ELVIRA VIGNA: NOVIDADES – pedaços de leitura de 2008

arquivos internos de ‘novidades’:
pedaços de leitura –  2009/10 2006/7 2004/5




a seguir, jovens autores gaúchos, integrantes de antologia organizada anualmente pelo professor Charles Kiefer:


“Os dias transformaram-se em meses que tornaram-se anos e minha mãe jamais voltou.”
(Viviane Treméa)

“Após inúmeras consultas médicas mal-sucedidas para saber se tinha algum problema clínico, se lhe faltava alguma glândula, hormônio, líquido enfim, algo que justificasse a falta das lágrimas, Veridiana resolveu fazer um tratamento revolucionário. Um implante de uma bolsa com um líquido, que poderia ser bombeado mecanicamente por ela sempre que sentisse necessidade.”
(Viviane Guerchfeld)

“Poucas coisas são mais conhecidas que o nomadismo dos dinossauros. Nadam, nadam, caminham, caminham, voam, voam, sem cessar, há milênios.”
(Vicente de Azevedo Marques)


“O silêncio que antecede o susto e o som seco da lâmina penetrando a madeira desgastada por tantos furos de todas as noites.”
(Vera Agrello)

“O filho da puta do Marquinho vai estar lá. A partir de amanã tua vida será com ele.”
(Vanessa Mello)


“Pediu desculpas, disse que não havia decidido aquilo. Contudo, não poderia negar que a força do ato era mais forte que ele mesmo e que, portanto, necessitaria se perder para se achar novamente.”
(Vanessa Giaretta)


“Donizetti era um homem manso, bem-apessoado e sabia conduzir bem o negócio das gurias. Olhava a gente nos olhos, observei, e não tinha como não entregar o dinheiro que era dele. Inspirava confiança e autoridade. Jaílson era uma boa esposa.”
(Vaneila Müller)


“Anoiteceu e desmaiei na cama, nos meus sonhos eu a via sozinha, eternamente sozinha.”
(Vandré La Cruz Duval)

“Isto e aquilo indicam que o senhor tem isso ou aquilo, mas se o exame não confirmar que o senhor tem isto ou aquilo, devemos levantar a hipótese de ter isso ou aquilo. E supondo-se que sofre disso ou daquilo, então… Esperemos a biópsia.”
(Valmor Bordin)

“Eu falo no tom que quiser porque quem manda na minha boca sou eu. Quem manda na minha voz sou eu.”
(Valdemir Klamt)


” – Vai, tenta. – ela disse.
- Você acha que é fácil? – argumentei, reclamando.
- Eu sei que não é. Mas enfia isso logo. Vamos.”
(Tomás Gallo)

“Na verdade, eu não me importo com quem ela dorme. O problema é que ela mora comigo num apartamentinho minúsculo.”
(Thiago Marchetti)

“Meu filho, na infância, teve duas espécies de ratos. Pseudo-ratos, na verdade. Uma hamster, cor de café-com-leite, chamada Kate, e um porquinho-da-índia (que parecia mais um rato grande do que um porco), todo malhado, em tons de marrom e bege, chamado Rói-rói, apelidado apenas de Rói. Eles moravam em gaiolas, cada um na sua, mas, durante o dia, tinham momentos para brincar livres, correndo pelo quarto ou sendo acarinhados no colo, nas mãos.
Ele também teve um blusão azul, de matelassé, com um Mickey Mouse estampado na frente. Quando este blusão ficou pequeno nós passamos para o Vini, da Marília. E, depois, a Marília passou apra o Rodrigo, da Sônia.”
(Téri Oliveira)

“Deveria ter preferido uma casa com a minha mulher, filhos, cachorros e o carro do ano. Como todos fazem, como todos desejam.”
(Teresa Azambuya)


“Quem, então, começou a ir embora, quem termnou? Foi ele o dono da vontade e da decisão? De quem foi a culpa desta merda toda?”
(Suzana Golbert)


“Preferia pouco a pouco liberar meios-sorrisos, meias-palavras e, se possível, fracionar meus afetos em minúsculas partículas, quase imperceptíveis, tornando impossível a um observador menos atento reunir seus fragmentos e perceber que se tratava de carinho, ou de amizade, ou de simples condescendência.”
(Silvia Generali da Costa)


“Ele tinha uma namorada, estavam juntos desde a faculdade, davam-se bem, o rumo natural das coisas era que acabariam por se casar. Silvana vinha de um casamento desfeito, tinha medo de se envolver, imaginara que o compromisso dele a deixaria imune a uma nova paixão.”
(Simone Vey)

“Poucos eram os que acreditavam que a relação entre Vera Maria e Arioberto Damásio seguia os rígidos padrões da assepsia hospitalar. Entre os descrentes estava Amália Augusta, a atual esposa do médico.”
(Silvia Generali da Costa)

“Farelos de pão atrapalham.”
(Sergio Ricardo Chatain)


“Deu uma forte tragada soprando a fumaça para o lado. Em seguida, dobrou o braço, dispondo a piteira na altura do ombro de forma elegante e voltou seu olhar fulminante na minha direção.
- É o seguinte, dr. Oswaldo: poucos meses antes de meu pai falecer, tive um romance com um homem casado. Ele era cliente de nosso escritório.”
(Sergio Macedo)

“Só via aumentar a disposição para as atividades que nada traziam, como ler coisas que nem os autores esperavam que fossem lidas e imaginar situações do passado dando novas formas aos seus arrependimentos.”
(Sávio Hermes)

“Lembro-me de ter perguntado – Pai. Por quê? – Mas meu pai não respondeu.”
(Saul Chervenski)


“Walter dá uma risada. Sabe que o taxista não é de aprontar. É apaixonado pela esposa, com quem está casado há 20 anos.”
(Sandra Veroneze)

“Essa, aliás, tinha sido a história de sua vida: falta de coragem, complacência, submissão.”
(Sandra Meyer Silvestre)

“Eram compromissos não esclarecidos, viagens para as quais não me convidava, anotações indecifráveis na agenda, enfim, indícios fortes de que havia um lado importante de sua vida que me era vedado.”
(Sandra Bazan)


“Me lembrei dos versos quando o Tonhão me comia atrás do trailer. Era a minha primeira vez. Ele me arrombando e eu de quatro, agüentando no osso e pensando: ‘O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente.’”
(Rudiran Messias)


“Converso sobre a guarda compartilhada e as exigências que seriam para ele.”
(Rose Eliane Starosta)

“Enquanto procura inspiração, olha distraída a foto da modelo nua colada em uma das portas abertas. Há anos está ali, sedutoramente serena. Desde o dia em que o pequeno Nicolas, seu sobrinho, então com cinco anos, a descobrira de uma revista do irmão e, mostrando-a na sala, comentara admirado:
– Ela sabe que vão olhar para ela?”
(Rosane Goettert)

“Amante casado parece um castrado. Promete o mundo, mas na hora mais esperada falha.”
(Roque Aloisio Weschenfelder)


“Já tinha tirado tudo, e estava pelado da silva. O pior vinha agora.
- Ai!”
(Ronel Alberti da Rosa)

“Sim, eu quero poluição, cheiro de podre, fumaça, fumaça.”
(Rogério Macedo Velasco)


