ELVIRA VIGNA: NOVIDADES – pedaços de leitura de 2009/10
arquivos internos de ‘novidades’:
pedaços de leitura de 2011/2012 2008 2006/7 2004/5
“Risos. Ingrediente essencial da sobrevivência. E nós ríamos muito.”
(Patti Smith em Só garotos)
“Ce fut une année mauvaise, aux mois longs, aux aurores semées d’incertitudes.”
(Tierno Monénembo em Peuls)
“- Elvira sabe levar a estância.
– Usted a conhece bem?
– Vai pra mais de vinte anos que não nos vemos.
– Conhece, mas não se falam?
– Isso mesmo.”
(Luíz Horácio em Pássaros grandes não cantam)
“Juzgué que mi pensamiento había sido vanidoso e idiota, pero tuve el convencimiento de que había sido asimismo acertado, a veces también se acierta com lo idiota.”
(Javier Marías em Tu rostro mañana – Veneno y sombra y adiós)
“Foi quando alguém chegou perto, com um livrinho de anotações, e Tom não se fez de rogado; disse aquela frase (‘minha especialidade é matar homens, isso pra mim é um negócio, não falta quem queira me pagar e eu livro o mundo do tipo de gente que não deixa saudades’) que é uma das mais francas já pronunciadas por alguém notório, na América.”
(Fernando Monteiro em Armada América)
“Observou, então, que o casamento era uma coisa séria.
– Não – respondi.
Ela se calou durante alguns instantes, olhando-me em silêncio.”
(Albert Camus em O estrangeiro)
“Isso tudo para dizer que o livro
na minha mão, naquele momento,
entre outros escolhidos da cesta do alfarrabista,
era muito velho:
uma antologia de poetas russos
em papel cediço nas bordas do volume
de capa vermelha para poetas
comunistas e não comunistas
entre bandeiras, letras e martelos
e foices sob águias de cabeça dupla:
PÉROLAS DA POESIA RUSSA
na lombada desobtada de imitação dos caracteres
não latinos das línguas eslavas tão longe da praça
de bares anunciando promoção de aperitivos
e cerveja, em papelão garatujado
com pressa antiestética.”
(Fernando Monteiro em Vi uma foto de Anna Akhmátova)
“Aparências enganam. Mais cedo ou mais tarde vocês irão aprender. Nada neste país é o que parece.”
(Edney Silvestre em Se eu fechar os olhos agora)
“Depois, vi uma carrocinha de cachorro-quente do outro lado da calçada. Perguntei se ela estava com fome. Mais uma vez não houve resposta. Disse então para atravessarmos, que eu compraria cachorro-quente e depois voltaríamos para lá. Nos demos as mãos e atravessamos a rua.”
(Livia Garcia-Roza em O sonho de Matilde)
“Quando a gestante ficava mais bonita, diziam, era porque ia dar à luz um menino.”
(Luís Henrique Pellanda em O macaco ornamental)
“Houve um momento em que achara que não conseguiria viver sem café, mas acabou percebendo que era a caneca grande e quente nas mãos que ela na verdade queria, esse auxílio do pensamento ou do que quer que seja a que ela se dedique ao longo da procissão das horas, ou dos dias.”
(Alice Munro em Felicidade demais)
“Olho de novo a lua. Penso nos olhos dos hipopótamos. Vou tentar achar a casa que combina com minha chave. Provavelmente, hoje, eu bebi demais.”
(Lupeu Lacerda em Tempo bom)
“Saiu cedo pela manhã, percorreu a distância entre nossa casa e o portão do porto com a calma e a segurança de sempre, foi desaparecendo entre os caminhões, indo em direção às chaminés dos barcos e suas bandeiras coloridas.”
(Rogério Machado em A noite anterior)
“Eu adoro donas de casa que enlouquecem. Veja Clarice. Veja Diane Arbus. Veja Madonna. Mentira. Madonna fez o caminho inverso.”
(Adelaide Ivánova em A sarna)
“Tereza casou com o amigo do filho
um garoto, João, não amava ninguém”
(Gerusa Leal em Versilêncios)
“Prefiro o dia de hoje ao mesmo dois anos atrás. Prefiro a mim hoje que eu mesma dois anos atrás. O resto é veneno.”
