ELVIRA VIGNA: INFANTIS – Lã de umbigo (Antares/INL-MEC, 1979, 64p.)
– prêmio Jabuti de literatura infantil

 

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fora de catálogo, texto integral

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O gigante Antão

Tinha um gigante fortão, mas muito burro.  Ele morava no meio de uma floresta no meio do mundo, e ficava pensando o dia inteiro qual era a vantagem de ser gigante sem ter ninguém por perto.

Gigante só é vantagem quando os outros sabem que a gente é gigante.
Essa foi a brilhante conclusão a que Antão (nosso gigante) chegou, depois de 56 anos de esforços mentais contínuos. Depois de outros 23 anos de indecisão, Antão resolveu que, neste caso, o mais aconselhável era ir para algum lugar habitado, onde as pessoas pudessem morrer de medo com sua presença.

Andou, andou, então Antão acabou chegando no mesmíssimo lugar, pois a terra já era redonda nessa época.

— Não é possível. Se eu existo, deve ter mais alguém. Eu não ia existir assim sozinho que isso não faria o menor sentido.

Deu outra volta e nada.

E teria passado a vida dando voltas se não tivesse um dia se abaixado para cortar a unha encravada do mindinho esquerdo e visto os serezinhos que se agitavam lá embaixo no seu pé.

— Aaaaahhhh!!!! Tem gente!!!

O aaaahhhh!! dele arrasou uma cidade inteira e devastou uma floresta tropical, provocando grande movimentação de ecologistas.

— Ei, bilu, bilu!

Mas os serezinhos não lhe davam a menor atenção. Antão podia matar milhares deles com um simples mau hálito, mas não conseguia que eles lhe dessem atenção.
— Psiu! Coisinha!

Mas nada. Até que, depois de várias fúnebres tentativas fracassadas, Antão conseguiu pegar unzinho todo peludo.

Agarrou o bicho pelos cabelos e disse:

— Oi! Eu sou um gigantão perigosíssimo!

Mas o cabeludo, de olho vidrado, só dizia pô, demais esse chazinho! pô! sem demonstrar o menor medo. Aliás, a bem da verdade, sem demonstrar absolutamente nada. E Antão teve que largá-lo para tentar melhor sorte. Com o segundo já conseguiu resultados um pouco melhores.

— Antão, o gigantão, muito prazer!

— Que Antão que nada, você é apenas um terremoto magnético intergalático igual ao dos meus joguinhos.
— Guiné de quem? Sou Antão!!

— E essa tua voz é apenas um trovão um pouco mais forte.

— Trovão?! Antão!!!

— E essa mão que me pegou não existe. É um fenômeno psíquico de realidade virtual-virtual, muito comum em gente como eu.

— Não!! A mão é de Antão, o gigantão!!

— Para com isso. Todo mundo sabe que não tem gigante. O senhor é uma imagem em três dimensões. Eu não posso lhe provar nada porque não tenho o conhecimento necessário das leis da eletrotransmissão magnetorreflexiva, mas qualquer um que já tenha comprado a nova versão desse programa lhe provará, em um minuto, que o senhor não passa de um conjunto de parâmetros de pixels com ilusão espacial. Sua presença é explicável direitinho com meia dúzia de algoritmos matemáticos, dois mapas metereológicos universais e três noções básicas de como mexer em um computador. E faça o favor de me largar!

Antão largou.

E passou mais 187 anos pensando qual era a vantagem de ser um gigante, com gente sabendo que ele era um gigante, mas explicando sua enorme presença por meia dúzia de algo, algo o quê mesmo?

E desta vez não conseguiu chegar a nenhuma conclusão.

 

A fada Neide e o sapo Nestor

A fadinha Neide mudava tudo que via com sua varinha mágica. O que, aliás, não passava de sua obrigação, sendo ela uma fadinha e sendo sua varinha uma varinha mágica.
Neide via, por exemplo, um copo d’água, mudava para xícara de leite. Assim, só pelo prazer de mudar.

