ELVIRA VIGNA: O ASSASSINATO DE BEBÊ MARTÊ (Companhia das Letras, 1997, 128p.)

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Capítulo 1 :

terça de manhã, pode ser que chova

Ela telefona chorando que tem que resolver logo, se o fax está ligado. Não está. Ela chora mais um pouco que eu não sabia como ela tinha passado a noite, para eu ligar o fax. Eu falo que não quero ler nada, e agora a previsão do tempo, cala a boca que eu quero saber se vai chover. Mas por que você não quer ler?, outro choro, então eu vou te ler alto no telefone. Não, eu digo, ler alto não, você sabe que eu não consigo prestar atenção pelo ouvido, mas que saco, Lucia, você fica forçando. Uma invasão de aranhas assassinas aterrorizando toda uma cidade, versão brasileira Herbert Richers, perdi a previsão. Desligo. Subo a escada. Ligo o fax. Saio para o trabalho. Nas minhas costas o barulhinho do fax cuspindo um véu de noiva escatológico, aren’t they all.
O elevador, o espelho do elevador. A moça que trabalha comigo diz que a gente só deve olhar em espelho conhecido e que mesmo assim se um espelho conhecido se meter à besta e espelhar torto, com ruga, papada, beiço franzido, cabelo escorrido, é jogar o espelho fora imediatamente.
Esqueci da faxineira. Volto, me sento na poltrona e espero. O fax está lá em cima, eu sei, mas fica para depois.
Vou fazer barato: oi minha filha, o material de limpeza fica embaixo da pia, tenho certeza de que você vai acertar tudo, eu sou boníssima, até logo.
O espelho do elevador outra vez, outra vez uma papada maior de um lado do pescoço do que do outro. Se eu me encontrasse na rua provavelmente não me reconheceria mas o guardinha da porta me reconhece. Vou chegar lá e ele vai dizer bom dia.
— Bom dia, senhora.
O ar condicionado do hall de mármore no suor da caminhada. É o tempo exato de o suor secar enquanto espero um dos cinco elevadores que chegam e saem sem nenhum barulho, quem faz barulho é a luz de cima, piiiim, depois a subida, a chegada e abrir o armário, já sem suor e até com um pouco de frio para pegar o casaco-de-trabalho que vai por cima de qualquer roupa e me deixa com cara de tia velha. É bom, os homens relaxam quando acham que você não quer ir para a cama com eles.
Preciso pensar em algo mais do que a implementação da reengenharia do processo que requer um sentido de urgência compartilhado por todo o grupo de trabalho teamwork entre parênteses.
Um romance de tirar o fôlego, cujo primeiro capítulo não vou mandar em fax para a Lucia porque eu tenho que manter uma certa hierarquia aqui. Ela me manda texto, eu não. Meu texto poderia ser só diálogos.
— Bom dia, eu sou a Ana, a faxineira que a dona — quem foi mesmo que recomendou essa daqui?– recomendou..
— Oi, Ana, teve dificuldade em achar o endereço? (meu deus, eu sou boníssima).
— Não senhora.
— Bem (pequena hesitação tipo não sou infalível, saberei compreender eventuais falhas tuas mas a cozinha tem que ficar bem limpa). Bom, vamos fazer o seguinte, senta, toma um café, pega um pãozinho na geladeira que eu já te explico tudo. Mas não se preocupe, você vai pegando o serviço aos poucos.
— Obrigada.
Mas ela não quer pãozinho.
— Pega um pãozinho, o que é isso.
— Não, obrigada.
— Ora, café puro. Pega um pãozinho.
Eu posso pegar o pãozinho e enroscá-lo boca adentro dizendo come, porra, você está estragando meu papel de boníssima.
A moça que trabalha comigo está parada na porta da salinha ascética cinza claro com detalhes cinza escuro. O Bom diiiiia que ela dá com a mesma entonação todos os dias é uma tentativa de imposição. Embora seja uma terça-feira tão chata quanto qualquer outra, oito e meia da manhã, estamos decidindo – ela ao dizer o bom diiia e eu ao responder – que está tudo ótimo, que estamos todos muito contentes, que nos damos maravilhosamente bem e que o dia vai correr com muitas alegrias.
— Bom diiiiia.
E ela me mostra a cicatriz da operação de gengiva que ela fez na sexta-feira passada, ontem não veio trabalhar, eu queria ser assim, ir matando o trabalho por qualquer operaçãozinha de reconstrução de gengiva e estrutura óssea de raiz de quatro dentes bom diiiiia, coração. E entorto um pouco a cabeça em mimetismo automático de fragilidade, vai ser difícil sair do papel de boníssima. Mas também serve, daqui a cinco minutos começo a contar para ela mais um pouco da minha vida passada, homens, dinheiro, epopéias, histórias dramáticas, engraçadíssimas, marcantes, um que outro personagem famoso, cenários exóticos, na verdade você ainda não sabe disso mas. Às vezes me preocupo com a congruência, mas só eu, ela devora tudo igual. Eu devia escrever. Quem sabe hoje ela retribui com um pouco de realidade, sabe, eu sou lésbica, ninguém aqui dentro sabe disso. Eu ia adorar mas entra o Evaldo, por que não tem flor negra? porque preto não é flor que se cheira e ele rola de rir, o lábio grosso escancarado, é baiano, se disser que é mulato, mata. Eu tenho que dar um jeito na minha vida.


.23 de December de 2008