“E assim vocês ficaram. Ele, ausência-vácuo-nulo. Você, untando-se com seus ungüentos de lamber feridas.”
(Rodrigo Troyano Prates)


“Abri o frízer e encontrei alguns porta-retratos. As pessoas nas fotos não pareciam sentir frio.”
(Rodrigo Rosp)


“A mudança: algo dentro de si a despertar, crescer, inflar como uma bolha de insatisfação sem controle, a subir-lhe pela garganta querendo liberdade, a materializar-se em um longo e doloroso suspiro, que poderia muito bem ser um espirro, um arroto, qualquer ato espontâneo do corpo a expurgar uma enorme carga de repulsa recolhida.”
(Rodrigo Alfonso Figueira)

“Ali está, encolhida, a pequena serpente na mata escura, uma vesícula ridícula, escondida no V das coxas.”
(Roberto Medina)

“Pedro era daqueles gordos inchados de tanta cerveja, boca grande, olhar miúdo e cabelo ralo. Ficou assim depois que começou a ganhar dinheiro com a advocacia criminal.”
(Roberto Colpo)


“Acha que vou passar a vida esperando por ti?”
(Roberta Larini)

“‘Você também paga para a sua amiga transar com você?’
Fiquei embasbacado. A conversa estava tomando um rumo interessante.
‘Você parece muito interessada na minha amiga.’
‘Paga ou nào paga?’
‘Pago. Às vezes.’
‘Quanto você pagaria para transar comigo?’
Todo o dinheiro do mundo, pensei.”
(Ricardo Silveira)


“O moleque foi parido de uma puta local, mas Edilson o assumiu desde cedo.”
(Ricardo Pacheco Machado)


“Aproximou-se e deu-lhe um daqueles beijos rápidos e protocolares trocados por casais de longos anos.”
(Ricardo Morales)


“Com os dedos segurando firme a lâmina de barbear, determinado em atestar sua veracidade, cortou fora a própria orelha direita. O vermelho sangüíneo ratificou em definitivo o calor próprio de sua textua ao cair gota a gota tingindo a pia branca. Eram as cores em movimento. A dor que nào sentiu era a prova de que a realidade é uma fugaz e passageira ilusão.
Suas obras de arte, frutos de sua criação, ao contrário, foram eternas.”
(Renato Sampaio de Azambuja)


“Bem… sou arquiteta e tenho 34 anos. Divorciada, sem filhos. Ultimamente ando pensando em me casar de novo, mas pra isso o meu namorado vai ter que se separar da mulher dele, então não sei…”
(Renata Fonseca Wolff)


“Aquele beijo – falou Judas – aquele beijo. Aquele beijo – repetia obsessivamente de cabeça baixa, balançando-a para lá e para cá. Sabe, Jesus, depois dele, nunca mais beijei ninguém na face. Nem meus filhos, nem minha mulher, nem minha mãe.”
(Regina Maria Schneider)


“Wagner tinha os olhos pequenos, olhos de quem vê e não quer ser visto.”
(Raquel Soares Warmling)


“Junto com essa confusão, a grosseria de não nos respeitarmos e um maldito orgulho exagerado, que me consumia a todo o momento.”
(IRafael Glória)


“Numa tarde mormacenta de fevereiro, dias antes do carnaval, quando voltava do último emprego, não o encontrou mais em casa. Lembrava que naquela noite dormira sozinha, como se uma estaca estivesse atravessada no peilo.”
(Paulo Tedesco)

“Uns se aboletavam nos bancos altos do bar, outros iam tomando conta das mesas lá do fundo. Todos derrubando canhas e cevas. Fumaça de cortar com faca.”
(Paulo Renato Rodrigues)

“Ele ficou ali, por alguns segundos, sob a luz fraca da lâmpada do poste defronte ao bar. Já havia algum tempo que tinha decidido o que fazer.”
(Paulo Juner)


“Eu nunca saí para passear. Conheci o mundo através dos livros da biblioteca do meu pai.”
(Paulo Fernando Monteiro Ferraz)


“Eu era uma pessoa apagada.”
(Paula de Castro Moreira)


“Ella abrió el paraguas enseguida, le mostró que estaba por llover y se fue. A él le pareció verla volar, ella sintió alívio.”
(Paula Chiappara)

“Não mais vesti saia de florzinha.”
(Patrícia Soares Viale)

“O padre sempre dizia ao sacristão incumbido diariamente da tarefa de fazer soar o sino: ‘É importante sentir, meu filho, o caminho é árduo.’”
(Patrícia Silveira)


“Tenta coordenar as idéias, organizar os fatos, mas não sabe explicar o que se passara ali naquela tarde, mas notara que, ao saírem do armazém, os homens disfarçadamente enxugavam teimosas lágrimas, que se esgueiravam pelo canto dos olhos.”
(Oséias Santos de Oliveira)

“Minha vizinha, D. Clotilde, sempre dizia que quando a pessoa morre jovem e de repente, seja por acidente, seja por tiro ou facada, nos primeiros tempos nào sabe que morreu e fica tentando comunicar-se com os vivos, na maior aflição. Até que um belo dia se dá conta. Não foi o meu caso.”
(Norma Ramos)


“Eu não agüento mais o meu marido, seu Delegado.”
(Newton Fabrício)


“A diferença de vinte e três pontos do primeiro tempo caiu para apenas um. A posse de bola era nossa. Lateral no ataque, seis segundos para acabar.”
(Nelson G. Safi)


“E eu me prestando àquilo, como se íntimos fôssemos.”
(Neli Margarida Stein)

“Daqui a pouco vou ter que entrar e vestir a fantasia.”
(Monique Revillion)

“- Sim, este apartamento é o 303, não é mesmo?
– É, acho que é. Espere um pouco.
Vacilante, foi até a porta e confirmou: estava mesmo no apartamento 303.”
(Miriam Nardin)


“Só um desejo tenho: ser outra pessoa e estar a quilômetros distante, formada, trabalhando, ter uma vasta cabeleira, um corpo bem-torneado, alta.”
(Mirême Sartori)

“O movimento de carros naquela rua sem saída há muito cessara.
Acalmou-se. – Deve ter sido um rato, pensou, otimista.”
(Milton J. Pantaleão)


“Espia pela cortina e vê um batalhão de freiras subindo para o ônibus ao lado. Todas com barba por fazer.”
(Mauro Paz)

“É que o narrado nada tem a ver com a realidade.”
(Maurício Ávila)


“Portas e janelas abertas e invasores tomando a casa. Fugiu deixando os intrusos com eles mesmos.”
(Mariú Nilza Vescia Reppold)


“Aquele corpo estendido no caixão era de seu pai. Muitas vezes desejara essa morte.”
(Mário Viinícius Canfild Grendene)


“A monogamia foi inventada, tentam nos convencer que uma só mulher deve bastar, que transar com outra é traição. Não é isso. Não estou traindo a Nanda, vou só dar uma variada, não tira pedaço, não causa prejuízo. Ao contrário, tenho amigos, iclusive o meu irmão, que têm amantes e dizem que é isso que segura o casamento. Não sei se é, ou não, não interessa. Essa menina, Iolanda, vai ser apenas um casinho, foda de uma noite só.”
(Marilene Somnitz)

