ELVIRA VIGNA – NOVIDADES: PEDAÇOS DE LEITURA, 2004/5



“Estou convencido, Lucas, que todo ser humano nasceu para escrever um livro e para nada mais. Um livro genial ou um livro medíocre, não importa, mas aquele que nada escreve é um ser perdido.”
(Agota Kristof em A prova)

“Ela levantou-se e me olhou de um jeito estranho. Achei que tinha mordido seu lábio com furor excessivo. Não era isso: Lavínia tirou a aliança e jogou dentro da bolsa. Disse: um pouco de decência não faz mal a ninguém.”
(Marçal Aquino em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios)

“Há pouco aqui por dentro:
uma mulher que cala,
um amor órfão
que desce suave pelo ponteiro das horas,
uma flor caída,
e todo sentido preso em garrafas vazias.”
(João de Moraes Filho em Pedra retorcida)

“Mas queria dizer que, naquele momento, naquele fato suspenso em que nada acontecia, de repente e sem nenhum motivo, a Médica Curandeira (de passado guerrilheiro), o Ator Bufão (egresso de um seminário) e o Jornalista Cartomante (com raízes contraculturais) não estavam preocupados ou diminuídos pelo fato de serem Caricaturalmente Representativos De Uma Geração, fosse qual fosse.”
(Caio Fernando Abreu em Morangos mofados)

“Talvez o que eu lamente ter perdido seja minha antiga capacidade de viver o banal como se fosse épico.”
(Julia Mainardi em Da natureza das coisas)

“A sensação era de fadiga, de uma espécie de constrangimento do espaço, como se de um ponto indefinível alguém repuxasse o fio que urde o tecido urbano.”
(Daniel Santos em Pássaros da mesma gaiola)

“Desentardecia. O azul cobalto do céu foi se diluindo, pequenos vermelhos de Turner surgiram nele. Com certeza voávamos perseguindo o dia.”
(Alexandre Soares Silva em A coisa não-deus)

“Mas, alguns momentos depois, quando ele segurou o giz com gestos elegantes, ela percebeu a brancura de suas mãos grandes, dedos finos, compridos, requintados e sensuais. A capa, ele devia usá-la em segredo. Adivinhou-lhe hábitos noturnos, um esquife devia estar à sua espera.”
(Rosângela Vieira Rocha em Pupilas ovais)

“I am a man with no ambitions
And a few friends, wholly incapable
Of making a living, growing no
Younger, fugitive from some just doom.
Lonely, ill-clothed, what does it matter?
At midnight I make myself a jug
Of hot white wine and cardamon seeds.
In a torn grey robe and old beret,
I sit in the cold writing poems,
Drowing nudes on the crooked margins,
Copulating with sixteen year old
Nymphomaniacs of my imagination.”
(Kenneth Rexroth em The advantages of learning)

“Ouvi um barulho, peguei a arma do papai em cima da estante. Ainda trajava o meu pijama, de calça e camisa de manga longa, toda abotoada, listrada de azul e azul clarinho. Estava frio, era época de baixa temperatura. Estava escuro também, e só uma luz de fora invadia a casa. De repente, um passo. Atirei nele. Assustado, deixei cair a arma. Saiu muito sangue da barriga dele, bem vermelho. Combinava com a roupa. Ouvi uma voz abafada, de velho pedindo socorro, e pensei: se ele continuar falando assim, vai acordar todo mundo. A arma do papai tinha silenciador. Mirei bem na testa e disparei. Morreu na hora. Tentei puxar o corpo para fora, mas ele era muito pesado. E eu tinha apenas sete anos.”
(Breno Pessoa em Beijando paredes)

“Desesperadamente na festa em que estive – em que estive agora pouco já nem me lembro o por quê, talvez uma vernissage talvez lançamento de um livro -, desesperado porque vinham falar comigo e eu não lembrava seus nomes, desesperado porque achava que todos reprovavam o jeito como segurava o cigarro ou bebia rápido demais o vinho, desesperado porque sentia de novo aqueles calafrios nos braços, desesperado porque odiava aquela muzak prozac em jamsession de branco metido a negão com muito saxofone e muito yeah.”
(Ronaldo Bressane em Céu de Lúcifer)

“Trocando em miúdos, escrevo porque não sei lidar com os tigres de outra forma.”
(Sonia Rodrigues em Amor em segredo)