As pessoas gostavam dela porque a gente aprende desde pequeno que se deve gostar das fadas. Mas no fundo, no fundo, não gostavam não. Mudanças sempre são um aborrecimento.
Tinha um sapo, então, que detestava a Neide. Na vida, já tinha sido – graças a artes e desartes dela – doce de abóbora, música e cobra. O tempo que viveu sendo cobra foi o pior, pois ficava sempre com vontade de se comer a si mesmo, o que lhe causava uma dor de cabeça terrível. Estava à beira da morte por suicídio e/ou inanição quando Neide desencantou-o e ele voltou a ser sapo, comedor de mosquito, inimigo de cobra.
O sapo se chamava Nestor e, no momento em que tudo aconteceu estava – galhos ao vento – filosofando sobre as amarguras deste mundo.

Para os distraídos, o sapo Nestor era uma mera mangueira e Neide apenas uma menina chupando manga-rosa à beira de um riachinho.

— Ô Neide! – falou um dos galhos.

— Que é?

— Ô Neide! Não está certo isso que você faz. Modifica tudo, mal a gente se acostuma com as coisas, vem você e modifica tudo outra vez!

— Nestor, o negócio é o seguinte: mudar as coisas é muito bom e a gente se transformar é muito bom  também, fique o senhor sabendo.

— É, mas acontece que você só fica na primeira fase. Você modifica as coisas – no caso eu, honesto sapo trabalhador, cumpridor de meus horários, com família para sustentar – mas se modificar, isto é, modificar você mesma, é coisa que eu nunca vi você fazer.

Neide não tinha o que responder a isso, de modo que jogou o caroço de manga dentro d’água e saiu fingindo que ia lavar a mão.

E nunca mais voltou.

Disseram que ela tinha virado professora do primeiro grau, aberto uma escolinha no interior, onde passava o dia ensinando “As maravilhas da transformação”. Curriculum reduzido, é verdade, mas, ao que parece, com muitos fãs.

Nestor, obrigado a permanecer árvore, foi transformado em uma mesa, mas suas frutas viraram outras mangueiras, todas muito verdes – e sempre à beira de algum riacho, por puro saudosismo. Com o passar dos anos, Nestor tinha – de tanto filosofar – descoberto que ser árvore ou mesa ou outra coisa qualquer não fazia assim tanta diferença e que as mudanças de sua vida tinham até um aspecto interessante.
Quanto à varinha mágica da Neide, esquecida à beira do riacho, aquele primeiro, lá ficou durante tantos e tantos anos que acabou fossilizando e virando pedra. O que foi, sem dúvida, um fim bem triste para uma varinha que tinha sido tão ativa na sua juventude.

 

A medusa do Butantã

Era uma vez uma Medusa muito boazinha.

Trabalhava de manhã no Instituto Butantã de Cobras e Lagartos, e de tarde cuidava de seu apê.

Para quem não sabe, Medusa é aquela mulher que tem cobrinhas em vez de cabelos na cabeça e que, mesmo se a gente corta a cabeça dela, nasce outra no lugar.
Pois bem, essa Medusa então de quem eu estou falando, era moça muito tranquila. E talvez fosse esse o seu maior problema: faltava emoção, faltava aventura em sua vida.
Suas cobrinhas, presas em um rabo de cavalo assim atrás, mal se mexiam e sua cabeça nunca tinha tido a oportunidade de nascer de novo, pois nunca alguém tinha se lembrado de cortá-la fora.

Um belo dia, Medusa (Duda para os íntimos) resolveu que isso não podia continuar assim. Pediu férias no trabalho e comprou uma passagem classe turística no pacote ‘Venha conhecer a Amazônia, o Inferno Verde’.

— Vou logo antes que acabe – pensou ela. E lá foi, preparada para enfrentar bichos selvagens, índios ferozes, enfim, o que desse e viesse.

As cobrinhas, quando souberam da viagem, não quiseram ir.

— Vou ficar com saudade das minhas amigas do Butantã…

— Lá é muito úmido, tem mosquito…

— Deixa eu ficar?