“Sabia que precisaria avançar nos estudos, o que procurou fazer, embora, por vezes, via-se acordando em plena aula noturna, sem saber o que falara o professor.”
(Marilene Schmarczek)


“Pilhas e pilhas de folhas inúteis penduradas na parede do quarto, perdendo totalmente o sentido. Potencial criativo o caralho!
(Mariane Tarragó)


“Tem cada vez menos gente boa nesse mundo querendo ajudar os outros. Se a gente depender da bondade do pessoal não vamos conseguir enganar ninguém.”
(Mariana Vicili)


“Mas falta neste momento luminoso e barulhento um menino para brincar na tarde morna, com seus bodoques, com suas bolinhas de vidro, com as suas pipas, jogando sua bola e chupando picolé.”
(Maria Regina Schneider)

“Só a ele permito que me olhe.”
(Maria da Glória Jesus de Oliveira)

“Isso tudo me parecia muito distante até o papai contar para Ariolando que ‘eles’ tinham levado o professor, que o advogado do sindicato já tinha sumido, que era preciso ter cuidado e avisar ao pessoal para dar cabo da caixa de papéis, aí eu entendi tudinho.”
(Maria Cristina Petrucci Solé)

“A não ser pelos esparsos latidos que emitia a cada mudança de tom na voz de Diva, parecia um psicólogo a escutar atentamente suas palavras.”
(Marco de Curtis)

“Essa idéia surgiu tempos atrás ao assistir a uma única aula de um curso de literatura – pela qual pagou o mês inteiro – e o professor afirmou que escritor era todo aquele que tivesse um texto publicado.”
(Marco Estivalet)

“Sentiu-se como nas vezes em que pagou por sexo: frieza, conquista barata, nojo.”
(Márcio Medeiros Félix)


“Ela, que tantas vezes o amara por completo, agora apenas segurava-lhe a mão. Não sabia o que dizer.”
(Márcio Ezequiel)


“Naquela tarde, sob o sol insistente de janeiro, que tirava a força dos homens e a paciência das mulheres, Enzo decidiu que não podia mais viver sozinho.”
(Márcia Schmidt)


“Puta que pariu, caparam o Leopoldo!”
(Marcelo Machado)

“Senhor Salomão, em seu monólogo, esfrega as mãos como um pedido de desculpas, talvez pelo que fez ou pelo que não fez.”
(Maira Beatriz Engers)


“Atropelei cinco, totalizando nove os mortos até agora.”
(Luíza Henke)

“Vocês não perguntam sempre qual é o meu segredo com as mulheres? Então. O negócio é que eu sei abrir sutiã.”
(Luiz Ohlson)


“Meu ônibus passou duas vezes e quando percebi, ele já estava longe. Me sentei no chão e resolvi continuar esperando, não poderia ser de outra maneira.”
(Luiz Filipe Schwengber)

“Construí um castelo cheio de sonhos e júbilo como um conto de fadas.”
(Luiz Ekke Moukarzel)

“Me conta que ele é casado, pai de dois filhos, um cara bem sucedido na vida, inteligente e, acima de tudo, extremamente atencioso com a família e com ela.”
(Luis Arthur Hoffman)


“Ou teria um diálogo absurdo do tipo:
‘Você que é o Gustavo? A Júnia fala muito de você. Sempre compara o tamanho do meu pau com o seu, comentando que, por outro lado, você é um ótimo músico.’ – Pouco provável, mas interessante.”
(Lucio Boechat)


“Falamos em milagres, dizemos que na medicina tudo é possível, que esta não é uma ciência exata, mas nunca aconteceu. Eles sempre morrem.”
(Luciano Medici Antunes)


“Se você soubesse que essa seria uma história contada pela morte em pessoa, teria iniciado a leitura?”
(Luciane Slomka)

“No final do dia, eu ia para o culto, e o Geraldo, ao pagode.”
(Luciane Rasia)

“Por que eles me traíram? Parando de chorar, olhou para toda a casa.”
(Luana Bordin Lauffer)

“Conta seu dinheiro e calcula que pode virar-se por uma semana. Pára num velho bar e lhe servem um malcheiroso xis-burguer, acompanhado da taça morna de café com leite.”
(Loreni Domingos Dalabilia)

“A minha vida não está seguindo o roteiro que a minha mãe traçou para mim (…)”
(Lordsir Pena)


“Perdeu o encanto, a admiração por aquele que queria ser todos e não era nenhum. Uma criatura de alma pequena.”
(Lizandra Mendes)


“Diacho é que alguma coisa remexia dentro, não sabia bem o quê, havia apenas uma sensação de fagulha aquecendo os escondidos.”
(Lívia Petry)

“Quase saindo do bate-papo para ler um livro, a tela do computador mostra uma linha marcada. Alguém com o apelido de ‘sonhador’ pede sua atenção. Ela pensa em simplesmente não dizer nada e desligar o computador, mas não consegue e termina respondendo.”
(Lilian Saldanha)

“Saberia quando fosse tarde demais, acreditava. Era tarde? Quis gritar, mas não saiu ar de sua boca.”
(Lilian Laranja)

“Ao amarelar uma sinaleira, o carro da frente acelerou e passou, ela ficou. Pensou que sempre era assim, que os moles passam, que a gente fica.”
(Leonardo Tricot Saldanha)

“Um jogador experiente como eu sempre deve saber onde estão todas as saídas de um clube clandestino. Em situações de emergência este recurso pode ser muito útil. A polícia já sabe que se vier, pegará somento os novatos.”
(Leonardo Colucci)


“O problema não é o que tu faz, mas o que tu não faz, não diz, não demonstra, não revela.”
(Lenise Lorentz Barros)

“Aquele ‘vozinho’ foi tão agudo que fiquei preocupado, pois quando minha mãe fica muito nervosa, ou brava, sua voz progressivamente vai se tornando mais aguda, até o momento em que ela passa a emitir ultra-sons, só perceptíveis pelos nossos cahcorros.”
Leila de Souza Teixeira)

“O marido? Marcos não era má pessoa. Mas só pensava em seu próprio umbigo: seu trabalho, seus estudos e sua vida.”
(Leda Almeida)


“Incômodas como um cisco no olho, doloridas como um dedo no olho, incuráveis como um câncer no olho.”
(Leandro Scalabrin)

“Pensamento que caminha em círculos como quem passeia no parque.”
(Leandro Mello)

“Devagar fui para o quarto, onde ficaria mais segura. Tirei o envelope da bolsa e o abri lentamente.”
(Laura Nunes Vieira)


“Durante todo o dia evitou o marido e ao deitar virou-lhe as costas, pois não queria ter que explicar o que não conseguia entender.”
(Laura Helena Chaves Nunes Vieira)


“Cara espinhenta, corpo puxando para o gorducho, o sucesso de Ramiro com as gurias era nada. A mesada curtinha deixava as putas de fora do seu horizonte e sexo era pura punheta e polução noturna.”
(L. F. Centeno)


“Por um desses acasos da vida, essa narrativa é minha.”
(Juliana Xavier)


