questão de identidade, ainda que central, aparece de maneira encoberta no texto.
Ostensivamente, Coisas que os homens não entendem gira em torno de uma morte. Ao voltar para casa uma tarde, Aureliano é atingido por um tiro e morre estirado na escada. O disparo será creditado a um assaltante. Mas o fato é que ele foi feito por uma das pessoas que estavam na casa: a mulher e o filho de Aureliano, seu pai e uma amiga da família – Nita, que é também a narradora. De volta ao Brasil depois de uma temporada nos Estados Unidos, as circunstâncias desse assassinato são um assunto que persegue Nita, e que ela tenta abordar de várias perspectivas.
A verdade, porém é que a morte de Aureliano é apenas um elemento do enredo. Aquilo que realmente importa é a caracterização de Nita. Bissexual, desprovida de quaisquer laços familiares, profissionais ou afetivos firmes, estrangeira em Nova York e desenraizada no Brasil, ela é uma mulher de meia-idade que não se encaixa em nenhum dos papéis que mulheres de meia-idade costumam ocupar – na sociedade e na literatura. Impaciente com as convenções, exasperada com as “coisas que os homens não entendem”, é o enigma de como construir sua liberdade o que realmente interessa a ela. E é esse “enigma” que Elvira Vigna de fato tenta explorar em seu livro. Fragmentário, opaco, às vezes até mesmo cansativo, Coisas que os homens não entendem não é um livro de leitura envolvente. Nita, porém, é seu trunfo: um dos personagens femininos mais inusitados da ficção brasileira recente.
Patrícia Rocha – Zero Hora, segundo caderno, 20/03/02
Coisas que os homens não entendem, romance de Elvira Vigna, não é uma versão brasileira de best-sellers à moda Bridget Jones nem um desabafo feminista.
É a história de um crime e de uma dor contados por uma mulher de meia-idade, Nita, embora em nada se pareça com uma trama de suspense. O mistério revelado em uma mala com três blusas boas, muitas lembranças e uma conversa são as coisas do passado de Nita que os homens de sua vida não entendiam. Nem ela.
No início do livro, tudo o que o leitor consegue descobrir sobre essa mulher intrigante é que a fotógrafa brasileira havia encontrado refúgio e o ombro de outra mulher em Nova York. E que finalmente era hora de viajar ou voltar ao Brasil. Ela não saberia qual o verbo certo a usar, porque temia chegadas e decisões definitivas. Mas Nita infim chega ao Rio de Janeiro e se aproxima de seu destino e de suas lembranças, o tradicional bairro de Santa Tereza. Lá, havia morrido Aureliano, o Lia, no momento em que chegou a seu apartamento, onde o aguardavam a mulher, o pai, o filho e a amiga da família, Nita.
O tiro disparado em Aureliano vai sendo reconstituido aos poucos, pelas lembranças e ironias da personagem. É quando o leitor descobre que ela teve parte na morte de Lia, um criminoso regenerado, filho de Barbosa e irmão de Nando. E que Barbosa era um antigo caso de Nita, que nunca pôde ser chamado de amor, e Nando, o único homem que sempre esteve ao lado da protagonista e provavelmente quem mais a compreendia.
Nesse emaranhado, Nita descobre a si mesma, e finalmente revela o que há por trás de seu olhar mórbido e seco ao descrever pessoas e lugares e ao assistir televisão sem som. Mas a fotógrafa tem somente três blusas na mala, e com tão pouca roupa e tão poucas certeza, nenhuma chegada pode ser para sempre.
No romance, a jornalista carioca Elvira Vigna desarma o leitor a cada capítulo com uma trama original e envolvente. O leitor se envolve nas memórias e contradições de Nita, por vezes se impacienta com seu tom mordaz, e é incitado a acompanhá-la até o fim das 160 páginas. O crime se desvenda muito antes disso, mas o grande desafio do livro não é descobrir o assassino e sim entender Nita. E seus homens.
Elvira formou-se em literatura pela Universidade de Nancy, na França, e tornou-se mestre em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela assina uma coluna mensal no jornal O estado de São Paulo e lançou três títulos anteriores – O assassinato de Bebê Martê, Às seis em ponto e O jogo dos limites (juvenil).