— Vai todo mundo e pronto. Eu não vou enfrentar essa expedição sem cobrinha na cabeça, careca, calva!

E lá foram Duda e suas cobrinhas.

Só que as cobrinhas não gostaram mesmo da viagem, reclamaram da comida do hotel, dos preços, acharam o sorvete de cupuaçu uma porcaria, os táxis eram velhos, os índios tinham um português péssimo e, no tour pela selva, elas tiveram que acompanhar em inglês as explicações que o guia da tribo fazia – inglês eles falavam um pouco melhor. E o jacaré do cercadinho dormiu o tempo todo e, o que é pior, de boca fechada. Enfim, não gostaram mesmo nem um pouco. E quando chegaram de volta fizeram, uma noite, um abaixo-assinado para a Duda nos seguintes termos:
“Duda querida,

Achamos melhor nos mudar definitivamente para o Butantã e constituir família com nossos namorados de lá. Esperamos que você não leve a mal nossa decisão e deixamos de presente de despedida essa linda peruca loura para você usar quando for ao cinema.

P.S. Medusa hoje em dia não dá mais pé.

Assinado: Bibi, Cici, Didi, Fifi, Gigi, Hihi, Jiji, Kiki, Lili, Mimi, Nini, Pipi, Quiqui, Riri, Sisi, Titi, Vivi, Xixi e Zizi.”

Duda leu a carta, passou a mão na cabeça, agora completamente lisa, suspirou, olhou a peruca loura, tornou a suspirar.
Era um sábado. Duda pôs a peruca (não ficou nada mal) e foi à liquidação de verão no shopping.
Depois de muito tempo veio a saber, por acaso, que essa crise de aventura, de cabeça cortada, essa falta de cobra-cabelo, de emoção, eram problemas comuns a todas as Medusas de nossa época. Isso consolou Duda um pouco.

Soube também que todas as outras Medusas da cidade tinham perucas louras como a dela e andavam nas ruas sem ninguém suspeitar de nada, a não ser por um ou outro suspirinho de tédio de vez em quando, mas isso era coisa muito pequena e comum para que as pessoas notassem que ali, falando no celular enquanto o sinal não abre, estava uma Medusa Verdadeira.

Algumas até se casavam!  E mais de uma vez!! E todas, quando ficavam com rugas, cortavam elas mesmo suas próprias cabeças para que viesse outra mais jovem. Tem medusa aos montes por aí.

 

O gênio do sorvete

Era uma vez um menino pobrinho, pobrinho…

Para ganhar uma bala era um problema: tinha que programar uma semana. Na segunda-feira:
— Sábado vou estar com vontade de drops de hortelã.

Aí começava: primeiro tinha que ir por aí catando coisas que pudessem ter algum interesse para os outros. Por exemplo, no fim do ano, ver se achava no mato galhos secos e folhas bonitas para vender como centro de mesa às madamas. Se não fosse fim de ano – e no caso não era – ficava mais difícil. Pegar umas flores no cemitério e vender na feira, ou abacate no abacateiro do vizinho e também vender na feira. Podia pegar a viola que o tio tinha feito e cantar nos bares. Jogar água suja no vidro dos carros parados no sinal e depois se oferecer para limpar.

Depois de ter se decidido por um desses métodos, o passo seguinte era tomar banho porque boa aparência é tudo nessa vida.

Ver onde tinha água limpa (do mar não servia), arranjar um tico de sabonete em algum bar amigo e prestar atenção no pé e na orelha. Depois, vestir o uniforme do colégio (que correspondia a vestir um terno se as circunstâncias fossem outras) e ir vender fosse lá o que fosse, galho seco, abacate ou besame mucho.
Isso feito, comprar o drops.

— Hortelã, por favor.
Era mesmo muito trabalho.