“Não sei descrever a força que aquela aparição me transmitiu, mas o fato é que eu pude fazer o que ele tinha dito no meu ouvido. Naquela noite, aprendi que isso é tudo que se pode fazer na vida: continuar tocando.”
(Juarez Guedes Cruz)

“Raul, tira o cachorro da boca e leva o cigarro para passear.”
(Josimara Estigarriba)

“Adornado com uma peruca loura e pagã, fortemente maquiado com pó de arroz e com os lábios encharcados de batom, o novo Papa ingressou na varanda lançando com as mãos, revestidas de luvas que estendiam-se até os cotovelos, beijos para a pátria católica.”
(José Francisco de Fyschinger)

“Não sei se as palavras vieram da minha cabeça ou de você.”
(João Batista Ferreira)


“Os médicos estavam humilhadamente dispensados, Antunes estava curado. Deixara de pensar.”
(João A. P. Osório)


“Pois experimente o paradoxo francês: não tem estrago que um confit de canard faça nas suas coronárias que não possa ser consertado por um Chateau Rotschild.”
(Jeferson Flach)

“Bem, já que eu não consigo colocar minha inspiração para fora, talvez consiga colocar o café para dentro.”
(Jéferson de Andrade Hartemink)

“Ainda estava lá, o velho prédio com paredes cobertas de pastilhas multicores. Parei o carro e fiquei olhando em direção da porta e da sacada do apartamento dos seus pais. Não sei quanto tempo fiquei ali, esperando também não sei o quê.”
(Jéferson Barcelos)

“Da coragem perdida, como a dignidade, tão resguardada para nada, quando nossa vida se parte em mil pedaços.”
(Jane Cravo)


“As bocas expelindo mentiras camufladas de verdades. Detalhes de tudo que nunca foi dito. Existe coisa mais importante do que o que não foi dito? Conseguir perceber o engolir, o engasgar da coisa presa não-externada.”
(Isabelle Fontrin)


“Ele não veio no sábado e nem no domingo.”
(Iran Newton Aguiar)


“Não é para aí que eu quero ir.”
(Inúbia do Prado Duarte)

“Tocou, tocou, tocou. Ninguem atendeu. Não deixei recado.”
(Inês Lempek)


“A Maria Selistre, com sua magreza alarmante e seus gestos masculinizados, lembrava-lhe um osso de sopa de colégio de freiras. Para quem teve a oportunidade de conhecer ambos, nenhuma comparação seria melhor.”
(Inah Corrêa)

“Ele tinha arranjado um emprego em uma Companhia de Seguros, e ela dava aulas de desenho na escola do bairro onde passara a infância. A lua-de-mel foi curta, porque o Pedro ganhava por comissão.”
(Idalia Coronel-Martins)

“Precisava entender melhor o que sentia, pois bem ou mal estava casada e sempre fora uma mulher fiel.”
(Helena Sant’Anna)

“Pressionado, o sentido do conceito disse que calçava 84, e desceu para o abrigo pós-nuclear.”
(Gustavo Razzera)


“Use sua fúria.”
(Gustavo Lagranha Vieira da Costa)

“Com um vestido escarlate que descia até os pés, contornando cada milímetro de seu corpo, Alma Cigana, ou seja lá qual fosse o seu verdadeiro nome, era dona de lábios carnudos, peitos volumosos, olhos de rapina, além de vistosas melenas.”
(Guilherme Martins de Freitas)


“- O meu? Asdrúbal. E o seu?
- Soldado Guimarães – disse o guarda com a boca cheia e envolta por açúcar e canela – Você tem um nome estranho.”
(Guilherme Brandler)

“Agora não te dedico nem mais o ódio apaixonado, esse indigesto alimento que me sustentou por tanto tempo.”
(Guilherme Behs)

“Com a xícara quente entre as mãos, inalando o vapor do chá, postara-se em frente à janela, muito quieta, às voltas com seus pensamentos. Eu a via desde o outro compartimento, eu também muito quieto, sem saber o que fazer, apenas com os olhos fixos na sua figura delineada pela luz pálida da lâmpada.”
(Gilberto Kieling)


“- Quem é você – perguntou o homem.
- Nome a essa hora da noite é o que menos importa.”
(Gecy Belmonte)


“Pendurado em uma das paredes, com uma moldura folheada a ouro, estava a Maddona, de Munch.”
(Gabriela Milani Leal)

“Eu não vou abrir meus olhos.”
(Gabriela Escobar)


“Fitou-se no espelho por horas. Não entendia suas nuances. Não se enxergava. Não se via. Não se penetrava.”
(Gabriel Dall’ Agnol)

“Do bar era isso que conseguia lembrar. Depois veio a imagem dele chamando o táxi na avenida imensa e vazia, quase amanhecendo.”
(Flávia Dentice)


“A colega vai dizer: amiga, nunca se deve dizer a verdade a um homem, por mais frustrante que isso possa parecer, é a mais pura realidade. Eles simplesmente não entendem. E no fundo, nem querem saber.”
(Flávia Borneo Funck)


“A sensação de estar vivendo uma grande mentira me sufocava. É como se o meu papel neste filme não fosse mais o de protagonista da minha própria história.”
(Fernando Rocha de Oliveira)

“E nesse me fale mais foram três anos de análise para superar a perda, a crise da separação.”
(Fernando Keiber)


“Era um perfeccionista e um romântico, acima de tudo. Nunca se correspondia com mais de três mulheres ao mesmo tempo.”
(Fernanda Pereira da Cruz)

“Encontrou a Selma e as crianças na estrada, apavoradas, correndo para buscar ajuda. Parece que conseguiram salvar uma televisão e o carro do Luís, que não estava lá.”
(Fabiane de Castro Ribeiro)

“Entre eles, a fotografia de um homem com cabelo caído na testa, bigodinho preto, uniforme bege com tira de couro atravessada no peito. O dono da casa ouvia trasmissões em alemão num rádio grande, com antena.”
(Evelena Boening)

“Sem pai nem mãe. Sem irmãos. Do trio hermético, fiquei eu.
Sem descendência, por opção, encerra em mim o sobrenome que carrego.”
(Esmeralda Kiefer)


“Uma mulher vulgar metida numa minissaia dois números menores do que o seu manequim, com os cabelos oxigenados e as unhas enormes pintadas num vermelho vivo, quase fosforescente. Ela jurou dizer a verdade, apenas a verdade.”
(Eni Allgayer)

“- Eu sou o Maikon, tenho oito anos e moro no Morro da Polícia. E o senhor quem é?
– Eu sou o Delegado.”
(Elizabete Gomes)


“- Outro, disseram. Tomaram como se tomassem um copo de água fresca.
O sargento passou os olhos, e só deparou com cães tão secos quanto os donos enroscados dormitando na terra escaldante.”
(Ely Herrmann)


“Fui até o balcào, empinei a bunda e pedi um Jack. Sei do poder da minha bunda.”
(Elaine Milmann)

“E havia os compromissos, o porquê da viagem de ônibus nessa hora da tarde de sol forte, e havia.”
(Edson Roig Maciel)

“Quando acordei, ouvi a conversa de camareiras que arrumavam o quarto, tomei coragem e saí como se nada de anormal tivesse acontecido. O hotel estava pago, eram quatro da tarde e ninguém me esperava.”
(Edi Terezinha Danelon)