“O passado não tem sítio, a única vantagem do passado é não existir em lado algum.”
(Dulce Maria Cardoso em Os meus sentimentos)

“Fiz sinal, inutilmente. Atendiam a todas as outras mesas. Esperei dez, quinze minutos. Em vão. Esperei meia hora. Disso me lembro bem. A dor não se reconheceu ferida, por isso deve ter sido tão rápida a cicatrização. Levantei e saí do restaurante sem ter degustado as famosas ribs do Texas.”
(Silviano Santiago em Histórias mal contadas)

“Tinha medo das diferenças. Medo de homens com seus membros invasivos. Medo das mulheres-buraco. Optei pelo espelho. E foi assim que me cortei toda.”
(Thiago Picchi em Sexo, drogas e tralalá)

“Nem Lídia me conhece; ninguém. Eu mesmo não me conheço, ele pensava, mas isso pode ser uma vantagem. Por enquanto, vou escapando pelas frestas.”
(Cristovão Tezza em O fotógrafo)

“Quando a coisa era feia, Graciliano Ramos alisava o cabelo e xingava: cavalo!
O temido e admirado revisor do Correio da Manhã odiava palavras e expressões empoladas perdidas no meio do texto, e rugia para o autor do outro lado da redação: outrossim é a puta que o pariu!”
(Cristiane Costa em Pena de aluguel)

“É então de se imaginar que um dia Toussaint notou no filho – e a partir daí não cessou de notar – alguma coisa, gesto, palavra ou mais provavelmente silêncio, que lhe desagradou: um apoio muito leve nos cabos do arado, uma preguiça de viver, um olhar que permanecia obstinadamente o mesmo (…)”
(Pierre Michon em Vidas minúsculas)

“Ninguém muda. Não sou só eu que não mudei. Nin-guém-mu-da, ouviste? Nin-guém. Eu não sabia que gostava de viajar porque nunca tinha viajado, como agora ainda não sei se gosto de outras coisas que nunca fiz. Mas isso não quer dizer que tenha mudado. Somos os mesmos, somos sempre os mesmos.”
(Dulce Maria Cardoso em Campo de sangue)
por e-mail de 29/07/05, a autora comenta meu ‘pedaço de leitura’:
Ao ir à procura da capa do Campo de Sangue na edição espanhola que sairá em breve dei com o seu site. Sempre que tenho maneira de contactar com um leitor faço-o por acreditar que não há nada mais importante para quem escreve do que ser lido já que um livro se cumpre em cada leitor. E também porque escrever, é para mim, procurar os pontos onde me coincido com os outros. Ou para falar em termos mais gerais, no que se convencionou chamar arte, penso cada trabalho como um pedido de socorro, uma espécie de grito, olhem, estou aqui e tenho isto para oferecer a quem quiser aceitar, tenho isto para oferecer a quem, como eu, não quer estar sozinho. Por isso obrigada por estar a ler o Campo de sangue que eu escrevi para o mundo e o mundo numa manifestação de generosidade tem respondido, o que me fez repensar a ideia de mundo que tinha.

 

“-Um homem da minha posição tem que se refinar continuamente, aguçar a inteligência, acompanhar os tempos.
O cretino. Um sorriso enorme na cara. Estava gordo e suava.”
(Rubem Fonseca em O inimigo)

“Durante quatro dias, segurei o choro. Na noite do quinto dia, moí seis cubos de gelo, peguei a garrafa de gim e a de cherry brandy, fiz suco de limão e misturei tudo no copo, com açúcar. Dois goles mostruosos, e veio, na explosão, a maldita lucidez: Sheila foi o futuro que não aconteceu.”
(Bernardo Ajzenberg em Homens com mulheres)

“Erguendo-se para além da linha férrea, por trás dos jardinzinhos pequeno-burgueses, ele viu as ruínas carbonizadas da cidade, uma silhueta rasgada e tenebrosa – sentiu uma dor forte e lancinante e fechou novamente a janela. Dentro reinava penumbra e silêncio, o gorjeio dos passarinhos ficara do lado de fora e ele compreendeu então por que ela não queria abrir a janela.”
(Heinrich Böll em O anjo silencioso)