“Pois eu gostaria assim. De ter vontade de uma coisa na terça e conseguir na própria terça.”
O moleque tinha dito isso falando sozinho, uma tarde em casa. Estava de mau humor, pois no dia anterior tinha tido vontade de sorvete de groselha e não tinha a menor ideia nem o que era sorvete de groselha nem o que fazer para obtê-lo.
De repente bum! Uma nuvem escura lá na subida de cima, um som que não era funk, um frio de porta de banco, um cheiro de fumaça de coisa de má qualidade, meu deus, os homens subiram sem ninguém notar, estourou confusão e foi aqui perto!
Mas bem na sua frente, um Gênio de turbante, bigodões e sapatos dourados olhava para ele.

Moço, o terreiro da escola é lá embaixo – ainda pensou em dizer. Mas o Gênio falou antes:
— Sou o espírito do seu pensamento, também chamado de O Imponderável ou, em alguns ambientes, de Componente Variável Aleatório de Marketing Pró-ativo. Eis aqui o seu sorvete de groselha. Eu pessoalmente não gosto e esse daí já está meio velho, hoje ninguém mais quer sorvete de groselha. O que mais você deseja? Pudim de chocolate? Batata americana? Tênis importado? Temos aqui várias marcas, mas tem que ver se algum é do seu tamanho. Um bigmac só um pouco amassadinho? Boné de gringo? Óculos escuros? Hein? Hein? Que tal? E esse rádio estéreo duas cabeças com sintonia automática e captação sincronizada, caixa embutida, garantia de três, hum, dois, ahn, um mês?

O moleque pensou: posso muito bem dar um berro e sair correndo, me espantar, fazer um descarrego. Todo mundo iria me dar razão. “Coitadinho, que susto, que espanto você deve ter tido! Toma aqui um copo de água com açúcar ou vai de dietil?”
— Mas não vou me espantar não. Vou tomar esse sorvete de groselha que é bem melhor que água com açúcar e depois vou querer saber que bagunça é essa, quem é esse cara que está confundindo meu barraco com terreiro.

Isso posto, o garoto tomou rápido o sorvete – de fato não era grande coisa – e lascou:
— Bom, obrigado. E agora podia me dizer que negócio é esse de imponderável, espírito etc.?
— Ah, é assim. Quando a pessoa é pobrinha assim que nem você, só tem o pensamento, não é? Por exemplo, você não tem sorvete nem de groselha nem de chocolate chip que, aliás, é muito melhor. Quer dizer, você, resumindo, só tem o seu pensamento. Então é aí que eu entro: quando a pessoa tem só o pensamento, ele fica muito forte, aí eu acordo e apareço. Vejo no que a pessoa está pensando tanto e dou a ela o que ela quer. Depois sumo outra vez.

— Hã. Eu não sabia que o senhor existia.

— Existo sim, e tem uma vantagem. Esse sorvete aí de groselha que você tomou, fui eu que fiz, de modo que, tomando do meu sorvete, você deixou de comprar da vendinha ali de baixo e, quando isso acontece muitas vezes em seguida, dá um certo rebu nos planos dos gravatinhas do asfalto, mas depois eu explico isso melhor. Agora você me dá licença, eu vou voltando que tem muita gente só com o pensamento.
— Ciau então.

— Ciau, rapaz. Até a próxima. E olhe, quando o cara lá da venda te olhar de cima, suba num banquinho imaginário e olhe mais de cima ainda para ele, que você me conhece e ele acha que eu não existo. Ele acha que se ele for sempre bem esperto, inclusive, eu não vou existir nunca. E ele está enganado!

 

A professora de inglês da Torre de Babel

Há muito tempo, tinha uma Torre de Babel e uma professora de inglês que trabalhava na Torre de Babel.

Era uma chateação, pois quando ela ensinava inglês a alguém, esse alguém esquecia imediatamente sua língua materna e passava a falar e escrever só em inglês.
Então não adiantava nada. Em dois meses, todo mundo que tinha aula de inglês só falava inglês e todos os americanos que tinham tido aula de tupi-guarani só falavam com árvores. Mas as pessoas aprendiam línguas  para se entender umas com as outras e, deste modo, não adiantava mesmo nada.

