ELVIRA VIGNA: INFANTIS – Uma história pelo meio (Berlendis & Vertechia, 1982, n.p.)
arquivos internos de ‘infantis’:
a breve história de asdrúbal, o terrivel
a verdadeira história de asdrúbal, o terrível
asdrúbal no museu
o triste fim de asdrúbal, o terrível
viviam como gato e cachorro
a pontinha menorzinha do enfeitinho do fim do cabo de uma colherzinha de café
problemas com o cachorro?
lã de umbigo
mônica & macarra
o jogo dos limites – trecho
o jogo dos limites – oficina escolar
fora de catálogo, texto integral

O começo da história
Quando Rosely nasceu o mundo já ia a meio.
Ninguém mais se lembrava como é que as coisas tinham começado e, para falar a verdade, ninguém tinha muito tempo para se preocupar com essas coisas, coisas assim de começo.
(E quem não pensa no começo, também não pensa no fim … mas isso já é outra história!)
A própria Rosely, por exemplo, quando deu pela coisa, estava em um mundo cheio de carros, fábricas e até mesmo na sua família já havia um irmão mais velho.
Nunca alguém tinha perguntado a opinião dela sobre carros, fábricas e irmãos mais velhos e, a bem da verdade, ela nem sempre conseguia pensar direito nessas coisas, formar opinião. Sempre tanto coisa para fazer …
(E depois, dizia ela baixinho, para que pensar tanto, se ninguém vai querer saber do meu pensamento?)
Agora, por exemplo: agora era uma hora boa para Rosely pensar no mundo. Tudo sossegado, nada de urgente para fazer, Antônio (o tal do irmão mais velho) lá longe, brincando com suas bolas de gude. No entanto, Rosely não estava pensando no mundo, Rosely estava lendo um livro. Um livro emprestado do irmão, um livro meio difícil mas Rosely já tinha conseguido ler algumas páginas.
É aí que nossa história começa. Rosely, no meio do livro, no meio do mundo, recebeu uma visita mas, distraída, nem percebeu.
Será que nossa história começa aí mesmo?
Será que já não começou antes, naquelas páginas em branco com que todas as histórias de todos os livros começam?
Bem, mas isso já é outra história, é a história das páginas em branco.
Vamos dizer que a nossa história comece assim:
“Era uma vez um vendedor de passarinhos que chegou perto da Rosely enquanto ela lia um livro e disse:
— Você quer comprar um passarinho, Rosely?”
Vamos dizer que o desenho completo é Rosely embaixo de uma árvore lendo um livro. E perto dela está o vendedor de passarinho falando com ela e, ao longe, aparece Antônio. E, na árvore, tem uma lagartinha. Mais ou menos isso.
A história do passarinho que estava sendo vendido
Era uma vez um passarinho marronzinho.
Seu nome era cururu, surupira, tirapora, anu, baíra ou qualquer outro nome que quisessem inventar para ele.
— É saipeçu.
— Não é. É um coleira-real.
— Lá no norte chamam isso de cumu-açu. E dizem que dá sorte.
O passarinho voou, ignorante de nortes e suis, açus e reais, sortes ou azares.
Ele voava atento. Um inseto – mutum ou cigarrinha – e ele parava no ar. “Esse é gostoso.”
E pum!
Depois, arranjava o inseto no bico, a jeito de poder engolir e lá se ia o mutum, cigarrinha, lagarta ou pulgão, gargantinha abaixo.
O passarinho tinha um endereço: mundo.
Mais precisamente, uma parte do mundo que ficava perto de um restinho de floresta e que tinha, além da floresta, um sítio com uma horta e um dono de sítio.
O dono do sítio plantava chuchu, mamão e laranja e ficava olhando o céu para ver se vinha chuva. Ele não reparava no passarinho que, por sua vez, também não reparava nele.
Um plantava, outro voava, ambos comiam e namoravam. Nem um nem outro prestava muita atenção ao fato de que só tinha inseto porque tinha fruta e que só tinha fruta porque tinha quem comesse o inseto.
O dono do sítio prestava atenção na chuva, no boi do vizinho e no calo da mão.
O passarinho prestava atenção nos insetos, no sol e na chuva e em gavião.
(Êta historinha besta!)
A história do dono do sítio perto de onde o passarinho morava
Dr. Euclides. João Gomes, irmão do Jorge Gomes, da família dos Gomes, lá de Piraí.
Ernesto Soares. Seu Alfredo ou “Alemão”, como é mais conhecido. Seu Amadeu. Astério, coronel Astério ao seu dispor.
Que nome terá o dono do sítio?