Carlos Herculano Lopes – Estado de Minas, caderno Pensar, 23/03/02
O centro narrativo de Coisas que os homens não entendem, novo romance de Elvira Vigna, carioca que nasceu em 1947, passa pela personagem Nita, uma fotógrafa que vive em Nova York, onde divide um apartamento e a intimidade com uma modelo. Só que, de um dia para o outro, Nita resolve voltar ao Rio de Janeiro, com a desculpa de que faria uma viagem rápida, de tabalho, para assim despistar a amiga. Mas o que ela quer mesmo – e à medida que vamos nos aprofundando na leitura, isto também vai se tornando claro – é fazer uma espécie de acerto de contas com o passado.
Este volta com força quando Nita, já no Rio, vagando pelo bairro de Santa Teresa, com seus velhos casarões e ruas íngremes, tenta entender o assassinato de Aureliano, o Lia, um ex-traficante que um dia, nandando contra a maré, resolveu que queria ser pobre. Como a morte de Lia, que também é casado com a Lia, cujo nome de fato é Suélia, está no epicentro do romance, Elvira Vigna vai levando o leitor, aos poucos, a não só ir se embrenhando na obra, como também a querer saber o mais rápido possível o desfecho do romance. Por trás de tudo está Nando, irmão do morto, que não tem interesse em ver o crime esclarecido, “pois será melhor para todos”. Ele não se importa, inclusive, em dar grana a alguns policiais, para que as investigações não andem.
O livro de Elvira Vigna, que se formou em literatura pela Universidade de Nancy, e é autora, entre outros, de O assasinato de Bebê Martê e Às seis em ponto, no entanto, não tem nada a ver com os promances policiais clássicos, com aquele tradicional e esperado princípio, meio e fim. Não é este, também, o objetivo da autora, cujo interesse principal é levar o leitor até o último instante a participar com ela da trama, que seduz e intriga ao mesmo tempo. E mais: a descobrir as normas de um jogo cujas peças, nem sempre convencionais, podem ou não se encaixar.
Ligia Cademartori – Correio Braziliense, caderno Pensar, 31/03/02
Um livro de Elvira Vigna é para se ler devagar, sem risco de perder nada. A linguagem, no primeiro momento, parece simples e informal. Mas logo se percebe que no texto não há nada fora de lugar. A autora escreve como se macerasse cada palavra, para conhecê-la no íntimo, antes de liberá-la no fluxo do narrado. Nenhuma a mais nem a menos. É preciso conhecer e trabalhar muito a língua para escrever assim. Simplicidade? Não, estilo. Apurado, meticuloso, sutil. Mas nunca pedante.
Pouca gente do ramo consegue isso. Comprove na leitura de Coisas que os Homens não Entendem. Nada da tal escrita espontânea, de quem acredita demais no próprio talento e considera acabado o que ainda está em processo. Ou de seu contrário, os pretensos experimentalismos, não raro apenas contorções formais que pretendem efeitos que não alcançam. Tampouco se trata daquela escrita asséptica de quem morre de medo de emocionar e esquece por que, afinal, se abre um livro de ficção.
No romance de Elvira Vigna, a precisão da linguagem e o equilíbrio artesanal da forma encaminham a descoberta e o exame dos meandros de gentes e coisas, prestam-se à investigação de fatos e sentimentos contraditórios.
Há uma morte, uma saída repentina do país e um retorno em busca de algo que Nita, a protagonista, vai descobrir, passo a passo e com esforço, em parceria com o leitor. A maneira como morreu um homem, no pequeno apartamento do bairro Santa Teresa, é lembrança recorrente mas fragmentada. Precisa ser esclarecida. E, com ela, a identidade da narradora e dos que a cercavam na época, em teia de cumplicidades silenciosas.
O tempo na narrativa é tratado de modo impreciso, frontal e recusa à linearidade e à confiança no que guardou a memória. Narra-se no subjuntivo, o modo da incerteza. Um dos recursos desse processo é a repetição de frases que já foram ditas. Algo permanece na consciência e, no entanto, não é claro. Escapa. Resiste. E volta a desafiar. Mas a cada vez que retorna a ele, Nita consegue remover uma camada fina do enigma. Precisa continuar a fazê-lo para que o mistério se desfaça: ”Percebi que esse contar para ver se entendia o que ele próprio contava era um pouco o que eu fazia, sem parar, me contando, sem parar, a mesma história.”
