ELVIRA VIGNA – ARTIGOS: 2010

07 – 05/02/10
CHICO SCIENCE (publicado pelo Aguarrás sob o título de “Chico Science”)
Você pode gostar ou não do Chico Science. Mas tem de saber que ele coloca uma pergunta interessante: quem é o fracote? Ao juntar maracatu e rock (e ciranda e coco e funk e hip-hop), ele não teve medo.
O medo, por exemplo, de Ariano Suassuna, seu conterrâneo, para quem Chico deveria se chamar Ciência, e desistir de vez de chegar perto do grande horror, o diabo em pessoa, a influência estrangeira.
Não foi o que Chico fez. Fez o contrário. O grande horror, o diabo em pessoa, parece dizer ele, é o tambor do maracatu – e o ritmo estrangeiro que se proteja dessa influência desagregadora, capaz mesmo de modificá-lo irremediavelmente. Modificar o rock, o hip hop. Não o contrário. Ou pelo menos, está bem, em partes iguais, ambos se modificando mutuamente e sem parar.
Parar. A ocupação Chico Science do Itaú Cultural acertou ao pôr o velho Ford do artista na abertura. E fazer desse veículo o suporte para a principal atração, um documentário com depoimentos e shows de Chico Science e das bandas a quem influenciou. É isso mesmo. A ideia é que o hibridismo não para.
Pois se não tem começo, como haverá de ter fim.
Maracatu, por exemplo, são dois. Um é o de nação, outro é o rural. O primeiro vem da mistura de várias tradições afro-brasileiras (pois é, meu branquelo leitor, a África não é uma coisa só) misturadas com o portuga arabizado que aportou por aqui. O segundo tem tudo isso e mais uns chocalhos bem indígenas.
Quer dizer, esquece começo.
Ah, e tem mais, alguns instrumentos, como a alfaia, trazem um caráter nitidamente religioso (não me pergunte qual religião porque aí complica ainda mais). O instrumento precisa passar por um ritual de sagração antes de ser usado, e alguns toques só podem ser dados por quem de direito.
E agora vamos às músicas. Umas são muito claras: falam do híbrido, do mestiço. Outras, as melhores, são isso, em vez de falar disso. Por exemplo:
Peguei o balaio, fui na feira roubar tomate e cebola.
Ia passando uma véia e pegou minha cenoura.
Ai minha véia, deixa a cenoura aqui.
Nada mais caipiramente maroto. Só que acompanhado de guitarra elétrica. E com aquela gravação distorcida, típica do reggae jamaicano. Fica uma coisa assim meio de hoje e daqui, com vários ontens, todos aparentes. O início do grupo Nação Zumbi foi um encontro com o Lamento Negro, uns músicos de comunidade carente da periferia de Recife. Esse foi o principal “ontem”. E não sumiu.
Na época (anos 1990) falou-se também em herança Tropicalista. Mas o Tropicalismo tinha uma aderência à indústria de massa e o Mangue aderia às pernas das pessoas. Usava a indústria e seus canais de divulgação, mas sempre com um “não” embutido. Por exemplo, não era bonitinho. Mas o Tropicalismo também está lá.
Híbrido, segundo Herom Vargas, doutor em semiótica da PUC-SP e autor de tese sobre Chico Science, é o que vai incorporando o que pinta sem anular os estágios anteriores. Não para para fazer síntese. Segue em frente.

06 – 26/01/10
KINOLOUNGE (publicado pelo Aguarrás sob o título de “Kinolounge”)
O vídeo A beleza por trás da inconsequência de um motorista bêbado poderia se chamar A beleza por trás da inconsequência de um videomaker bêbado – e isso é um elogio. O vídeo é o primeiro do ano do projeto Kinolounge do laboratório-residência do MIS-SP.
Seus autores são Felipe Sztutman e Rodrigo Bellotto, Guilherme Lunhani e Gian Spina. Os dois primeiros eram vjs, o terceiro músico, o quarto fotógrafo. Viraram todos multimidia.
Apresentações feitas, à obra.