“Gostava de se vestir bem, de ir ao cinema, de assistir a dramas e comédias, de beber chope e de jogar conversa fora, de admirar as estrelas e o mar, de ler e de recitar poemas de Vinícius e Neruda.”
(Dioclécio de Quadros Lopes)

“Nada. Menina, foi incrível, ele chegou a ser grosseiro, demonstrou-se ofendido, disse que era um homem muito bem casado.”
(Denise Weinreb)


“Sim, este nome me lembra alguém. Me lembra um sonho. Me lembra uma dor. Me lembra um grande arrependimento.”
(Darsi Barthet)


“Alugar ou vender. Quanto a contar o que tinha se passado… Ah! Isso não.”
(Darlene Silveira)


“Qual o problema se eu como cachorro-quente na carrocinha da esquina?”
(Danusa Piovesan)


“Em nome de todas as minhas esperas, das minhas angústias, das minhas decepções, em nome de todas as ausências de um homem casado.”
(Daniela Sallet)


“Foi quando ouviu a voz de sua mulher dizendo-lhe um seco olá. Gérson não lhe respondeu. A mão tremia. Suava álcool.”
(Daniel Pires Christofoli)


“Em uma manhã como essa, perdidos entre os lençóis, os seios dela expostos, o meu pau murcho sobre suas coxas, foi em uma manhã assim que Ana me deixou.”
(Daniel  Costa Braga)


“A professora estranhou a sugestão do vizinho despachante, no meio da tarde. Logo veio a saber que o horário do expediente era o álibi de Ernesto, o único que não levantaria suspeitas sobre seu adultério. Deixou-se enganar pelas histórias de um casamento infeliz, um homem à beira da separação. Apaixonou-se e se contentava com as visitas esporádicas de um amante comprometido. Foi assim por alguns anos.”
(Daniela Sallet)

“Olhar em solstício, você tentará contrapor dois quadros na parede, procurará por um livro que nunca irá ler, lembrará de recolher as calcinhas sujas.”
(Daniela Langer)


“Eu precisava do lugar deserto.”
(Dalva Vieira)

“Vou reavivar tua memória: uma cerca dividia o Colégio das freiras da casa de Pedro; ele esperava a hora do recreio e se masturbava junto à cerca para que as meninas vissem.”
(Dalva Vera dos Santos)


“Arroz Feijão Açúcar Manoel Pão Frios Iogurte Manoel Requeijão Café em pó Água mineral Manoel Bombom Sabonete Xampu Papel higiênico Manoel Pasta de dente Antisséptio bucal Manoel.”
(Cristina Valle)

“E sorria e olhava por cima dos ombros das pessoas recém-conhecidas para ver se a outra, a Ex, a Primeira, estaria olhando. E ela estava.”
(Cristina Moreira)


“Tirou todos os adornos de Barbie-Patricinha: os brincos, as pulseiras, tirou o batom rosa-bebê com as costas da mão.”
(Cristiane dos Santos Azevedo)


“Sentei, desolada, numa poltrona, jogada a esmo pelos carregadores, e tive vontade de chorar. Quarta mudança, quarto casamento desfeito em 15 anos.”
(Cleonice Saggin Fochesato)


“Homem letrado, quando morreu deixou para a sobrinha distante a casa, um fraque e cartola com os quais freqüentava recepções pelo mundo afora, e uma montanha de livros – alguns em francês e alemão, a maioria de clássicos da literatura mundial. Os livros estavam cobertos de pó e muitos, comidos por traças.”
(Cleonice Bourscheid)


“Não uma carga opressiva, mas uma falta de alegria, um desinteresse, uma desesperança, um desmotivo.”
(Cláudio de Oliveira Koehler)


“Desisti quando ela colocou no carrinho cinco quilos de arroz, dois de feijão e três de açúcar, além de bolachas recheadas com cara de bichinho. Casada e com filhos, concluí. Comprei algumas latas de cerveja e fomos para casa do Bruno ver o jogo.”
(Cláudio Galvão)


“Era uma roupa que não era sua, um gosto na boca que nào era seu, uma ferida que iria cicatrizar ou quem sabe desparecer, uma série de beijos quem não tinham ordem cronológica nem procedência confirmada, uma turma de amigos que só se encontrava no verão e uma família que a mandava levantar da cama para trocarem os lençóis. Bens nada duráveis.”
(Cláudia Lopes)

“Minha mãe passa a manhã, como todas as outras, sentada na varanda, bordando intermináveis toalhinhas em ponto cruz. São flores e casinhas e bichinhos, de todas as cores, numa sucessão de pontinhos, que parecem fazê-la feliz.”
(Cláudia Guerreiro de Lemos)


“Estava começando a estabelecer prioridades na sua vida, parecia mais tranqüila, tanto que às vezes chegava a aparentar indiferença.”
(Clara Hartmann)

“Nenhuma palavra sobre a mais velha. Ninguém falou-nos sobre a prenhez, que não passara de um susto. Mas nos mudamos na semana seguinte. Tio Alencar e os seus ficaram na lembrança, como aqueles dias chuvosos. O relacionamento entre os adultos nunca mais foi o mesmo. Lurdes veio no verão, alta e esguia, mas quase não conversamos, tão envolvida ela estava em ficar próxima da minha mãe, pela casa. Papai também foi mais caseiro naquele ano.”
(Clairto Martin)


“Nasci num lugar onde aprendemos a dar essas desculpas com as primeiras palavras: esqueci do dinheiro, o carro do meu pai está na oficina, não poderei ir à festa pois já tenho compromisso.”
(Cíntia Vieira Souto)


“Não era raro encontrar pelas estradas e calçadas corações despedaçados, lacerados e abandonados.”
(Cíntia Rosângela)


“Trepariam pelo tempo que ela não saberia contar. E se sentiria bem por isso.”
(Cíntia Perin)


“Embaixo da cama, encontrou uma caixa onde ele escondia uns guardados. Pegou uma pilha de revistas masculinas, das que foi obrigada a folhear dezenas de vezes com ele. Rasgou página por página.”
(César Azevedo)

“Amava Adele mais do que minha própria vida. Faria qualquer coisa para lhe provar meu amor, menos lhe dizer isso.”
(Cecília Levacov Berlim)

“Funcionário público, meio duro, um mês de férias. Praia pela manhã, sesta na rede, cerveja no fim da tarde. Em meio a qualquer assunto, quase gritou em silêncio: Vou escrever um livro.”
(Cassio Grinberg)

“Essazinha sem vergonha na cara roubou o meu marido descaradamente, fazendo sexo com ele todos os dias depois do expediente, enquanto eu pensava que ele estava na academia. Foi transando que esse filha-da-mãe emagreceu.”
(Carolina Côrtes)

“Mas era tranqüila, a situação. Tão tranqüila quanto pudesse ser uma divisão de amor.”
(Carol Teixeira)


“Não havia mais o ruído das cigarras, dos pássaros, as árvores e arbustos estavam imóveis. Também nenhum ruído dos automóveis que circulavam na redondeza.”
(Carmen S. Selbert)


“Com qualquer tempo, o circo está sempre lotado.”
(Carlos Stein)