“Deixa eu pensar (somos a Velha Guarda agora)… Sim, vejo o camarada chegando de moto e capacete de Barão Vermelho no Sindicato dos Químicos, num sábado, para um meeting trotskista. O aniversário da revolução bolchevique, talvez. No palco do salão, a bandeira da Quarta (um número quatro em cima da foice e do martelo em fundo vermelho) e os velhos trotskistas alinhados na mesa (Trotski era o Velho; Lambert, o ferroviário fundador da nossa organização, também era o Velho). Hildo, Maschera, Xavier. Mais de duzentos anos de revolução nos contemplam.”
(Cadão Volpado em Questionário)

“São frios estes contos porque se limitam a expor os puros fatos. O autor estima que a vida não premia nem castiga, não condena nem salva ou, para sermos mais exatos, não consegue discernir essas complicadas categorias. Só pode dizer que vive; que não lhe exijam qualificar seus atos, dar-lhes um valor qualquer ou esperar uma justificativa ao final de seus dias.”
(Virgílio Piñera em Contos frios)

“O quarto tinha um closet pequeno e moderno. Ali dependurou sua jaqueta e tirou da maleta um pulôver cinza jaspeado. Vestiu-o, sentou na cama e escolheu um par de meias de lã grossas para aliviar o gelo que lhe feria os pés. Depois estendeu-se no leito, sem abrir a colcha, e tentou discernir com que figura se pareciam as manchas no céu aberto.”
(Antonio Skármeta em O baile da vitória)

“Foi numa noite assim, escura, e após tantos anos dividindo a cama com Marisa, que descobri que a amava como somente se ama nos poemas.”
(Vinícus Jatobá em A novela de um homem ridículo)
por e-mail de 30/08/05, o autor comenta meu ‘pedaço de leitura’:
Escrevo sem motivo… Vi que no seu sítio você destaca um trecho do meu romance em andamento, ‘Homem ridículo’. Muito bacana.

 

“Odeio mais ainda o tipo de pessoa em que me transformo quando me vejo fora da minha toca, principalmente quando estou no interior, longe das cidades grandes, porque é só nelas que eu consigo respirar.”
(Paulo Henriques Britto em Paraísos artificiais)

“Os espelhos de sua Monark vermelha espatifaram-se contra os paralelepípedos. Fernando tinha vinte e quatro anos, ia se casar em breve, já tinha até dado entrada com a papelada no cartório. Uma família, eis tudo o que não fomos.”
(Luiz Ruffato em Mamma, son tanto felice)

“Comecei a ganhar respeito por um motivo inusitado. O fato de não receber visitas. A grande maioria dos presos, em seu íntimo, deseja ter forças suficientes para agir assim. É uma das maiores demonstrações de força que um preso pode dar. Porque, no fundo, todos eles colocam em alguém a culpa por estarem ali. Pai, mãe, irmãos, mulheres, filhos, amantes, todos têm uma parcela de culpa. Por exigirem demais, por exigirem de menos, por ciúme, amor, inveja. Enfim, por qualquer motivo que fosse, a culpa estava lá fora.”
(Alexandre Plosk em Livro zero)

“Nunca fora querido das devotas: arrotava no confessionário.”
(Eça de Queirós em O crime do Padre Amaro)

“Sentia um tesão louco pelo pai da minha amiga Milena, um holandês chamado Jon. Um homem barbudo e de tamancos, uma coisa linda – até hoje não posso ver uma barba preta que caio morta.”
(Sabina Anzuategui em Calcinha no varal)

“Apertei a vista pra enxergar Fábio entre a fumaça e o breu. Tinha 20 anos e cantava num grupo de hip-hop quando fomos apresentados na festa de réveillon de uma gravadora em São Paulo. E porque ele tinha 20 anos e cantava por aí, achei que não ia dar certo mas estava sozinha e arrisquei e continuei arriscando até que acordamos juntos uma vez, num dia de semana, e eu estava atrasada pro trabalho. Quando nos despedimos na entrada do metrô, perguntei o que ele ia fazer o resto do dia. Ele respondeu que tinha que andar de skate. E nos despedimos mesmo.”
(Cecília Giannetti em Paralelos)

“Quando a mãe chegou, viu primeiro as cartelas vazias de gardenal e um cd de Renato Russo tocando no aparelho de som.”
(Ronaldo Cagiano em Concerto para arranha-céus)