Sabe-se lá.
O caso é que o dono do sítio tinha um sítio e um montão de preocupações.
Duas vezes quatro oito mais quinze vinte e três menos trinta não dá.
Duas vezes quatro oito mais quinze e mais, e mais… e mais…
As preocupações do dono do sítio eram todas com a conta de somar que ficava sempre mais curta do que a conta de diminuir.
O dono do sítio calcava a ponta do lápis no papel de embrulho cheio de números. Duas vezes quatro.
— Olha que passarinho bonitinho lá fora!
— Não chateia seu pai, menino!
Passarinho!
Dez vezes vinte duzentos.
No dia seguinte, a dez reais cada um, qualquer criança na saída da escola, na pracinha ou na porta de casa, comprava do dono do sítio cururus pintadinhos, surupiras, tiraporas, inhanguás e jauns.
— Eu quero aquelezinho.
— E eu aquel’outro!
Depois de muitos dias de “eu quero aquelezinho” a chuva voltou molhando tudo. Molhava a terra da rua e as bolas de gude dos meninos. As gaiolas de taquara passaram a contar com um jornal à guisa de teto e dentro delas, terés-de-topete, curis-de-peito-branco e dedéus mansinhos comiam alpiste e paravam o canto, esperando o sol.
No sítio também chovia e a ponta do lápis, molhada pela água que vinha do céu, corria que era uma beleza no papel de embrulho. As contas, agora, eram lindas, cimpridas, redondas.
O dono do sítio estava feliz. Só não estava mais feliz porque havia começado uma praga nos mamões.
Um insetinho de nome esquisito – aescora roseliana, da família dos testonius africanus (ou será que horribilis ferocis soa melhor?) – entrava no caule do mamoeiro e só saía quando a planta estava já quase morta.
Um horror.
A história que tinha dentro do livro que a Rosely estava lendo
O livro que Rosely estava lendo era um livro de histórias sobre a nossa época. Rosely já tinha lido uma porção de páginas e agora, para descansar um pouco a vista, tentava lembrar como era mesmo que o livro começava.
Primeiro, vinha umas páginas em branco.
Depois, tinha uma história de um passarinho bonitinho.
Rosely lembrou:
“Era uma vez um passarinho chamado pium-sangue que morava num lugar do mundo onde havia uma floresta, uma horta e vários insetos muito gostosos. O passarinho pulava nos galhos das árvores e cantava pium! pium! Ele tinha um ninho e ninho de pium-sangue é muito bonito, todo feito de folhinhas macias e aí os piuns-sanguinhos, filhos do pium-sangue…”
Pium-sangue!
Que nome lindo, susppirou Rosely.
Depois vinha a história de um moço que era dono da horta do pium-sangue que ficava fazendo contas que nunca davam certo e que deixavam ele furioso até que um dia ele começou a vender passarinho e ganhou muito dinheiro mas aí deu praga na fazenda lá dele e ele gastou todo o dinheiro que ele tinha conseguido, comprando remédio para matar a praga e aí… e aí… e aí o pium-sangue falou: bom-dia, Rosely, você quer voar comigo?
Enquanto Rosely voa, vamos ver a história de Antônio, o irmão mais velho
Antônio era um irmão mais velho muito responsável. Toda a vez que a mãe mandava, Antônio tomava conta de Rosely. Quando a mãe não mandava, Antônio falava “ciau pro cê” e saía para brincar com os outros garotos. Quando a mãe insistia muito, Antônio ia até a sua estante de livros, procurava um com bastante gravura e emprestava para a irmã.
“Só assim ela fica um pouco quieta”, pensava ele.
Naquela tarde de domingo Rosely estava lendo um dos livros de Antônio e Antônio estava treinando um novo toque de efeito nas bolas de gude, aproveitando o chão molhado da chuva da véspera.
Quando a nossa história começou e o vendedor de passarinhos perguntou: “você quer comprar um passarinho, Rosely?”, Antônio que estava lá por perto se lembrou do livro que tinha emprestado para a irmã.
O livro falava de cadeira alimentar entre os seres vivos e dava como exemplo o passarinho, o inseto e a fruta. Falava de lucros excessivos dos donos de fábricas e de prejuízos que eram pagos por pessoas que nada lucravam com as fábricas.
Falava do equilíbrio ecológico entre os animais, os vegetais e os minerais (o livro era meio chato).
Antônio lembrou disso tudo ao olhar para a irmã que lia lá longe e ver que perto dela tinha um cara com uma gaiola de passarinhos.