Por exemplo Joaquim (português) queria convidar Mary (americana) para tomar uma limonada e aí aprendia limoneide. Mas Mary, nestas alturas, consciente da necessidade de conhecer novas culturas, se esforçava com um limoun que Joaquim, call me Jake, não tinha mais a menor noção do que era.

Vai daí que ninguém se falava. E como eles não se falavam, tinham muito tempo para construir a torre, que ficou pronta num instantinho.

A Torre de Babel, como todos sabem, foi feita com a intenção de unir o céu e a terra.
Pois bem. No seu 2.385.901° andar, a Torre finalmente chegou no céu.

— Oh!

— Ah!

Milhões de exclamações de alegria de todo mundo.

Aí eles perceberam que exclamações de alegria eram entendidas por todos – americanos, fundamentalistas muçulmanos e bósnios. Não precisava de tradução!
Com o tempo descobriram também que não precisavam traduzir careta, choro e piscar de olho. Perceberam que todos entendiam, sem exceção, a gargalhada geral!
— Hou! Hou! Fez o Joaquim.

— Ó, Ó! Respondeu a Mary. E os dois chuparam o canudinho da mesma diet coke.
Desse dia em diante, o pessoal começou a se preocupar mais com olhares significativos, dar-de-ombros, alcear de sombrancelhas, com risos e choros. E se esqueceram da Torre de Babel. Que foi fazendo brecha, rachadura, vazamento, infiltração e o diabo.

Um belo dia, a Torre toda desaba – em cima de uns desavisados que passeavam embaixo e o mundo fica mudo de espanto!

— Foi o cimento vagabundo! Quem é o engenheiro que fez essa droga?

— Abajo el gobierno!

— Le livre est sur la table.

— Game over. Do you want to play again?

Pronto. No afã de explicar, as pessas começaram a falar, a se desentender e a professora, que tinha ficado esse tempo todo desempregada, começou outra vez a ganhar rios de dinheiro com aulas particulares.

Ninguém entendeu nada das explicações sobre o desabamento, dadas em inglês com tradução simultânea para japonês, espanhol, francês, alemão e árabe. Mas, o que era pior: ninguém estava mesmo muito interessado em saber por que tinha caído a tal da torre.
Nessas alturas, todo mundo estava convencido de que ao céu se chegava por foguete, e que esse negócio de construir torre era bobagem dos antigos.

 

O garoto que tirava lã do umbigo

Tinha um garoto que tirava lã do umbigo.

Era assim: todo dia de noite, antes de se deitar, Jaques tirava um pouquinho de lã do seu umbigo e guardava num montinho.

Vivia disso.

Quando o montinho ficava grande, ele ia até a lojinha de linhas e agulhas e vendia.
O dono da lojinha não gostava muito, pois os montinhos de lã de Jaques eram sempre da mesma cor, isto é marrom.

Os outros meninos – pura inveja – diziam que era marrom por causa da sujeira.

Na verdade Jaques não tomava mesmo banho todos os dias.
É muito difícil para um menino que não tem mãe tomar banho. Vocês nem imaginam.
Pois bem.

Jaques também tinha outra coisa que era muito detestada pelos outros garotos: ele era dono de um cachorro. Não que ele fosse o único dono de cachorro da vizinhança, mas seu cachorro era o único que não tinha nome, não era bonito nem carinhoso. Mas que sabia de antemão quando qualquer coisa de ruim podia acontecer para Jaques.
Foi assim que um dia o cachorro começou a rosnar, bem do jeito de avisar sobre alguma coisa.

Jaques se levantou – era de manhãzinha, o sol nem tinha nascido ainda direito – e começou a procurar o que tinha de errado.

O montinho de lã estava no lugar, em cima do barril.

O barril estava com água.

A água estava limpa.

Jaques saiu. Lá fora tudo certo.

Mas o cachorro continuava a rosnar.

Jaques resolveu sentar e esperar. Mas nada aconteceu.

Que tristeza. Esse cachorro ficou maluco, está rosnando à toa.