O tom é de jornalismo, de alguém que quisesse documentar aspectos da vida noturna de São Paulo. Citações visuais de âncoras de TV, narração em off no som direto, aproximação em perspectiva aérea até a área de foco. Que é o trânsito de madrugada na 13 de Maio, na 23 de Maio. Os motoristas bêbados em ziguezague na pista, seus quase acidentes ao vivo na tela. E tem também, no contraponto “humano” consagrado pelas redes de TV, a intimidade dos personagens, seus torpedos que dizem: “oi, gatinhu, vamu enche a cara juntos.” E mais pole dance, sarjetas, copos já vazios em mesas de bares lotados. Tudo meio pobre, sujo. A beleza, em um primeiro momento, estando apenas nos brilhos coloridos e fugazes de um néon, de um batom já borrado no close idem.
E aí vem o que eu gostei, e que é a posição de quem filma em relação a quem está sendo filmado.
Vídeo é perigoso. É uma mídia que requer tecnologia para sua produção, mas não para sua recepção. Isso quer dizer que presta-se à manipulação e perenização de práticas sociais conservadoras. Seus produtores sabem e podem, o público a quem eles se dirigem, não.
Em alguns momentos, os produtores do vídeo resvalam para essa reificação de seu público. Um estádio de futebol que não deveria estar ali. Uma trilha sonora que inclui forró e um Roberto Carlos que se mantem, mesmo não mais apoiado pelo kareokê documentado. Fogos de artifício. E mais a repetição ad nauseum da derrapagem de um carro que está sendo seguido – na expectativa de que aconteça exatamente isso – pelo veículo da câmera.
Mas a câmera se redime na baixa qualidade das imagens filmadas, no sintetizador com seus brilhos vazios, no mixing de segmentos tão próximos que quase dá para sentir o cheiro.
Podia ser uma alegoria. O centro de poder (a câmera) impondo a um público desarmado a imagem da periferia desse poder. Ou seja, sua própria imagem (a desse público). E que é uma imagem que esse público assumirá como sendo verdadeira, a “sua” imagem, sem notar que está sendo produzida com um intuito. E sem notar que não é “sua”, já que produzida em condições das quais ele, o público, não compartilha. Um processo que conhecemos tão bem e não só quando o assunto é vídeo.
Mas aqui, a beleza é que, além do motorista, os videomakers também estão bêbados. Tanto quanto o motorista filmado derrapando na pista na grande avenida paulistana, os produtores desse vídeo também se exibem derrapando em alta velocidade. Ao não assumir uma rigidez positivista na construção de seu assunto, os produtores mudam de assunto. Não se trata mais do “povo” que “bebe” e “faz besteira”. Trata-se do questionamento do poder. Esteja ele oculto por trás de câmeras ou palácios. O vídeo beira um questionamento bem abrangente das estruturas sociais que produzem aquilo que se vê mas também aqueles que mostram (definem) aquilo que se vê. Ao se por ao mesmo tempo atrás e na frente da câmera, os produtores nos fazem, a nós também, objetos e sujeitos da representação. Dividimos todos a responsabilidade. E morremos todos juntos, na cena final, a da luz branca, hospitalar, que toma toda a tela.
Bem bom.

05 – 24/01/10
CIDADES IMAGINADAS (publicado pelo Aguarrás sob o título de “Cidades imaginadas”)
Quando pela primeira vez em um ambiente, você pode fazer duas coisas: procurar pelo igual ou pelo diferente. Se você procurar pelo igual estará na típica posição do colonizado: rauduiudú soa tupi guarani. Se insistir na diferença, você é pós-colonizado: rauduiudú é o cacete.
Se você não fizer nem uma coisa nem outra, mas procurar por um diferente quase igual, ou por um igual com apenas um look diferente, você é um colonizador nato. O ambiente novo é – ou pode se tornar – uma extensão tua, embora com detalhes típicos bem vendáveis.
E quando você sequer percebe que está em um novo ambiente, parabéns, você é morador de uma grande cidade. Deve ser uma questão de defesa contra mudanças excessivas, sei lá. Afinal, cidades se autocolonizam sem parar.
Hélcio Magalhães, Jonathas de Andrade e Waldo Bravo – os artistas da mostra Cidades imaginadas, no MAC – também não sabem. E nem se importam. O que eles falam é de uma recepção perdida.
Recepção. Não produção. A mostra é de vídeos, fotos. Seria um jornalismo. Mas as cidades não são documentadas, são imaginadas. Não se trata de demonstrar as tensões do objeto escolhido – pedaços de São Paulo ou Recife – mas suas potenciais extensões. Suas possibilidades de ampliar-se até atingir quem por esse objeto passa.
Dá um pouco de vergonha. É como um puxão de orelhas.