Ela volta de uma sombria Nova York, onde trabalha como fotógrafa, para se pôr diante de um edifício decadente de Santa Teresa. Nele se espreme, em cômodos estreitos, uma classe média empobrecida, vizinha do narcotráfico. E, então, é como se uma lente invadisse o apartamento de subsolo, onde a morte ocorreu, para esquadrinhar minuciosamente aquilo que se entrega fácil à vista e também minúcias em que ninguém repara, pois não despertam interesse. No destaque de pormenores, uma arte de olhar, exercício de entender. A percepção e a explicação dos detalhes é parte do fazer literário dessa escritora para quem uma toalha de xadrez vermelha e branca não é só uma toalha de xadrez vermelha e branca. É um simulacro: o que as pessoas que a usam julgam que significa e foi a razão da escolha.
Nada é estável nem inequívoco nesse mundo romanesco: ”A única coisa real sendo sempre a coisa inventada, eu sei disso.”
Não se entenda pelo título, extraído de verso de Camões, que a perspectiva da narração exclui o mundo masculino. O terreno não é o das dicotomias. Nem incorre a autora nos desconcertantes estereótipos de relação amorosa presentes, hoje, em boa parte da literatura dita feminina. Lugar-comum e gosto folhetinesco nela não têm vez. A protagonista não é figura fácil. Na contramão da tendência conservadora de muitas autoras recentes, Coisas que os Homens não Entendem vem afirmar a pluralidade do feminino e seu transbordamento.
André Luis Mansur – O Globo, caderno Prosa & Verso, 04/05/02
Tudo começa numa Nova York onde as pessoas mal se falam e continua num bairro perdido no passado, a Santa Teresa boêmia de sempre, dos casarões antigos e das ruas de paralelepípedos. Num dos casarões houve um crime, contado de várias formas pela protagonista, que está sempre em busca de “um começo, um ponto de partida” e nunca sabe se suas viagens são de ida ou de volta.
Antes que se pense que este é um livro dirigido apenas às mulheres, como poderia sugerir o título, é preciso admitir que muitas das observações da fotógrafa Nita, que conta a história de um modo todo pessoal, sem obedecer aos cerimoniosos “começo, meio e fim”, serão entendidas de uma forma toda particular pelo público feminino. Mas o livro não discrimina ninguém.
Os detalhes são acrescentados aos poucos e dão a impressão de que tudo o que foi dito pode mudar completamente de sentido entre um parágrafo e outro. Parágrafos, aliás, muitas vezes separados por pequenas lamentações, observações críticas ou frases de impacto.
Com uma prosa leve e atraente, Elvira Vigna desvenda o sóbrio irritante das declarações de quem não tem o que falar na hora da morte (“para morrer basta estar vivo, dessa vida nada se leva, mais vale a nossa saúde…”) e descreve um domingo ensolarado e entediante, véspera de um exame de próstata às sete da manhã, como o pior dos infernos.
Um elemento estranho na narrativa é a extensa descrição do que aconteceu durante o noticiário de TV, visto de um apartamento de temporada numa noite solitária. Além da linguagem nada literária da decupagem de um programa de TV, o tom excessivamente irônico destoa do restante do texto, que muitas vezes é de uma informalidade típica das mesas de bar que retrata: “E que a verdade é que o fulano tinha tido um terrível piriri por causa de uma rabada na casa do sicrano, aonde ele fora sem avisar a mulher, porque ele estava de saco cheio da mulher”.
Na memória de Nita, que iniciou a carreira no antigo Correio da Manhã, o crime de Santa Teresa funciona como referência para uma vida resgatada nos aparelhos de TV sempre sem som, nos apartamentos vazios e nas dificuldades quase intransponíveis de relacionamento entre as pessoas. Uma busca constante por afeto, por entendimento, que tanto pode se dar no calçadão da orla, em Santa Teresa, no Acre ou na fria Nova York.
Os momentos felizes não duram muito e parecem cercados de uma tragédia iminente. O ritmo é dinâmico como as reviravoltas na vida da protagonista, que muitas vezes parece resumir seu cotidiano como se estivesse escrevendo um irônico diário feito às pressas: “Chegou de manhã bem cedo, fomos para o hotel, trepamos e depois saímos. Andamos, falamos bobagens, comemos porcaria”. A própria descrição do sexo deixa de lado qualquer tipo de lirismo e parece justificar o título do livro: “eu notando pela primeira vez a existência de centímetros quadrados de mim que antes me eram insuspeitados e que, para minha surpresa, pareciam ser importantíssimos para ele”.
.December 23, 2008