(Thereza Christina Rocque da Motta em Joio e trigo)
“Não sei de onde veio esse emudecimento que fez de mim isso que eu sou, esse ser deslocado, arruinado.”
(Ítalo Ogliari em A volta)
“‘Don’t you agree,’ she asked her fellow panelists, ‘that there’s no real choice? Tony Blair believes in privatization, just like Mrs. Thatcher.’ ‘Not quite,’ replied Charles Moore, editor of the (Conservative) Daily Telegraph. ‘Margaret Thatcher believed in privatization. Tony Blair just likes rich people.’”
(Tony Judt em The gnome in the garden)
“Sabes? Siempre hay razones a posteriori, claro que lo sabes, para cualquier acción, hasta la más gratuita o la más infame, siempre se encuentran, a veces ridículas e inverosímiles, mal fundamentadas y que no engañan a nadie o sólo al que se las inventa.”
(Javier Marías em Tu rostro mañana – Baile y sueño)
“Se alguma tristeza me assaltar, ela virá desvinculada de qualquer incidente ou motivo, virá de súbito e destituída de razão.”
(Yukio Mishima em O pavilhão dourado)
“(…) que não desanimasse não, aos poucos as coisas ajeitavam, se ficasse sabendo de alguma vaga deixava recado pra mim, e insistiu em mostrar um pouquinho daquela parte da cidade, e caminhamos, o vento frio uma gilete, ele apontava um prédio, uma paisagem, um beco, e explicava, mas eu não entendia quase nada (…)
(Luiz Ruffato em Estive em Lisboa e lembrei de você)
“Havia um palco e a orquestra, duas mil pessoas num jardim, o desfile do que a sociedade local tinha a oferecer: blush, sapatos, arranjos de flores, balões na piscina.”
(Michel Laub em Longe da água)
“Foi só quando eu lhe perguntei:
– Vovó, a senhora vai morrer?
que ela se calou.”
(Ana Cristina Melo em Caixa de desejos)
“Intentamos que las cosas sean distintas de lo que son y nos guste quien nos gusta poco desde el princípio, y en poder fiarnos de quien nos inspira desconfianza aguda, es como si a menudo fuéramos en contra de nuestro conocimiento, porque así lo sentimos muchas veces, como conocimiento más que como intuición o impresión o corazonada, nada tiene que ver todo esto com las premoniciones, no hay nada sobrenatural ni misterioso en ello, lo misterioso es que no atendamos.”
(Javier Marías em Tu rostro mañana – Fiebre y lanza)
“(…) tentando recordar uma oração que não vinha, o meu avô expulsou o padre
– Ninguém precisa de você nesta herdade e o que Deus fez até hoje faço eu daqui em diante que estou cá neste mundo e sou mais novo (…)
(António Lobo Antunes em O arquipélago da insónia)
“Et tout de même, c’est assez injuste, parce qu’elle n’a pas de métier, maman, elle est uniquement la femme de papa, et donc, cocue, c’est sa seule spécialite, dans la vie. Sa seule qualité, si on veut.”
(Pierre Charras em Dix-neuf secondes)
“Como quando criança, quando eu tinha medo do escuro e acendia a luz, eu tinha medo dos fantasmas que moravam embaixo da cama. Karen também tinha, falávamos com frequência sobre isso, ela me disse, um dia olhei, me pendurei de cabeça para baixo e olhei, para ver se havia mesmo os tais fantasmas, e você descobriu que não havia nada, eu completei, ela sorriu e disse, não, eu descobri que era verdade, que os fantasmas estavam lá.”
(Carola Saavedra em Paisagem com dromedário)
“De même, il existait une autre classe: mystérieuse, incompréhensible et imprévisible – extrêmement dangereuse de ce fait: les femmes.”
(Antoine Chainas em Versus)
“(…)
não será difícil saber que
para onde vai o nome
nós não vamos.”
(Marcelo Ariel em Conversas com Emily Dickinson)
“A errância e o nomadismo, o gosto pelo comércio e as viagens alimentam o nosso imaginário, o sentimento de que pertencemos a todos os recantos e a nenhum.”
(Ronaldo Correia de Brito em Galiléia)
“Mamãe, papai acabará matando você.”