“De vez em quando, não consigo dormir e começo a pensar um monte de besteiras: cheguei, até, a adormecer acreditando que a porta estivesse aberta. Bastava empurrá-la para sair. Quando acordei, fiquei com muito medo de levantar e descobrir que, na verdade, nunca estive preso.”
(Ricardo Lísias em Capuz)

“Pensei que ao escrever minha história eu me aproximaria do ponto em que Astrid escapou de mim, mas todas as minhas frases foram apenas mais uma maneira de me distanciar dela.”
(Jens Christian Grondahi em Silêncio em outubro)

“É costume de Angélica chegar a casa e subir direto ao terraço envidraçado. De manhã, gosta de olhar para a área de proteção ambiental a sudeste. De tarde, aprecia o sol batendo no jardim. Boca da noite, o poente a prende e, noite feita, finge que as luzes da cidade são as da ilha de Manhattan. ‘Não estou, afinal, no quintal do mundo’, diz-se.”
(Margarida Patriota em Brasília é uma festa)

“Mas as mais extraordinárias eram as que tinham nomes de estados de alma: Amparo, Perseverança, Esperança, Caridade, Ilusão, Saudade, Milagrosa, Generosa, Fraternidade, Aliança, Eternidade. Quem sabe, talvez algum poeta sem melhor ocupação por aquelas paragens tivesse sido contratado para espalhar nomes pelas roças, à medida dos sonhos dos que as tinham fundado.”
(Miguel Sousa Tavares em Equador)

“quadros há que a respiração suspendem
certa mão de tinta, certa carícia
revelada aquela nem a ausência:
modelam antes o que antes havia
e não há no quadro. o vento que secara
a pele exausta o cós aberto a calça
no chão largada e essa voz avara
que se não se ouve no quadro alça
seu traço (antes taça). tal silêncio, hélas,
manuseia-me o antinômio; e mudo
o quadro vaga torto para sempre
no meu mundo. com vinho, pois, celebre
a taça derramada o rosto o fruto
destas mulheres nuas soltas nas telas.”
(Oswaldo Martins em Lucidez do oco)

“O porteiro
do bloco 1 da 103 sul
pegou a filha do síndico
do bloco 0 da 413 norte
com o cara da 302
do bloco D da 209 sul
dentro do carro do zelador”
(Nicolas Behr em Eu engoli Brasília)

“O homem ajoelhado estava tremendo. Com certeza havia alguma coisa errada nessa história toda. Monstros não existem, qualquer pessoa sabe disso.”
(Rafael Lovato em Anverso e reverso de um crime)

“Estávamos a falar de viagens, de jóias e tecidos quando – num súbito ruído – João de Avis, o gato siamês, voou sobre a cristaleira, a perseguir álacre borboleta, atirando ao chão um jarro cúbico de laca, que se desfez em mil pedaços. Após o susto, a bela senhora de róseos mamilos afugentou o felino indelicado com um rude golpe de guarda-sol.”
(Claudio Daniel em Romanceiro de Dona Virgo)

“Dois professores me avisaram que a situação pesaria e que deveríamos dispersar. Eu era da arquitetura, disso me lembro. Estava nos primeiros períodos e, você, a semanas de se formar. Hoje me pergunto como, pois vivia entocado. Não dá para imaginar como nos conhecemos, mas foi tudo no mesmo ano. E logo meu engajamento era também em você. Com 18 ou 19, se acha que tais coisas não se misturam. A sua determinação era o meu eixo: seus 22 anos a ferro e fogo, ensandecido nessa estrada havia quase três anos. E eu, sua, a namorada do líder vivo, farejado por tudo que era cão desta cidade, usasse farda ou o quê.”
(Claudia Aguiar em Três)

“Usar pó de café e querosene para estancar o sangue pareceu-me ainda mais grotesco do que a briga em si. Então me apiedei deles e soprei aos seus ouvidos que derramassem o leite do pinhão-roxo sobre os ferimentos, mas eles não me puderam ouvir e não queriam me ouvir. A ignorância já estava enraizada em suas vidas.”
(Achel Tinoco em Vilarejo dos anjos)