“Trocando artesanato por prato de comida. Dormindo ao pé de fogueiras dentro do mato ou na beira da praia. Tudo tão natural, puro, simples. Cerrou os olhos. Tão miserável. Consumiu seu alento a impressão de que se olhasse para trás não veria nada além de macegas e arbustos onde um dia houvera uma estrada.”
(Carlos Hahn)

“Afinal, não foi a primeira nem a última vez que um homem enganava sua esposa resultando disso a separação inevitável.”
(Carmen Goldmann Shcerer)

“Queria que Jonas simulasse um estupro e me comesse ali mesmo, na rua, no frio, no chão, com fúria, com desejo, queria que meu namorado fosse como um daqueles tantos homens que me cobiçaram enquanto cruzava o beco.”
(Carina Luft)


“Lembrei das aulas de yoga que planejei freqüentar (e nunca fui) e me concentrei apenas em respirar um pouco.”
(Caleb Faria Alves)


“As lâmpadas não acenderiam. As lembranças não sumiriam.”
(Bruna Correia de Souza)

“Saíram do bairro Moinhos de Vento. No vazio do verão, o asfalto revelava sua cara hostil e sua noite profunda. Grazenatti se encolheu no estofamento de couro. ‘Onde estão os pretos?’- pensava – ‘Onde estão os pretos?’. Alcançaram a lomba da Coronel Lucas de Oliveira. A rua abriu sua gargante íngreme; o carro mergulhou.”
(Bolivar Torres Correa)


“A porta estava encostada. Entrei.”
(Bianca Alves)


“E fico dando voltas circulares na noite negra, pousado no lodaçal do olhar e no engano da utilidade inútil do amor.”
(Bety Brunstein)

“Eu estava sentado sozinho em um pub irlandês quase vazio, no final da madrugada, observando o último jogo de dardos da noite quando um toque no ombro tirou-me das minhas divagações.
Era o meu eu do futuro, exatamente como eu, só que mais velho.”
(Bernardo Moraes)

“Ele chegou exausto ao quarto de hotel. Há muito estava por tomar a decisão: sair de casa. Não agüentava mais as queixas, lamúrias e brigas.”
(Berenice Medeiros)

“E isso a cercava do inacreditável, como inacreditável era o próprio Proximágoras, que a deixava andar pela Ágora, que a usava poucas vezes, que apenas lhe exigia limpeza, organização, bons cuidados com ele e com os cavalos e que só batia nela quando algum dos filhos adoecia.”
(Beatriz Jacobs)


“De tudo, o mais doloroso eram os silêncios. Ela intuíra o abandono, não claramente, mas intuíra.”
(Ayalla de Aguiar)

“Os fios longos, desgrenhados, a barba cubana de corte dissidente, a revolta espocando epiderme afora numa profusão de cravos.”
(Antônio Falcetta)

“O pai já estava na segunda caipira, no fim da picanha e da paciência.”
(Ângela Wolf)


“A casa estreita e comprida de esquina foi se esvaziando, as vozes familiares presas lá dentro, o cheiro de mofo tomando conta das cortinas, dos tapetes, dos móveis, das tias.”
(Ângela Ramis)

“O bilhete dizia ‘Desculpa, a larica foi grande, não consegui resistir’. Parece que o rato era alfabetizado.”
(Ângela Jung)


“O celular tocou, o nome Felipe piscava no display, o final: 04. Eu olhei e senti algo estranho. Deixei tocar. Não tinha vontade de atender. Esqueci para que queria tanto receber aquela ligação.”
(Andréia de Vargas Souza)


“Olho e o vejo, Hector, com aquela cara de bobalhão. Sorria, Helena, sorria e acene pro panaca. Isso, com aquela piscadinha que desmancha o imbecil. Oi, sim, meu amor, te amo também. Articula bem as palavras, pra ele entender do outro lado da blindagem. Ótimo, já seguiu adiante. Fácil demais enganar o trouxa.”
(André Daniel Reinke)

“Mas até com cobra a gente se habitua. Usa mais cuidado, olha os pelegos, sacode as botas e vai vivendo.”
(Ana Luiza Mariano)


“Débora, não quero que você me leve a mal, mas preciso te dizer uma coisa: você não pode deixar os alunos fazerem o que quiserem e bem entenderem na sua aula.”
(Ana Lúcia Machado)


“Era o ano de 1963. Campos Verdes comemorava seu cinqüentenário.”
(Ana Lúcia Habkost)

“Cancela, estacionamento, porta automática, luzes, vitrines, supermercado, cinema, praça de alimentação. Um casal, dois idosos, três meninas adolescentes, duas amigas fofocando, uma solidão desgarrada, duas lágrimas escorrendo, um celular tocando, mágoas na vitrine e uma alma em liquidação. Esperanças com cinqüenta por cento de desconto.”
(Ana Cristina Klein)

“‘Bibi hot line”  queria filhos, porque mentira sua idade. ‘Casado 40′ era realmente casado e tinha quatro filhos.”
(Ana Hervella)


“Estavam lá os convidados dos jantares que não aconteciam, os jogos sem fardamento, as reuniões sem pauta, hospitais sem doentes e enterros sem cadáveres. O universo cenográfico dos canalhas.”
(Aloísio Zimmer Júmior)

“Qualquer hora destas os carros andarão tão rápido que os cachorros não os alcançarão.”
(Almeri Espíndola de Souza)


“Intermináveis rodopios da mesma rotina. Freqüentei puteiros. Trepei com ordinárias de xoxotas rígidas engraxadas com cuspo.”
(Alexandre Vargas)


“Como uma pessoa que sofre do mal de Parkinson, e seu tremor aumenta tanto que é como se parasse de tremer. Assim é. Não dá para parar – o parar só se atinge com mais velocidade. Acelero mais.”
(Alexandre Luís Schultz)


“Um velho neurótico, viciado, bêbado, repleto de fantasias e já um tanto quanto brocha.”
(Alexandre Costa)


“As feridas mal cicatrizadas voltaram a abrir.”
(Adriane Maria Gaspary)

“- Eu vejo a aura das pessoas.
– Tá brincando?
– Não. É um dom que pouca gente tem.
– E que cor é a minha?
Olho por cima de sua cabeça por alguns instantes.
– Lilás.
Assim começou o meu relacionamento com Cristiano, que resultou em uma casa, dois filhos e um lindo jardim com as cores do arco-iris.”
(Adriana Oliveira)

“Eu moro num pardieiro na Vila Bom Jesus. É um prédio antigo onde o dono construiu dois sótãos para ter uma renda adicional. Como não conseguia alugar, me emprestou. É uma peça desajeitada: quente no verão porque não tem forro, frio no inverno porque as janelas estão sem vidros.
‘Um sótão’- ela falou. ‘Que romãntico! Sempre quis transar num sótão, tal como a Mimi, da ópera La bohème.”
(Abrão Astis)




“(…) je n’écris pas pour dire que je ne dirai rien, je n’écris pas pour dire que je n’ai rien à dire. J’écris parce que nous avons vécu ensemble, parce que j’ai été un parmi eux, ombre au milieu de leurs ombres, corps près de leur corps; j’écris parce qu’ils ont laissé en moi leur marque indélébile; j’écris parce que leur souvenir est mort à l’ecriture.”
(Georges Perec em W.)