(Junichiro Tanizaki em A chave)
“Fiquei grávida nessa época em coisa de programa, mas não tenho certeza de quem é o pai. Vários moleques com quem fiquei falam que são o pai do meu filho. Alisson nem se parece com ele. É loirinho, bem branquinho e tem o olho claro. Mas, como ele é o melhor pai, o que tem mais condições, então ele é o pai.”
(Eliane Trindade em As meninas da esquina)
“Tudo indica que foi nesse período que o André chegou a uma de suas máximas supremas, qual seja, a de que os séculos não se sucedem, simplesmente se acomodam uns ao lado dos outros.”
(Nelson de Oliveira em O oitavo dia da semana)
“Baixei a cabeça, sentidíssima, afinal, nessa idade qualquer palavra ou gesto de rejeição e pronto, o olho já fica aguado.”
(Lygia Fagundes Telles em Conspiração de nuvens)
“Tinha oito romances nas costas, dos quais pelo menos cinco eram bastante dignos e dois, isso era (quase) consenso, autênticos clássicos contemporâneos. O que fazia dele, por qualquer critério crítico que se empregasse, um dos cachorros grandes. Despejou sobre a pequena multidão um discurso desinspirado, soltou dois palavrões, arrancou risadas, agradeceu e foi se refugiar num canto do sofá, só ele e seu copo de uísque.”
(Sérgio Rodrigues em Sobrescritos)
“Afinal, o que teria significado ir para a cama com ela, exceto uma fugaz massagem no ego, classificada no cômputo do sucesso do fim de semana apenas um degrau acima da qualidade da comida e do vinho, e da sagacidade das conversas após o jantar?”
(P.D. James em O crânio sob a pele)
“Homens ocos, empalhados. Um elmo cheio de nada, como dizia o poema de T.S. Eliot.”
(Felipe Pena em O marido perfeito mora ao lado)
“Ao contrário do Van Gogh, tia Lídia já vendeu vários quadros e diz que, sempre que vende um quadro, é uma vitória e uma tristeza, mas acho que ela deveria se concentrar na vitória e esquecer a tristeza, porque triste deve ser vender só um quadro na sua vida inteira e não poder pagar nem uma pensão barata em Arles.”
(Márcio El-Jaick em No presente)
“(…) quer dizer, será que nunca ninguém comeu ela direito, ou pior, será que estaria procurando alguma coisa que relações casuais, mesmo com sexo maravilhoso, nunca poderiam lhe dar?”
(Alex Castro em Mulher de um homem só)
“Le sexuel ne conjoint pas, il sépare. Que vous soyez nu(e), collé(e) à l’autre, est une image, une représentation imaginaire. Le réel, c’est que la jouissance vous emporte loin, très loin de l’autre. Le réel est narcissique, le lien est imaginaire. (…) S’il n’y a pas de rapport sexuel dans la sexualité, l’amour est ce qui vient suppléer au manque de rapport sexuel. Lacan ne dit pas du tout que l’amour, c’est le déguisement du rapport sexuel, il dit qu’il n’y a pas de rapport sexuel, que l’amour est ce qui vient à la place de ce non-rapport. C’est beaucoup plus intéressant.”
(Alain Badiou em Éloge de l’amour)
“Quem reside no senso-comum não precisa e nem faria minhas descrições. Minhas descrições são de alguém que não pertence e nem mora na representação partilhada, mas no assombro da aparição.”
(Juliano Garcia Pessanha em Instabilidade perpétua)
“Quando o que você faz não se coaduna com quem você pensa que é, com certeza deve haver algo errado (e provavelmente otimista) a respeito de quem você pensa ser.”
(Lionel Shriver em O mundo pós-aniversário)
“Não como direito, não durmo bem, bebo, fumo. Gosto de ser assim.”
(Arlindo Gonçalvez em Desonrados e outros contos)
“Em volta estavam construindo as mansões das famílias que tinham despovoado os canaviais e enriqueciam especulando no mercado financeiro. Todas copiavam a geometria de Vesalhes, com telhados de ardósia em pronunciado declive, para facilitar a queda da neve. Embora a temperatura raramente ficasse abaixo dos trinta e cinco graus, ninguém perdia a esperança de que um dia nevasse.”