“Se bem que, desse percurso, nada posso recobrar agora: o trajeto por ruas já tão percorridas entremeava-se às suas imagens que eu guardava comigo, e confundia-se tudo, o dia e a noite, o tempo, e eu, que já não sabia se ia ou lembrava.”
(Francisco Slade em Domingo)

“Amanheceu um daqueles dias, abro a janela e vejo que será um dia sem qualquer perspectiva de uma tragédia regeneradora, minhas manhãs estão piorando ou melhorando, ainda não sei.”
(Manoel Carlos Karam em Comendo bolacha maria no dia de são nunca)

“Viu as sombras desenhadas no caminho por que passara desapercebido, viu a pipa que tornava a erguer-se no alto; tronava o céu surdo, indiferente, as gentes empilhadas no morro, cariando as montanhas da cidade, as gentes que não tinham o que fazer mais no mundo, que não lhes pertencia, que eram demais ali, cariando as montanhas, tiro-recebedoras, tiros-badaladoras. Ele.”
(Alexandre Salem Szklo em O escapista)

“Não penso muito, apenas ajo. Por isso, sempre discordei, em número e grau, daquele filósofo pacato, Descartes. Se pensasse muito, era bem provável que eu já tivesse dado cabo de minha própria vida.”
(Ricardo Bellissimo em Sombras e nefastos)

“- Fica aqui você. Chega um cara que você não sabe de onde veio, fedido, armado… Vai com ele para aquele quartinho sinistro, sem saber o que ele vai fazer…
E continua:
- Você sai com um todo cheirosinho, um cara lindo. Estoura a camisinha e o cara é aidético. É, é fácil…”
(Renata Bortoleto, Ana Laura Diniz, Michele Izawa em Contos de bordel)

“Afirmou, ainda, que nem mesmo gostava muito de livros, concluindo que seu interesse por livros resumia-se a Neruda, o único livro que ela tinha de Neruda, e ainda assim ela só o lia porque a excitava, a excitava muito e por isso sabia todos aqueles poemas, pelo simples fato de que ela os lia de maneira obstinada. E pensar que para conquistar garotas eu já decorara poemas de Quintana e Vinicius, mas nada de Neruda – onde está um Neruda quando se precisa de um? Ainda tentei argumentar, dizendo que eu também tinha minhas dúvidas e anseios e confessei que a literatura também me excitava muitas vezes de maneira quase explícita, e admiti ser eu mesmo um autêntico preguiçoso, a ponto de usar adoçante no meu café por pura preguiça de mexer o açúcar, mas ela não me ouviu.”
(Marcelo Argolo em A madrugada é cálida e promissora)

“Fui para minha sala, mas parei no caminho para falar com um palerma. Quando cheguei, lá estava ela, assentada sobre a mesa, fumando e tomando café. Como no início do texto de Carver, há alguém fumando e tomando café.”
(Francisco de Morais Mendes em A razão selvagem)

“No dia 27 de junho de 1944, no mesmo instante em que Lúcia, acompanhada da irmã Dorotéia, chega a Valença do Minho para entregar ao Arcebispo a cópia com a revelação do terceiro segredo de Fátima, o Dr. Marescot nota, através de seu microscópio, que as manchas observadas tomaram a forma de um rabo e dois chifres bastante distintos na silhueta da Santíssima Virgem.”
(Joca Reiners Terron em Não há nada lá)

“Entre homens gritando vale-vale-vale e outros sons guturais não-identificados, entre cheiros diversos, de-cana, de-pastel, de-mijo, de-óleo-queimado, deixei-me perder. E nada de achar maracatu de Olinda. E nada de achar Mestre Salustiano. Estava ótimo assim: indo pra lugar nenhum, zanzando, bestando.”
(Rogério Menezes em A solidão vai acabar com ela)

“Os que não morreram cruzaram o rio e avançaram para os gerais, se isolaram em ilhas afastadas das povoações. Gentes, deuses, plantios e cultura nativos sumiram sob as pegadas do gado.
A riqueza deslizou pelo rio, quase nada impregnou em suas margens.”
(Carlos Barbosa em A dama do Velho Chico)
por e-mail de 12/11/04, o autor comenta meu ‘pedaço de leitura’:
Abri um sorriso quando me deparei com trecho de meu romance em sua página.
Mando-lhe abraços carinhosos.
Sigamos.