E então Antônio resolveu botar em prática o que tinha aprendido no livro. Chegou perto do vendedor de passarinhos e disse:
— Esse passarinho aí que o senhor está vendendo, aposto que é um pium e ele é meu, da minha irmãzinha, seu e de todas as outras pessoas do mundo, ele é do mundo não é seu. Solta ele. Eu quero ele solto para ele comer inseto para o inseto não comer o mamão, para o mamão não ficar mais caro no supermercado por causa do preço do inseticida e da lixívia negra. Mesmo porquê se o passarinho é de todo mundo o que é que o senhor está fazendo com ele na gaiola? O senhor está roubando ele das outras pessoas. O senhor é um ladrão de passarinhos, pega ladrão!
Não que o vendedor de passarinhos tivesse entendido alguma coisa dessa mistura de mamão, lixívia negra e ladrão. Aliás, Antônio também não tinha. Ele decorara, ao ler o livro, as palavras lixívia negra e gostava de ficar repetindo: “lixívia negra, lixívia negra!” com cara de mistério. Mas o que o vendedor entendeu, e bem, é que com um menino atrevido e uma menina distraída (Rosely continuava voando nas asas do seu pium-sangue), ele não ia conseguir vender passarinho nenhum.
E já ia indo embora quando escutou a vozinha da Rosely.
A história de Rosely que acabou ficando no final da história
“As árvores seguram o solo, impedindo que a terra fértil corra para os rios em enxurrada…”
Rosely tinha esfregado os olhinhos cansados de ler. Ficou pensando no pium-sangue e nos lugares onde ele passeava: árvores pequenininhas e de folhas nervosas, árvores grandonas e de voz grossa ao vento, outras tão retas e duras que mais pareciam desenhos do Antônio…
Árvores e passarinhos dançavam em sua cabeça.
“E suas folhas, ao apodreceram, criam o humus, adubo vegetal rico em nitrogênio…”
Rosely ficou pensando nas árvores, nas árvores onde piuns-sangue pousavam e faziam ninhos cheios de piuns-sanguinhos e onde nitrogênios ainda pequenininhos iam se esconder.
Rosely ficou pensando … e se ela fosse uma árvore? uma Cássia-Rosely, uma Rosely-dos-Andes!
E passarinho? Que tal ser passarinho? No livro diz que passarinho come inseto nocivo. O que será nocivo? Deve ser um bicho cheio de noço.
Rosely olhou para o livro para ver se via alguma figura de nocivo.
Agora Rosely fingia que era uma lagartinha daquelas peludas que Antônio vivia dizendo para não chegar perto porque queimava.
Lagartinha se mexe muito devagar e Rosely foi ficando paradinha, paradinha… Lagartinha quase não tem olhinho e Rosely foi fechando os seus, fechando…
Rosely voltou para a floresta.
Aliás, para a floresta, não. Para uma horta que fica perto da floresta. E rec, rec daqui e rec, rec dali, Rosely já tinha comido um pouco de chuchu e agora estava olhando com apetite para o mamoeiro. De repente uma lembrança ruim!
E se aparecer algum passarinho? O mamoeiro é alto e se aparecer algum passarinho enquanto eu estiver no meio do caminho, babau, lagartinha!
Rosely ficou paradinha para escutar se vinha algum passarinho.
Não vinha.
E Rosely comeu três mamões e já estava começando a ficar gorda demais.
E foi neste ponto que Rosely ouviu uma voz falando alto, uma voz que dizia: “pega ladrão!”
Nossa, é a voz do Antônio!
Rosely abriu os olhinhos assustada. Como é que Antônio tinha descoberto o roubo dos mamões!
Nossa!! Um pium-sangue! Ainda bem que estava na gaiola, senão.. babau lagartinha!
Mas Antônio continuava falando cada vez mais bravo e Rosely que não gostava de briga resolveu aproveitar o tempo e escrever nas páginas em branco do fim do livro a sua história da lagartinha, para não esquecer.
— O senhor que está aí com um passarinho na gaiola bem que podia me ajudar a fazer com meu lápis de cor um pium-sanguinho cumprimentando uma lagartinha, hein?
Antônio ficou fulo com a interrupção e logo pensou em aumentar a briga e botar a irmã no meio: onde já se viu escrever em livro!
Mas o vendedor fez o pium-sangue com o lápis de cor.
E quem nesta hora olhasse bem de longe os três personagens assim tão juntos, iria ver que eles parecem três pontinhos, desses pontinhos que acabam uma história que não acaba.
E quem olhasse bem de perto o desenho completo do começo do livro, iria ver que ele na verdade não está completo e que, para os que vierem depois, ainda tem espaço em branco.
.December 23, 2008