(Tomás Eloy Martínez em A mão do amo)
“Mas no momento em que tentavam expressar sentimentos pessoais, o que vinha era sempre alguma coisa desajeitada, seca, até mesmo medrosa, fruto de gerações e gerações de repressão e negação.”
(Amós Oz em De amor e trevas)
“A menos que sua mulher esteja fumando crack ou cheirando cocaína, transando com mocinhas ou com animais da fazenda, tudo o que você possuir será dividido metade, métade.”
(Amy Bloom na Granta # 5)
“Não havia relógios derretendo ou nenhuma outra cena de um quadro surrealista.”
(Fernando Torres em Estudos sobre a leveza)
“Quando um deles morreu, os parentes disseram que tinha se matado de trabalhar. Um ano depois, quando morreu o outro, disseram que se matara de ler.”
(Thomas Bernhard em O imitador de vozes)
“Ah, meu amor. Eu tomo pílula. A Phyllis não toma? É por isso que vocês dois têm um filho depois do outro.”
(John Updike em Cidadezinhas)
“- Te ruego que no le cuentes a mi papa, ya? – dijo, amarrándose los pasadores -. Por favor, no se lo digas a nadie, Flora.
– Tranquilo, papito – dijo ella, mientras terminaba de vestirse -. Yo soy una profesional.”
(Jaime Bayly em No se lo digas a nadie)
“Continuei provando roupas, esperando ficar bela ao ponto de finalmente existir.”
(Herta Müller em O compromisso)
“Sabe de uma coisa, Big D? Um cara pode justificar quase qualquer coisa para si mesmo… e é isso o que realmente importa, não é? Acho que em sua própria mente, ninguém tem consciência de praticar o mal.”
(Edward Bunker em Cão come cão)
“Daqui a pouco vamos nos servir um do outro com a volúpia e a certeza de que, quando for apresentada a conta, será um preço muito alto para apenas duas pessoas pagarem.”
(Wander Piroli em Minha bela putana)
“I think that fundamentally he was jealous of her: not of any phantom lovers – for she never had any – but jealous of her, of her half-English crazy optimism and her manias for salad-making and endless walks. And I think that Jane was afraid for Cleveland, afraid of the inevitable day when he really would ruin everything.”
(Michael Chabon em The mysteries of Pittsburgh)
“- Você já viu o olho de Deus no fundo da privada? O sangue virando água e a água virando sangue?! Já viu? Já? Hein?
– Já! Eu já vi! Todo mundo viu, só que ninguém conta…”
(Consuelo de Castro em Only you)
“Em Madalena, demos uma volta exaustiva no povoado, procurando encontrar algum atrativo ou algum bar onde pudéssemos ficar, mas estava tudo fechado, nem sequer um bar aberto, nem sequer outras pessoas além dos dois taxistas, de modo que voltamos à praça da prefeitura e examinamos de novo os dois homens, parecia que estávamos num bordel e tínhamos de escolher entre uma puta ou outra.”
(Enrique Vila-Matas em O mal de Montano).
“No cerco ordinário,
Na contramão do hospício,
Arthur Bispo do Rosário.”
(Wandi Doratiotto em Haicais)
“O que Ulisses salva do lótus, das drogas de Circe, do canto das sereias, não é apenas o passado e o futuro. A memória conta realmente – para os indivíduos, as coletividades, as civilizações – mas só se mantiver juntos a marca do passado e o projeto do futuro, só se permitir fazer sem esquecer aquilo que se pretendia fazer, tornar-se sem deixar de ser, ser sem deixar de tornar-se.”
(Italo Calvino em As odisseias da Odisseia)
“Mulheres passando frente às portas com lingerie preta. Foi servido um almoço tipo comercial, destes de baixo preço. César não entendeu a razão daquele almoço e pensou que fazia parte da conta. O preço do almoço estava incluído no preço da prostituta.”
(José Agrippino de Paulo em Lugar público)
“Zimbalist’s livelihood, his honor, perhaps even his life, demanded that the secret of his adultery be kept. He was absolutely certain that so far it had been.”
(Michael Chabon em The yiddish policemen’s union)
“O homem ficou observando ela serpentear entre as mesas. Ao chegar à porta do bar, deteve-se, voltou-se para ele e sorriu como se lhe concedesse uma chance a mais.