Tinha um outro garoto que não ligava para Jaques. Esse se chama Luís e para ele tanto faz se Jaques tira lã do umbigo, se não dá nome ao seu cachorro, se isso ou se aquilo.
Pois nesse dia que o cachorro rosnou, Jaques, ao descer o caminho, deu de cara com Luís.
Não se cumprimentaram, mas ficaram se olhando. Jaques muito desconfiado, Luís por puro hábito (ele olhava tudo e todos com a mesma insistência, sem falar nunca nada).
— Eu tiro lã do umbigo.

— Eu sei. Já me disseram.

— Meu cachorro pressente as coisas.

— Hã, hã.

— Você não fica impressionado?

— Mais ou menos, mas é que eu já li tantas dessas coisas em livro…

— Não pode ser. Lã no umbigo, só eu.

— Eu sei. Mas tem gente que quando toca nas coisas, as coisas viram ouro puro. Tem gente que voa, gente que vive dentro de baleia, tem pato milionário. Ih, lã é fichinha perto do que existe por aí.
Isso dito, Luís seguiu seu caminho deixando Jaques, sua lã e seu cachorro completamente desenxabidos no meio do caminho.

Jaques então tomou uma decisão.

Continuaria a fazer lã de umbigo, porque esta é uma maneira prática e não trabalhosa de se ganhar a vida.

Mas nunca, nunca mais ia se considerar um cara especial por causa disso.

— E tem mais, seu vira-lata. Você vai passar a se chamar Totó.
Totó rosnou – aliás, ele não tinha parado de rosnar um só minuto desde a manhã cedinho. Mas desta vez rosnou mais forte.

Jaques olhou para os lados. Será que tem perigo por aqui? Cobra? Vai chover? Gripe chegando?
— Ai!!!

Impossível, inacreditável, espantoso! De se duvidar dos fatos! Mas os fatos são que Totó deu uma mordida no seu dono, bem nos fundilhos, rasgando um pedaço do bolso e deixando Jaques com o queixo mais caído do que já estava.
— Não!!

— E tem mais. Ou me chama de Adamastor ou leva uma dentada por dia.
Era a primeira vez que o cachorro falava e Jaques custou um pouco a entender sua voz.
— O que?

— A-de-a- adá. Mas-tor. Sem agá.

De modo que o cachorro, de Totó, passou para Adamastor, o que não era muito do agrado de Jaques. Mas tinha uma porção de coisa nova que não era muito do seu agrado, de modo que ele já estava ficando acostumado.

No dia seguinte era dia de levar o montinho de lã para a lojinha.

Lá, Jaques ficou na fila dos fornecedores, atrás do vendedor da firma Alfinetes, Agulhas & Irmãos ltda e na frente de uma senhora que fazia rendas. Rendas muito bonitas.
Depois de alguns anos, Luís se tornou prefeito da cidade e, querendo agradar os turistas, começou a dar muito apoio aos artesãos. Todos os fazedores de cestas, bonecos de barro e objetos de madeira se viram assim, com um lugar próprio para fazer feira, uma propaganda oficial em cima de suas artes e a simpatia geral do povo.
Jaques também lucrou com as ideias do novo prefeito (e ex-amigo de infância), pois ganhou uma placa para colocar na porta de sua casa:

“J. LANUDO – ARTESÃO TÊXTIL”

Adamastor nunca mais tinha latido – nem mesmo para pedir comida.

Nunca mais falou também.

Jaques se considerava feliz. Quer dizer, não tinha do que pudesse se queixar. Os negócios iam bem, a lã agora tinha atingido um tom cor-de-rosinha muito apreciado pela clientela do Armarinho Mão de Ouro (o nome da lojinha).
Mas, mesmo quando o prefeito Luís deu o nome de Jaques Lanudo a uma rua do subúrbio mais progressista da cidade, Jaques não ficou tão alegre quanto as pessoas esperavam.
Um belo dia, Jaques acordou e pensou que tirava caneta esferográfica do ouvido.
Mas era mentirinha.

Caneta esferográfica é coisa que Jaques não fazia.

De qualquer modo, era gostoso ficar imaginando essas coisas durante o café da manhã.

 

 

 

.23 de December de 2008