Jonathas de Andrade põe uma ficha escolar embaixo de seus pequenos detalhes fotografados. As perguntas são nível primeiro grau: “Assinale a resposta certa – os usos e costumes são iguais no mundo inteiro?”
Dããã.
Hélcio Magalhães traz dois painéis fotográficos. Em um, uma colagem de arte de rua. No outro, de pessoas e ruas reais de São Paulo. Sempre lembrando: o grafitti do primeiro é a representação, a pintura, da vida urbana que está fotografada no segundo. Em ambos, as imagens vem cortadas em tiras e estão montadas de forma não sequencial. Elas foram obtidas durante um tempo longo, de 2003 a 2009. A montagem em tiras retira o sentido de documentação histórica que, no entanto, é reforçada pela legenda. É como dizer: as imagens estiveram disponíveis aí na rua por um tempo muito longo, mas isso não aconteceu no passado. Ainda é assim nesse momento.
Porque a questão, nesses dois painéis postos lado a lado, é a seguinte. O grafitti – que é, repetindo, ficcional, representação, pintura – parece muito mais familiar que as fotos das pessoas e ruas. Os grafitti você conseguiu ver, e reconhecer. As caras e as ruas, não. É brabo. Isso quer dizer que você prefere estar no mundo mitigando seu contato com o diferente através do discurso romântico e individualizado da imaginação. Uma vergonha, de fato.
O terceiro artista, Waldo Bravo (foto), é ainda mais contundente. Ele trouxe dois conjuntos para a mostra. Em um, imagens deformadas digitalmente ao ponto da não-compreensão se tornam perfeitamente percebidas quando vistas através de um pequeno espelho colocado embaixo ou em cima dos painéis. Um olhar pan-óptico que só se torna possível através da mediação de uma telinha espelhada.
O outro conjunto, Recortes urbanos, é composto de painéis fotográficos e um vídeo. Levei muito tempo para entender a relação entre uns e outro e não sei se estou certa. Me parece que foram feitos em momentos diferentes, embora sejam uma documentação das mesmas intervenções urbanas. A ideia das intervenções é muito simples, e talvez por isso mesmo, muito eficaz. Em ruas movimentadas de São Paulo, o artista primeiro fotografou ou filmou o que, depois, ficaria por trás de outdoors publicitários. Aí, ele colocou os outdoors. E, dentro dos outdoors, pôs as fotos em tamanho real daquilo que foi ocultado pelos outdoors (foto). Assim, do outro lado da calçada, um passante veria a continuação da fachada, as folhas da árvore, o pedaço de céu que, na verdade, não estava podendo ver, pois obliterados pelo outdoor. O resultado é a constatação de que, para que você consiga ver fachadas, árvores ou céu, o melhor a fazer é colocá-los emoldurados por algum tipo de retângulo – tela, espelho ou suporte de outdoor. Na testa.

04 – 22/01/10
CEDAR LEWISOHN (publicado pelo Aguarrás sob o título de “Cedar Lewisohn”)
Um curador de arte de rua. I should live so long.
Cedar Lewisohn fez a palestra no auditório do MASP, acho que sob patrocínio. Havia uma geladeirinha de Red Bull colada à mesa, tornando muito difícil documentar o evento excluindo a marca comercial.
Antes de iniciar a palestra, Lewisohn mostrou um documentário da exposição que ele montou na Tate Gallery há dois anos. E um mapinha da Tate e seus arredores, com os locais – dentro e fora do museu – que haviam sido pintados especialmente para o evento pelos artistas escolhidos por ele.
O documentário mostrava também os preparativos das pinturas: gruas levantando as equipes dos artistas e seus materiais artísticos até o alto dos muros a serem pintados; a colocação dos suportes de metal, a montagem com stencils. À parte, ele comentou sobre o protesto de alguns visitantes com a figura enorme de um negro empunhando uma teleobjetiva como se fosse um fusil. Foi considerada uma arte muito agressiva.
Mas é preciso ser um pouco agressivo às vezes, acrescentou.
E que é importante ter uma visão política das coisas.
Mas Lewisohn não chamou Banksy – o mais famoso e o mais agressivo dos artistas de rua da Inglaterra. Disse que Banksy é muito conhecido em Londres, e que ele buscou apresentar a diversidade.
Diversidade mas não muito.