Ele pensou: “O que é uma família comparada a isto?”. E foi atrás dela.
(Fernando Mantelli em Raiva nos raios de sol)
“Sabe?, estou de saco cheio de tudo isso, agora eu quero viver algo que seja de verdade, algo que seja grande, inesquecível, não mais essa vida mais ou menos.”
(Carola Saavedra em Toda terça)
“- Porque eu, meu querido amigo Brandy, tenho uma grande reserva natural de riso, e rio sempre a todas as horas e, quanto mais desgraçado sou, mais rio.
E riu. Se já não tivesse morrido, teria morrido ali mesmo de tanto rir.”
(Enrique Vila-Matas em Suicídios exemplares)
“- Vous voulez bien monter dans ma chambre?
Je ne sais pas pourquoi je suis montée.”
(Patrick Modiano em Des inconnues)
“- Não, Klaus.
– Não o quê, querida?
– A gente não pode continuar com isso. A distância entre a gente nunca foi pequena e você sabe disso – continuou, como se aquela fosse a continuação de uma conversa antiga.”
(Manoela Sawitzki em Suíte Dama da Noite)
“gosto
desse sexo literário
desse território suspenso
estreito e religioso
que cabe nalgumas mentes
desatinadas”
(Dora Ribeiro em A teoria do jardim)
“Muitas vezes ele ficava parado, encostado na parede de uma casa ou encolhido num canto escuro, com os olhos cerrados, a boca semi-aberta e as narinas infladas, quieto como um peixe em caça em águas profundas, escuras, a correr lentamente.”
(Patrick Süskind em O perfume)
“Dessa noite não lembro muito mais que isso; a não ser da volta pra casa, eu sozinho no táxi, lá pelas dez da manhã. O céu nublado descansava as pálpebras, e o frio era perfeito pra fumar com a cabeça jogada pra trás e o corpo esparramado no banco. O taxista dizia alguma coisa como ‘é bom saber que alguém ainda se diverte’, e você sentia que finalmente tinha se despedido, boa viagem, da Sandra e da Marta.”
(Fabrício Corsaletti em Golpe de ar)
“Vejo aquelas coxas de novo, saindo do banheiro, uma quarentona gostosa, e fico pensando se Marcos ainda há pouco se lembrava das nossas noites insanas em bares de mulheres divorciadas, naquela época em que havíamos cansado dos problemas que toda e qualquer garota de vinte e poucos antos trazia. Não duraram mais do que cinco ou seis noites, de qualquer maneira, as nossas incursões aos inferninhos que ofereciam uma nova chance às mulheres deseperadas, elas e suas roupas novas com as quais haviam passado um bom par de horas na frente do espelho antes de sair, decidindo se estavam ou não ridículas demais. E a verdade é que chegavam ainda sem ter bem certeza, dando puxões para esconder algum pedaço de pele, com medo de não conhecer as músicas, de ficar tontas logo no primeiro copo, de sentir saudades da vida que tinham, de voltar para casa sem esperança alguma. Enquanto isso, nós estávamos lá, eu e Marcos, no meio da transformação radical de suas vidas, rindo e ensinando os nossos passos de dança.
Mas acontece que não era tão divertido quanto parecia. Elas passavam bons momentos com a gente, é verdade, estavam reaprendendo a se divertir, liberavam a alegria contida por décadas dentro de seus casamentos em frangalhos, mas, mesmo assim, havia sempre algo triste que emanava das conversas, dos olhares, e isso acabava com as minhas noites.”
(Carol Bensimon em Sinuca embaixo d’água)
“Vinha de short, peito nu, o tom azeitonado de um oriente impreciso. Parecia ele próprio um lagarto, um crustáceo, qualquer desses animais sem carne e sem pelos, que a gente parte com os dentes tentando sugar algum caldo.”
(Santiago Nazarian em O prédio, o tédio e o menino cego)
“O elemento biográfico (a mãe costureira) entra em meus livros como móvel de um mundo perdido. Mas acaba sempre lido literalmente, o que faz com que minha literatura seja mais autobiográfica do que ela quis ser.”