“A moça escolhida o era pela passividade e a palidez. Quanto mais desconjuntada, indolente e molenga, melhor. O garanhão era escolhido no tapetão. Apesar de não se ter formado em advocacia, Betty dizia que o deleite sexual adivinha da eloqüência masculina na hora do gozo.”
(Silviano Santiago em Contos antológicos)

“Nunca lhe pediram troco. Acariciava a pele descrente. O que sabe sobre si: vende fatias.”
(Luci Collin em Acasos pensados)

“Gosto de ver esses filmes livres para maiores de seis anos porque não mostram o universo kitsch dos adultos, com adultérios e separações”
(Heinrich Böll em Pontos de vista de um palhaço)

“Sexo. Negócio que nunca acaba.”
(Newton Cesar em O mar e a escduridão)

“Não sou intolerante a rap e a reggae, a blues e a jazz, porque a arte é universal e sobre-humana. O que eu não tolero é americano e aquele rapaz parecia muito com Nixon.”
(Arturo Gouveia em Pelos pobres de Tegucigalpa)

“Derrière eux, les huit demoiselles d’honneur, toutes vêtues d’organdi rose, leurs frais visages encadrés par des capelines assorties. Léa détestait le rose et l’organdi.”
(Régine Deforges em La bicyclette bleue)

“Aí está como terminam, ouvia meu pai dizer, os que dão beijinhos à porta. Os que riem involuntariamente, os que vivem de intrigas, os que se matam aos gritos e se reconciliam loucamente. Aí está.
Toda uma vida de contenção, de paixões sufocadas, de sexo dosificado, recebia por fim um prêmio irrevogável: nós, querido, não nos suicidamos.”
(Marcelo Birmajer em Histórias de homens casados)

“Uma mulher falando sozinha em casa. Uma mulher no caos do lar. Uma mulher e suas coisas. Uma mulher e mais ninguém. Um monólogo.”
(Angela Dip em Por água abaixo)

“Não se sabe se aquela vez foi, de fato, para algum dos dois, a primeira. E até hoje Beatriz não teve mais notícias de Walter, que, dizem, vive com outro homem em Veneza.”
(Maria Esther Maciel em o livro dos nomes)

“Tenho vivido no pavor das metamorfoses.”
(Jean Genet em Diário de um ladrão)

“Já li Lope de Vega e li Gregório,
pois ambos sonetaram do soneto,
seara na qual minha foice meto,
tentando fazer algo meritório.

Não quero usar o mesmo palavrório,
mas pilho-me, no meio do quarteto,
montando a anatomia do esqueleto.
No oitavo verso, o alívio é provisório.

Contagem regressiva: faltam cinco.
Mais quatro, e fico livro do problema.
Agora faltam três… Deus, dai-me afinco!

Com dois acabo a porra do poema.
Caralho! Só mais um! Até já brinco!
Gozei! Matei a pau! Que puta tema!”
(Glauco Matoso em Poesia digesta)

“Oscilando e cambaleando apoiado na minha bengala, penso nas palavras mais ou menos ridículas, derivadas do grego, para denominar terrores irracionais, muitos dos quais designam mais ou menos condições de saúde ridículas: antofobia (medo de flores), pogonofobia (de barbas), deipnofobia (de festas e jantares), triscaidecofobia (do número treze). Sim, são almas muito sensíveis. Mas há uma para ferrugem (iofobia) e acho que tenho isso.”
(Martin Amis em Casa de encontros)

“E em segundo lugar, ‘porrada’ derivava de porra, e porra não era o que eu estava pensando; era uma arma do exército romano, uma espécie de último recurso, na forma de um cassetete. Quando não podia lutar com a espada curta, o soldado romano saía distribuindo porrada, isto é, batia com aquela porra na cabeça do inimigo.”
(Deonísio da Silva em Orelhas de aluguel)

“Perguntei o que teria levado o homem ao suicídio. E o sushiman, que naquela hora cortava a carne branca dos tentáculos de um polvo, respondeu, sem olhar para mim, como se falasse de uma doença qualquer: disseram que foi a literatura.”
(Bernardo Carvalho em O sol se põe em São Paulo)

“Choramos juntos, nos vestimos e não dissemos adeus. Na minha bolsa, alguns dólares.”
(Lima Trindade em Corações, blues e serpentinas)

“Ah, eu adoro cozinhar: me dá uma sensação de estar com a cabeça tão vazia, mas de uma forma útil.”
(Truman Capote em Travessia de verão)

“- Quero estar dentro de você.
– É difícil.
– Mesmo para um hermafrodita?
– Mostra para mim.
Eles dançam, os três juntos.”
(Daniel Odier em O beijo canibal)

“Era difícil saber quem traía a quem ou se tudo fazia parte de um jogo.”
(Eric Novello em Necrópole)

“Victor entrou no barraco, acendeu um lampião a querosene, sentou-se na cama mambembe e, devagar, abriu o envelope. Por força do hábito, abriu-o de baixo para cima. Remetentes de carta-bomba quase sempre põem o detonador na parte de cima do envelope. Poucas pessoas com razões para esperar uma bomba pelo correio abrem suas cartas do jeito normal. O envelope continha um mapa, cuidadosamente desenhado à mão com nanquim preto.”
(Henning Mankell em A leoa branca)

“La Guardia, disse Nick, e lá vão eles para La Guardia. Quando chegam lá, Nick vai até o balcão de passagens e pergunta qual o primeiro vôo. Vôo para onde?, pergunta o vendedor de passagens. Para qualquer lugar, diz Nick. O vendedor consulta o horário. Kansas City, diz. Há um vôo agora, o embarque começa dentro de dez minutos.  Bom, diz Nick, entregando o cartão de crédito ao vendedor, me dê uma passagem. Só ida ou ida e volta?, pergunta o vendedor. Só ida, diz Nick, e meia hora depois esá sentado no avião, voando na noite para Kansas City.”
(Paul Auster em Noite do oráculo)

“Tenho certeza que ele nunca lhe disse:´você tem que ir para a cama com o Ordóñez´. Quer dizer: nunca o disse assim, de forma tão violenta. Foi uma manobra a distância que no fim fugiu do seu controle. Uma espécie de bumerangue: você o joga como quem não quer nada e, se não se abaixa, ele corta a tua cabeça.”
(Ricardo Piglia em A invasão)

“De repente, como se despertasse do sono e da demência ante a majestade da aurora no mar, a Rainha olhou demoradamente o filho nos olhos e afirmou com a energia dos idos dias de governo ativo:
– Filho, eu sei!”
(João Felício dos Santos em Carlota Joaquina, a rainha devassa)

“O motel brasileiro se anuncia de longe, com cartazes e néon, com oferta de almoço executivo, teto solar e cadeira erótica. Mais importante ainda, quando recorre à publicidade na imprensa, por exemplo em São Paulo ou no Rio, ele chega a se propor como alternativa de lazer ao casal casado.”
(Contardo Calligaris em Hello Brasil!)