Lewisohn mostrou o que ele considera um diálogo entre a arte de rua e a arte canônica ocidentale. Ele acha importante que as pessoas notem que a arte de rua não é graffiti “mindless”. O diálogo que é mostrado se dá no nível formal, não conceitual. Sixeart, o artista de rua de Barcelona é similar a Miró. Por causa das cores. Dubuffet e Basquiat também podem ser comparados. Por causa das figuras humanas atulhadas, uma em cima da outra. Lewisohn cita o que ele considera ser um gênero de fotografia, o “poverty photos”. E mostra como algumas obras de rua são iguaizinhas.
Na exposição da Tate estavam presentes os brasileiros Os Gêmos e Nunca. Lewisohn comenta que ter chamado o Nunca foi necessário porque a mensagem dele é mais direta, mais facilmente compreendida do que a dos Gêmeos.
Seguem-se de Kooning, Haring, Christo e as Guerrilla Girls. Somos lembrados da origem cubista da colagem, há uma rápida passagem realismo francês do início do século XX com sua pintura de superfície. E mais uma comparação, agora entre um orientalismo decorativo presente no modernismo e arabescos de rua.
Lewisohn suspira por uns valerem muito mais do que outros e isso o leva para o assunto publicidade.
Ele acha que a publicidade tem seu lado positivo, apesar da opinião de alguns esquerdistas.
“They may be right, but we shall see it from another point of view, there is some positive aspects in advertising.”
E ele considera muito importante que a arte de rua vá para os museus e para as galerias.
Essa sua opinião, aliás, foi o que lhe valeu a palestra no MASP, que expõe arte de rua na mostra De dentro para fora, de fora para dentro.
O primeiro motivo para a arte de rua ir para museus e galerias é que nesses lugares, as pessoas podem prestar mais atenção nela. Não diz quais pessoas.
O segundo motivo é que arte de rua é muito melhor que arte pública (a arte comprada pelo poder público para enfeitar as cidades). A arte pública depende de uma burocracia, de comitês julgadores. É uma arte de consenso. A arte de rua será sempre uma arte mais viva porque não precisa de burocracia. Depois de ser admirada pelas “pessoas”, a arte de rua então pode voltar para as ruas e ocupar de fato o lugar que é dela. Mais um motivo: a arte de rua atrai público jovem para os museus. Não só jovens. Mulheres e outras minorias também.
Mas a ida para o museu, contudo, pode causar alguns problemas para a arte de rua. Por exemplo: a superfície dos muros é mais irregular que uma tela ou a parede lisinha das galerias e museus. E os artistas, acostumados a pôr uma base grossa nos seus trabalhos de rua, precisam adaptar a técnica. Outro problema: às vezes o ambiente em torno, com uma calçada quebrada ou um mato crescendo por perto, pode fazer falta.
Ele acha que o contexto local às vezes pode ser importante.

03 – 21/01/10
DETANICO-LAIN, ALBERGARIA E OUTROS (publicado pelo Aguarrás sob o título de “Detanico e Lain”)
A Vermelho costuma expor esse jogo. A palavra ressignificada como imagem. Bem o contrário do que vi – e sobre o que escrevi – no meu artigo anterior.
Dessa vez são obras da dupla Detanico-Lain, e que se somam às de Gabriela Albergaria, Ana Maria Tavares e a uma beirada de acervo, por exemplo, de Marilá Dardot. Se falam, todas elas. Fazem um conjunto. Ou melhor, apresentam um determinado tipo de pensamento.
Me apoiando na semiótica:
Tem um sujeito e seu objeto de busca. As tensões daí decorrentes formam o que se está a analisar. Os signos, portanto, não tem valor fixo. Vão depender de onde estão em relação a essas tensões.
Então vamos.
Sujeitos e objetos são igualmente actantes. Actantes quer dizer atores. Mas atores no gerúndio, atores em movimento. Quando esses sujeitos, esses ‘eus’, não são totalmente donos de sua ação, a análise precisa se desdobrar entre o sujeito-destinador (aquele que faz algo dirigido a um destinatário) e o sujeito-julgador (aquele que se coloca à parte do destinador e julga sua competência). Até aí tudo bem, é o que acontece sempre, quando é um corpo artístico o que está sendo analisado. Há o destinador-artista e há o julgador-público. Normal. Mas quando o que está sendo analisado tem, além disso, um processo de ressignificação do objeto de busca, a duplicação também se dá do lado desse actante, o actante-objeto. Aí, teremos o destinador-artista, o destinador-julgador, e mais: o destinatário (o que está sendo representado) e mais um segundo destinatário, o destinatário-secundário (que está representando o representado). Nas exposições atualmente em cartaz na Vermelho, o primeiro destinatário é, no caso das obras de Detanico-Lain, o universo. Sim, sim, ele mesmo, astros, estrelas. O universo de Detanico-Lain é sempre representado por palavras. O destinatário-secundário é a imagem que essa escrita forma, ao ser retomada para além dela, ao ser retomada como uma meta-representação do universo, uma meta-representação que contém e excede a primeira representação.