(Miguel Sanches Neto na Granta/4)
“A paixão pela torcida organizada de um time de futebol, ah bom! Em nome disso, sim, se mata, se esfola, se morre todo domingo e às vezes até no meio da semana. Mas ideologia, convicção política, visão de mundo? Bah.”
(Sérgio Rodrigues em Elza, a garota)
“Diga, como é que você pôde dormir com aquele horror?”
Ele declarou só conhecê-la de vista e negou energicamente ter tido um caso com ela.
(Milan Kundera em O livro do riso e do esquecimento)
“Queriamos hacer música y montamos 7 Torpes Band (éramos tres). Compuse canciones y grabamos un casete de garaje com el título Canciones mediocres. Vendimos nueve casetes y decidimos grabar el segundo. Se llamaba Canciones aún más mediocres. Vendimos ocho casetes y eso fue todo.”
(Efraim Medina Reyes em Pensé que sólo los peces la movían de esa forma)
“Aquela gravura com um envelhecido estilo impressionista, exibindo o carrossel iluminado à noite num parque de Paris, a cidade mais óbvia de todas, vendo-se ao fundo prédios com a arquitetura típica parisiense e, mais distante, a Torre Eiffel – ela disse.”
(Sérgio Sant’Anna em Entre as linhas)
“E aquela primeira vez já trazia o cerne do que seríamos nós durante todos os outros dias, todas as outras noites. A tua raiva e a tua suavidade, mas raiva de quê? Eu me perguntava, raiva de mim?”
(Carola Saavedra em Flores azuis)
“Lisa o procurara naquele ano difícil e ele a repelira, apenas para que ela o amasse apesar de tudo, como uma criança.”
(Bernhard Schlink em O outro)
“Era ancho, calvo, los ojos soñolientos y algo crueles, com una pinta de brontosauro joven.”
(Alonso Cueto em La hora azul)
“Auto-estima baixa devido à falta de socialização causada pelo instrospectivo mundo dos quadrinhos me fez ter meus primeiros amassos aos 16, enquanto meus amigos já contavam vantagem aos 13.”
(Estevão Ribeiro em Enquanto ele estava morto)
“(…) et le contraire du manque de courage n’est pas la lâcheté mais le découragement, du moins en langue française.”
(Grégoire Bouillier em L’invité mystère)
“Comme j’ai déjà eu l’occasion de le signaler, l’ordre du fantasme et celui du vécu, s’ils présentent des structures voisines, n’en sont pas moins, chez moi, indépendants l’un de l’autre, comme une peinture de paysage et le coin de nature qu’elle représente.”
(Catherine Millet em La vie sexuelle de Catherine M.)
“C’est ainsi que je sus très tôt que le vraisemblable ne se confond pas avec la vérité, ni le réel avec sa représentation.”
(Grégoire Bouillier em Rapport sur moi)
“Il y eut autrefois des épisodes, la pudeur m’empêche de les raconter, en faire une histoire équivaudrait à les exagérer.”
(Sophie Calle em Douleur exquise)
“Grábese en la cabeza una cosa: en este país no hay terrorismo, por orden superior. Está claro?”
(Santiago Roncagliolo em Abril rojo)
“Deitou ela de costas, abriu suas pernas, caiu por cima e fodeu até gozar. Depois, foi embora sem tomar banho, sumiu, nunca mais mandou notícia.”
(José Valdemar de Oliveira em Vapor barato)
“Até os comerciais, com sua surrealista cotidianidade, estão começando a parecer sinistros, a sugerir outros significados atrás deles mesmos, por trás da fachada de limpeza, sabor, saúde, força e velocidade.”
(Margaret Atwood em A idade de chumbo)
“Ainda assim, por longo tempo lhe sobrou alguma dúvida a respeito de tudo aquilo, pois os que sofrem a ação da mentira, tanto quanto os que as inventam, mentem também para si mesmos e defendem-se dos efeitos devastadores da verdade inoculando em si próprios, regularmente, pequenas doses de ilusão.”
(Zulmira Ribeiro Tavares em Jóias de família)
“Vertió un poco de whiskey en el café. Bebió de um trago la mezcla. Trató de poner los pies sobre la mesa, pero su oficina era demasiado pequeña. No permitía estirar las piernas. Pidió otro café. Miró el reloj de la pared. 10.35.