“Hope se pergunta se sua visitante é judia. Ela jamais aprendeu a identificar quem é judeu, como sabem fazer os anti-semitas e os próprios judeus.”
(John Updike em Busca o meu rosto)

“Não vou conseguir contar porque eu sempre rio na metade da coisa e não tem nada mais chato do que alguém contando uma coisa engraçada e rindo misturado com a coisa que a gente está esperando ser contada e a gente fica olhando o idiota e pensa Como é idiota. E no meio da coisa a gente também pensa Estou fazendo papel de idiota.”
(Luci Collin em Vozes num divertimento)

Noite bonita, disse consigo. Reinava um cheiro bom de esterco fresco.”
(Sérgio Faraco em Noite de matar um homem)

“Não lembro de sua roupa. Não lembro de sua cara feliz, a qual devo ter dedicado tão pouco tempo a olhar. Nem de ter-lhe dado tchau, enquanto tentava inutilmente arrastar uma amiga do colégio, pela qual jamais me interessara antes e tampouco me interessaria depois, para um fim de noite menos vazio.”
(Marcelo Semer em Certas camções)

“Não sou o tipo de mulher que sabe que o marido tem um caso e continua vivendo com ele, não. Se fosse verdade essa história que você está inventando agora de pura maldade, eu já teria me separado. Está pensando o quê? Que eu sou uma mulher qualquer, que se agarra ao casamento por medo? Só porque eu sou ´a boazinha´? Olha bem para mim e vê se eu tenho cara de vítima, de mulher traída conformada.”
(Ana Arruda Callado em Uma aula de matar)

“O dr. Paul Steiner, psiquiatra clínico da Clínica Steen, estava sentado no consultório da frente, no andar térreo, ouvindo a explicação altamente racionalizada de seu paciente sobre o colapso de seu terceiro casamento.”
(P. D. James em Mente assassina)

“Una noche, Elisa se sentó junto a su padre delante del televisor para presenciar cómo una gorda que ponía los ojos en blanco ganaba tres mil euros gracias a su erudición: conocía el nombre del primer hijo de Angelina Jolie.”
(Luis Manuel Ruiz em El ojo del halcón)

“Quando ameacei ir embora antes de cantar parabéns-pra-você e soprar as velinhas, por não agüentar o espetáculo do amado idealizado no seio concreto da família, cortou grossa:
-Sem essa, m´irmã. Homem que presta nasceu morto.”
Perguntei se achava a Estefânia mais bonita do que eu. Garantiu que nunca, e não mentia pra me bajular no meu dia de nascimento. Segundo ela, eu dava, no duro, de dez a zero na legítima.”
(Margarida Patriota em Elas por elas)

“Em matéria de leitura eu sou onívoro, ou polífago, se preferem. Leio tudo que aparece na minha frente. Mas as duas leituras que prefiro são poesia e bula de remédio.”
(Rubem Fonseca em O romance morreu)

“E o sorvete, que eu simplesmente passaria para que cada um se servisse na própria caixa, naturalmente tinha que ser transposto para um tigela bonita, acompanhada de uma colher de prata para servir.
Bonita. Essa era a medida da vida de mamãe.”
(Joyce Carol Oates em A falta que você me faz)

“Sempre achei que a escola não devia ensinar certas coisas pro pessoal de lá do beco. Onde ficava o coração, por exemplo. Se não fosse o professor, eu tinha atirado no lado direito e o porco ainda podia tá vivo.
Sempre achei que o coração fosse do lado direito.
Mas não era.”
(Ítalo Ogliari em Um sete um)

“A diferencia de lo que sucede en las verdaderas novelas de ficción, los elementos de este relato que empiezo ahora son del todo azarosos y caprichosos, meramente episódicos e acumulativos – impertinentes todos según la parvularia fórmula crítica, o ninguno necesitaría al otro -, porque en el fondo no los guía ningún autor aunque sea yo quien los cuente, no responden a ningún plan ni se rigen por ninguna brújula, la mayoría vienen de fuera y les falta intencionalidade; así, no tienen por qué formar un sentido ni constituyen un argumento o trama ni obedecen a una oculta armonía ni debe extraerse de ellos no ya una lección – tampoco de las verdaderas novelas se debería querer tal cosa, y sobre todo no deberían quererlo ellas -, sino ni siquiera una historia con su principio y su espera y su silencio final.”
(Javier Marías em Negra espalda del tiempo)

“Eu sou mestre nisso: fujo da minha história todo dia e ela me persegue como um vira-lata abandonado.”
(Lionel Shriver em Precisamos falar sobre o Kevin)

” – Menina, não senta de perna aberta.”
(Cecília Prada em Estudos de interiores para uma arquitetura da solidão)

“Nos lugares onde isso acontece, os sobreviventes, as pessoas que estavam perto e ficam feridas, às vezes, meses depois, aparecem uns calombos nelas, por falta de termo melhor, e aí vão ver e descobrem que a causa é fragmentos, fragmentos mínimos do corpo do terrorista suicida. O corpo dele é reduzido a pedacinhos, pedacinhos minúsculos, e fragmentos de carne e osso são lançados com tanta força e velocidade que se cravam no corpo das pessoas que estão por perto.”
(Don Delillo em Homem em queda)

“Em Philip, sempre houvera um lugar que lhe era vedado, uma reserva, uma frieza que, de início, atribuia à guerra, às trincheiras, às cicatrizes psicológicas ocultas dos soldados. Mas depois começou a ter dúvidas: nunca conseguira ter intimidade suficiente com as mulheres dos colegas do marido para perguntar se também elas sentiam haver esse local proibido em seus homens, uma região onde estava escrito Verbotem, Proibida a Entrada.”
(Doris Lessing em O sonho mais doce)

“Cagando de medo, sempre em frente. Cagando de medo, pernas para que te quero. Nunca ficou claro em que grupo esteve o Carajillo, nunca lhe perguntei. Talvez fosse uma invenção, não houve muitos carros blindados na Guerra Civil Espanhola.”
(Roberto Bolaño em A pista de gelo)

“Visto a distância, se destacava dos demais passantes pela altura acima da média e pela quase imperceptível oscilação do tronco, lembrando o ponteiro de um metrônomo. Entrou na pequena loja sem hesitação. Pediu dois quibes e duas esfirras.”
(Luiz Alfredo Garcia-Roza em Na multidão)

“O padre Perereca, assim alcunhado por seus braços finos e compridos, olhos esbugalhados, tez algo esverdeada e voz fina e piedosa, era o historiador oficial da Real Família.”
(Ruy Castro em Era no tempo do rei, um romance da chegada da Corte)

“Desce os degraus da cozinha para o quintal, desolado também com a fogueira molhada. Manda comprar álcool, não é possível. Os armazéns estão fechados há anos e ninguém mais se lembra com quem ficou a chave do cadeado do portão.”
(Gustavo Bernando em Reviravolta)

“Traio Michel como traí você tantas vezes em seis dos nove anos do nosso casamento.
Sangue de puta.”
(Amós Oz em A caixa-preta)

“Se a queda é livre
o medo da queda
é preso.

Livre é a queda
sem embaraço
defeso.

A queda
de um homem
tenso
não é a guerra
do peloponeso
pelo estreito
de um coração
perverso.

A queda livre
é o próprio peso
de um coração
suspenso.

Toda queda
é o menosprezo
de quem cai
sobre si mesmo.”
(Mário Chamie em Caravana contrária)

.December 24, 2008