Por exemplo.
Na fachada da galeria está Eclipse, um grafismo de sol e lua. Então tem o sol e a lua, tem a representação gráfica do sol e da lua (uma bola e “raios” – mais fortes e mais fracos para um ou para outra) e tem a colocação desse grafismo em um local imagético, ou seja, na parte de cima da fachada, como é adequado a astros celestes. O destinatário, sua representação “literária”, e sua ressignificação imagética.
Analema é uma frase de 365 letras. Mas a frase é disposta na forma do movimento da terra ao redor do sol.
Univers, a palavra univers escrita com a fonte de mesmo nome.
Estrelas do sul são letras. São feitas de luz e pulsam, sim, como estrelas.
Por aí vai.
A mesma coisa com Ana Maria Tavares. A artista, também com imagens gráficas, retira a profundidade, o “realismo” de suas representações de paisagens. Depois arruma essas representações de modo a recuperar uma espécie de 3D realista, uma falsa profundidade, formada pelo vazio dos cubos de vidro que dão suporte a duas imagens ao mesmo tempo, uma na frente, outra atrás.
E Gabriela Albergaria (foto) pega a própria coisa real, no caso um galho, e lhe dá continuação através de um desenho. Então, ela primeiro representa a natureza ao separar um de seus sintagmas, o galho real, deslocá-lo e condensá-lo. E depois pega o galho, assim abstraído, e o “revive” ao apresentá-lo ao lado de um desenho feito a lápis, com o papel também actante – um rolo, enorme.
O problema é que a multiplicidade de disjunções entre os actantes todos eles duplicados, e nos quais o público se inclui, nos deixa a todos em uma tensão de privação, de disforia. O programa narrativo se interrompe na espera excessiva de uma distensão.
Não que não saibam.
Na frase de Analema pesquei: “… passo ou espaço um dia passa…”, e: “… trezentos e sessenta e cinco por extenso, o tempo sem direção…”
Marilá Dardot escreve frases que ela emoldura. As frases são em francês, inglês, espanhol, alemão. Menos em português. Marilá é mineira. Um pedaço de frase: “…c’était devant la profondeur passionnée de l’oubli qu’il fallait parler sans cesse, sans arrêt…”
Também acho.
02 – 20/01/10
GARY HILL (publicado pelo Aguarrás sob o título de “Gary Hill”)
Há uma contradição nas videoinstalações de Gary Hill. Ou, para usar seu próprio vocabulário, há uma parede logo ali.
Vídeos são imagens, certo? Errado. Pelo menos no caso dele e de mais gente que começa a questionar os limites significativos das imagens – como, por exemplo, o curador da exposição, que foi quem o escolheu (é Marcello Dantas, do MIS-SP). Pois é. Algo muda. E muda de dentro.
Então vamos começar pelo texto – o único presente, o do artista, o que ele escreveu sei lá se para acompanhar a exposição ou se para acompanhar ele mesmo, no mundo. E que versa sobre o tempo, esse suprimido. Ou ex-suprimido.
Hill fala, nesse texto, de coisas que voltam, iguais mas diferentes. Uma protomemória de caminho, sendo formada no momento mesmo em que o caminho está sendo percorrido. Algo que o artista conhece desde sempre, e que volta de novo e de novo, “sempre ali”. E ele exprime o desconforto perante uma cobrança implícita, a da responsabilidade (o que supõe autoria, agenciamento, constituição e entendimento do eu como sujeito). Há, nesse texto, a constatação – e se trata da constatação de um videomaker, de um produtor de imagens – de que há algo de novo a pedir sequências, conexões. A pedir palavras, que são, ele aponta, o que junta-separa as coisas. E coisas, aqui, são as explosões de luz (“se enfurno, explode”). As tais coisas que são juntadas-separadas pelas palavras são as imagens que fazem sua vida de artista. E são as palavras, diz ele, que as tornam – essas imagens – inteligíveis. São suas as frases: “não sou responsável por isso”; “são palavras apenas que separam as coisas”; “quer que eu aja com conhecimento, quer reconhecimento, quer que eu esteja totalmente alerta”. Esse algo que quer que o artista fique alerta é o eixo diacrônico, a impor sua latência nos eventos de luz que se sucedem e que, sem ele, seriam mesmo só isso, experiências fenomenológicas não apreensíveis, não assimiláveis ou incorporáveis.