 

“Certa vez, chegou a amarrar-se na cama, mas aquela sua vontade louca falou mais alto. Soltou-se e assassinou um funcionário do prédio. De outra feita, resolveu passar o dia inteiro no clube onde era sócio. Imaginava que o clima bucólico do lugar pudesse arejar suas idéias, distraí-lo e, por fim, eliminar aquela impulsão nefasta que o dominava. Mas acabou afogando seis pessoas na piscina.”
(Giuliano Francesco em Animais urbanos)

“O carro do meu avô – que nunca teve carro,
era mais antigo
que o tempo desta lembrança.
E nem tanto que fizesse do carro uma geringonça.
Ainda existiam muitos daquele jeito,
O banco da frente, todo inteiro.
E eu ia com eles,
meu avô de um lado, meu pai do outro.
E deveria caber ainda minha prima,
que era sempre a mais pequenina,
Cabia em qualquer cantinho e sempre sorria.
E nós íamos por aquele caminho
quase vindo.”
(Elaine Pauvolid em Rios)

“O objetivo da minha vida é passar meu código genético adiante e perpetuar minha espécie. Às vezes eu paro pra comer uma pizza.”
(Eduardo Fernandes em O prazer de decepcionar)

“Eu traria as verduras e os legumes da cozinha para o banheiro, a compor a cena daquele despir-se interminável de um homem da minha idade. Eu o fotografaria rodeado de legumes antes de entrar no banho, durante a chuveirada, depois a se secar, sempre com cenouras, beterrabas em volta, folhas de louro o coroariam como imperador de Londres, com a tarde lá fora nublada e gelada.”
(João Gilberto Noll em Lorde)

“Há anos vende seu peixe
podre
seu suflê de vísceras
para vegetarianos sem o menor senso de humor.
Há tempos leciona
o dialeto do caos
dá conselhos ao sol
vende orquídeas escritas com
seu sangue
para vampiros que têm medo do vermelho.
Há séculos ele pratica
a extinta arte da pluviometria
fabrica idéias inúteis
conta os carros da esquina
compondo um poema longo e atroz.
Há minutos ele liga
para uma secretária eletrônica
que repete, estranho, exatamente
a gravação de sua própria voz.”
(Rodrigo Garcia Lopes em Nômadas)

“Vem aqui” – eu disse a ele – “é apenas isto e nada mais”. Mas não. Antes era preciso que eu lhe mostrasse o poço. Sim, o poço de palavras mortas. Mãe foi uma delas – a primeira. E, em torno dessa palavra, estivemos juntos – eu e ele – a tecê-la como se a destruíssemos, a comê-la como se a vomitássemos. “Os mornos, eu os vomitarei pela boca ” – ele não me disse. Mas bastou que ele não o dissesse para que eu compreendesse, sim, para que eu compreendesse que aquele não seria nunca um morno amor.”
(Lucia Castello Branco em Contos de amor e não)

“Mas ao tocar os contornos em purpurina dourada, sou lançado abruptamente para o universo de um garoto com sua mania de escrever mensagens edificantes e remetê-las em cartões como aquele. Parentes, amigos, tipos assim nem tão chegados recebiam votos de felicidade e prosperidade, menos por um sentimento fraterno do que pela alegria besta de receber cartas de volta.”
(Marcelo Moutinho em Memória dos barcos)

“Sigo pelo pescoço, desço pelos ombros. Quando chego nos seios, faço um círculo em torno de cada um e escrevo: Peito 1 e Peito 2. Antes que perca a idéia, faço a mesma coisa na bunda. Bunda 1 e Bunda 2. Depois, retorno para os braços e, lentamente, vou dando nome a cada músculo. Quando chego ao flexor curto do dedo mindinho do pé esquerdo, a tarde já vai pelo meio.”
(Rosa Amanda Strausz em 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira)

“Ele pularia de pé e faria grandes discursos, balançando os braços e sacudindo o punho enquanto o rosto contorcia-se de emoção e a saliva pingava-lhe da boca. Se o trabalhássemos por um bom tempo, podíamos às vezes fazê-lo rolar no chão. Havia sempre algo a fazer em Salinas. Então um dia ele sumiu e ficamos muito tristes, porque pensamos que tinha ido embora. Mas não. Estava lá dentro, e em cerca de dez dias alguém o encontrou e o legista teve de levá-lo de lá num lençol de borracha e espargir a casa com creosoto.”
(John Steinbeck em A América e os americanos)