Tenía todo el día por delante.”
(Santiago Roncagliolo em Pudor)
“Quando o motor dos aviões pára de funcionar não é o fim do vôo. Os aviões não caem como pedras do céu. Eles continuam planando; os enormes aviões de passageiros com várias turbinas planam de 30 a 45 minutos, para então se espatifarem ao tentar pousar. Os passageiros não notam nada. Voar com motores parados não dá uma sensação diferente da de voar com eles funcionando. É mais silencioso, mas só um pouquinho.”
(Bernhard Schlink em O leitor)
“Ele é daquele tipo de gente que, se de óculos escuros, depois de retirá-los nada se esclarece.”
(Walther Moreira Santos em O ciclista)
“Parei. Respirei. Então fui buscar lá no fundo e vim puxando lentamente, perversamente, abrindo um sorriso cujo significado ele não atinaria nem em dois mil anos porque os homens não aprendem mesmo.”
(Márcia Denser em Toda prosa II)
“Eu sozinha nesse bar, um pires de azeitona à minha frente uma cerveja quente pela metade. Largada nesse canto da vida é difícil acreditar que o Rodrigo Santoro vai passar por aqui e se apaixonar por mim. Mas vai.”
(Ivana Arruda Leite em Ao homem que não me quis)
“Chiquinho era um bocado que ela comia achando bom, cada vez melhor, fartava sem enjoar.”
(Ronaldo Correia de Brito em Livro dos homens)
“- Não faço teias por instinto.
– Então, faz porquê?
– Faço por arte.”
(Mia Couto em O fio das missangas)
“Sou um simples narrador encarregado dessas linhas, não sou dotado de ciência inaudita reveladora, para mim, o significado da coisas é o próprio significado das coisas, e pronto.”
(Paulo Roberto Luz Conceição Teles da Rocha em Um homem comendo maçã)
“Aciona a câmera, prepara a lente, o zoom, o roteiro, pergunta algo sem nexo para o entrevistado, mas baianos gostam de coisas sem nexo.”
(Paulo Roberto Luz Conceição Teles da Rocha em Doce de dendê doidinho)
“Peut-être mourait-elle de honte, d’angoisse, de remords, de fatigue – mais elle ne mourrait par d’ennui.”
(François Mauriac em Thérèse Desqueyroux)
“Isaïe considérait fixement le couteau, la pomme de terre, et se laissait envahir par la certitude d ‘une catastrophe sans remède.”
(Henri Troyat em La neige en deuil)
“La desnudez de las paredes era una convocatoria impostergable a llenarlas con pinturas de calendario, com preponderancia de naturalezas muertas, cuadro tras cuadro, no sólo vecinos sino incestuosos, como si dejar un centímetro de muro vacío fuera prueba de tacañería inhóspita o rechazo grosero de una invitación.”
(Carlos Fuentes em La voluntad y la fortuna)
“E terceiro: é mentira porque se eu falasse a verdade, eu não poderia contar.”
(Beatriz Bracher em Meu amor)
“Escrevo como o louco que não pode parar de cantarolar sua ladainha sem sentido, nem que seja para não ouvir o ruído do mundo, falar só, mais alto que o ruído do mundo.”
(Bernardo Carvalho em O filho da mãe)
“Na véspera daquele natal, Hindié apareceu em casa com um garrafão de cachaça e ela mesma embebedou os doze frangos e quatro perus, enrolou um fio de tucum no pescoço de cada ave e convocou a vizinhança para assistir ao holocausto.”
(Milton Hatoum em Relato de um certo Oriente)
“Se você soubesse o que é acordar com vontade de urinar a meio da noite numa noite sem lua, vir cá fora mijar e nada existir em torno, nenhuma luz, nenhuma caserna, nenhum vulto, só o ruído do seu chichi invisível e as estrelas congeladas na meia laranja do céu, afastadas demais, pequenas demais, inacessíveis demais, prestes a desaparecer porque a manhã surge de repente e é dia adulto, acordar a meio da noite e sentir na quietude e no silêncio, percebe?, o sono inumerável de África, e nós ali de pernas afastadas, em camisa e cuecas, minúsculos, vulneráveis, ridículos, estranhos, sem passado nem futuro, a flutuar na estreiteza assustada do presente, coçando a flor-do-congo dos testículos.”
(António Lobo Antunes em Os cus de Judas)
“Ou bien même un de ces aquariums, derrière la vitrine d’un grand restaurant, où les gourmets sérieux viennent se faire crocher, à coups d’épuisette, la carpe grasse qui laissera son trou d’eau, entre la lampe témoin, l’insufflateur d’oxygène et les fausses algues, abandonnant sa cloison d’émeraude pour un monde de torture, de beurre, de persil dans les yeux & de tomate dans la bouche.”
(J.M.G. Le Clézio em Le procès-verbal)
“Elle lui dit qu’elle a tout vu à Hiroshima. On voit ce qu’elle a vu. C’est horrible. Cependant que sa voix à lui, négatrice, taxera les images de mensongères et qu’il répétera, impersonnel, insupportable, qu’elle n’a rien vu à Hiroshima.”
(Marguerite Duras em Hiroshima mon amour)
“Essas voltas para casa. Essas voltas depois do confronto com a catástrofe.”
(Nadine Gordimer em A arma da casa)
“Então, quando ela se aproximou do balcão, o nariz comprido, a pele morena, os cabelos negros e as ancas ideais para a dança do ventre, e estendeu os braços peludos, sorrindo, eu me afastei com os olhos cheios de poeira, o silêncio esmagado entre os dentes, de volta à imensidão de minhas perdas.”
(João Carrascoza em Dias raros)
“De vez em quando a tensão precisa de uma via de escape que não seja um ataque de gastrite.”
(Eric Novello em Paradigma 1)
“Disse que havia um tipo de mulher, e até uma mulher determinada e única, para o animal que há no centro de cada homem; e acrescentou algo no sentido de que era um infortúnio encontrá-la, porque o homem sente o quanto ela é decisiva para seu destino e a trata com temor e torpeza.”
(Bioy Casares em Histórias fantásticas)
“Me interessa saber que ser humano se esconde atrás de toda esta fachada. Não pode não haver nada.”
(Vera Albers em Surtos urbanos)
“Para parar de se desestruturar, é preciso parar de se mexer. Ou você se mexe e não está mais inteiro, ou você está inteiro e não pode se mexer.”
(Muriel Barbery em A elegância do ouriço)
“Havia vida em tudo, nos cochichos trocados pelas cortesãs de meias-calças rendadas acerca da beleza e virilidade do novo xerife, na fumaça dançarina dos charutos e cigarros, na música acelerada dos violões, no jogo de pôquer entre quatro bêbados, nas corridas dos ratos de uma toca à outra.”
(Antônio Xerxenesky em Areia nos dentes)
“Júnior é um menino e vê a mãe contemplando os tufos de cabelos que tem nas mãos.
– A senhora não vai fazer o almoço?
– Cala a boca, moleque! Não vê que estou arrancando os cabelos?”
(Lourenço Mutarelli em A arte de produzir efeito sem causa)
“Disse que havia cometido o maior erro de sua vida, que me queria de volta, que me amaria para sempre e que jamais me magoaria de novo.”
(Nora Ephronn em O amor é fogo)
“Então, de repente, o tempo, esse elemento indefinível torna-se escasso, e um feixe de horas fugiu, não sei para onde!”
(William Golding em Ritos de passagem)
“Comentou que, na sua visão, os brasileiros tinham algo que ela chamava de ansiedade do descobrimento, uma espécie de euforia ingênua presente em quase todos os aspectos sociais e culturais, uma felicidade em ser descoberto, visto e valorizado pelos estrangeiros.”
(Samir Machado de Machado em O professor de botânica)
“A garagem não estava trancada. Abriram e sentiram o cheiro de concreto úmido, e Alice chorava.
Quanto tempo num quartinho em Paris para esquecer?”
(Carol Bensimon em Pó de parede)
“Dentro do carro, passei alguns minutos em silêncio tentando entender se minha vontade de convidar Martín para subir comigo no quarto do hotel era absurda, patética, inoportuna, apressada, equivocada, insana, ridícula, vulgar ou aviltante.”
(Daniel Galera em Cordilheira)
.29 de December de 2009