“Ódio não é preciso para matar alguém. Apenas esgueirar-me e o reles truque de fazer-me de surda”
(Halina Grynberg em Mameloshn)

“O morro Santa Teresa é um bom lugar para ver o sol morrer no Guaíba. A cidade, metálica e contra o rio que só se vê do alto, é cristalizada sob uma camada de sons abafados, um murmúrio espesso, severa respiração de máquina deitada. Depois, reflexos mais amarelos, como bruscas pinceladas. E de repente, como se os olhos queimassem, o que se vê é uma invenção: o céu tingido de vermelho, o próprio ar adquire uma atmosfera de sonho. A imagem nunca é real.”
(Amilcar Bettega Barbosa em Os lados do círculo)

“O cabelo preto e crespo estava comprido de novo – ela o havia cortado pela última vez há exatos seis meses e oito dias, conforme seu diário. Os pulsos, tinha acabado de cortar. E, bem ao seu jeito, deve ter pensado: puta merda, não imaginei que sangrasse isso tudo.”
(Marçal Aquino em Famílias terrivelmente felizes)

“Deve ser algum tipo de ilusão: ela repetiu tanto, e repetia sem parar, que depois de duas semanas começou realmente a acreditar que eu estava me tratando dos nervos. Claro, mesmo a convicção dela não foi suficiente para teminar com as repetições, tão freqüentes que às vezes me irritavam. Mas ao menos ela parou de me recomendar um tratamento e resolveu repetir, sem parar, que eu devia cumprir todas as instruções do médico. De tanto ouvir, comecei a segui-las à risca.”
(Ricardo Lísias em Dos nervos)

“Sua conversa era chata, sem interesse. Na sua presença, deixávamos de ser qualquer outra coisa que não fosse nós mesmos. Andando ao seu lado, não voávamos, não corríamos, não subíamos em árvores. As nuvens eram nuvens, as pedras, pedras, as casas, casas, e nós, simples mortais, ficávamos condenados à irrealidade cinzenta do dia-a-dia.”
(Nelson de Oliveira em Pequeno dicionário de percevejos)

“- Você não sabe o que significa para mim encontrar, de repente, uma pessoa com quem sentimos que é possível conversar. Ainda que aconteça, quase sempre, de eu não ter nada a dizer nem muito interesse em ouvir.
- Entendo. É mais difícil dizer alguma coisa quando temos certeza de que podem nos compeender.”
(Juan Carlos Onetti em A vida breve)

“Os mapas – na verdade desenhos e pinturas do próprio Greenaway – são mostrados serialmente ao longo de todo o filme, à medida que vão sendo descritos pela voz em off do narrador-viajante que acaba por fazer de sua própria narração também uma viagem cujo fim se confunde com o início e com lugar nenhum.”
(Maria Esther Maciel em Os infernos de Peter Greenaway)

“De novo, a imagem me vem à mente. Daniel sentado na cadeira, com uma arma apontada para a têmpora, apertando o gatilho. Sacudo a cabeça, tentando afastar esses pensamentos. Não adianta. De repente me sobe uma coisa do estômago e mal tenho tempo de chegar no banheiro para botar para fora o que comi no café da manhã. Vomito até não ter mais o que vomitar. Passo alguns minutos ajolhada no chão diante da privada até me sentir melhor. Depois, levanto e jogo água fria no rosto. Olho minha cara molhada no espelho.
Será que doeu ou você só sentiu o alívio?”
(Anna Luisa Araujo no inédito Fragmentos)

“Enquanto eu estiver na Casa Branca, não haverá relaxamento do esforço nacional para controlar e eliminar a pornografia da vida nacional. A comissão sustenta que a proliferação de livros e peças imundas não representa uma ameaça duradoura e danosa ao caráter do homem. Séculos de civilização e dez minutos de bom senso dizem-nos o contrário (…) Não se deve zombar da moralidade americana.”
(Richard Nixon, citado por Gay Talese em A mulher do próximo)

“Olho para minha cesta de asas de galinha. Parecem muito longe. Não faço idéia de em que cidade estou. Não importa. Não faço idéia de para que cidade vou. Não tenho planos.”
(Sam Shepard em Grande Sonho do Céu)



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.December 23, 2008