Hill fala, nas cinco videoinstalações selecionadas, da volta do texto sobre a imagem.
As imagens de Hill são as seguintes.
Em Up against down (foto), partes do corpo do artista se chocam e se chocam outra vez contra algo que não se vê, uma parede de vidro, um limite que não se sabia estar ali.
Wall piece é igual mas vestido. Mais choque contra a parede, dessa vez de terno. Mas aqui com uma explicitação que a primeira não tinha. Você só vê o choque, pois a imagem só se ilumina quando o artista se joga contra a parede. E a cada choque, ele interrompe uma frase que estava sendo dita. Ou seja, ou você vê a imagem ou escuta a frase. A imagem é forte. Você não escuta a frase.
Na sala maior do MIS-SP há outra variante da mesma experiência. A sala fica no escuro. De vez em quando, há uma explosão de luz branca. A luz, projetada nas paredes, vai sumindo lentamente em formas geométricas, como se fossem portas ou corredores momentaneamente iluminados a compor um cenário que, infelizmente, não se mantém. Digo infelizmente porque o tempo rápido da explosão de luz é “lamentado” pelo tempo mais lento de sua desaparição. Uma quase-narrativa, que me prendeu, eu lá, de pé, esperando ansiosa pela próxima explosão de luz, para poder saber a continuação daquela “história”. Um desejo de teatro, de continuidade. O nome também influi para você ficar lá, parado, esperando um godô que, portanto, a se acreditar no artista, sim, vem – ou virá. O nome é Unconditional surrender. Vá, e deixe-se ficar.
Viewers é a mais óbvia e, por isso mesmo, a mais conhecida. Imagens estáticas de pessoas em tamanho natural sobre fundo escuro em ambiente escuro. Essas pessoas te olham. É você a virtualidade, a existência efêmera, é você que, ao ser só uma imagem, não parece fazer o menor sentido – ou pelo menos, a cara obtusa dos que te olham fazem você pensar isso.
A última é a Wall piece. Bonitinha para nós que catamos palavras como quem escolhe feijão. São duas mãos tateando um pano de florzinhas, escolhendo às cegas, na pura afinidade sensorial. Qual florzinha eleger, com qual delas um contato trará a troca e, com a troca, o prazer de se saber dedo.
01 – 01/01/10
LOT AMORÓS (publicado pelo Aguarrás sob o título de “Lot Amorós”)
Mais um espetáculo multimídia. E fiquei com um desejo entalado. Que aparecesse, em meio à arte tecnológica (definição: tecnologia usada em experiências estéticas), alguém bem gay. Camp. Lembra o camp?
O espetáculo – nos últimos dias de dezembro/09, MIS-SP – era o resultado de um intercâmbio de estudantes entre o laboratório do Museu de Imagem e do Som e o centro de artes visuais Hangar, de Barcelona. O artista era o espanhol Lot Amorós (com participação da bailarina brasileira Leila D.). E o título era Eva.
Nos primórdios da Criação do Universo, uma Eva em carne e osso (Leila D.) olha espantada à sua volta. Trata-se de uma nova Criação de um novo Universo. Leila D., por exemplo, em vez de folha de parreira, usa uma roupitcha prateada, tipo astronauta de história em quadrinho. Ela corre de cá para lá, sempre muito espantada, e na tela atrás dela aparecem diagramas computadorizados de sua velocidade corporal. Representações em wireframe de seu corpo. Reduções geométricas de suas formas em quadrados perfeitos (aquele que é composto por números eles também quadrados). Em 3D. Espirais de Arquimedes. Também em 3D. A representação gráfica do teorema de Poincaré (uma rosquinha). A curva de Fibonacci (a do caramujo).
E mais: explosões de raios de luz concêntricos e em prisma.
Música de começo-de-mundo. Não sou culta o suficiente. Pode ter sido Mozart. Ou a trilha sonora do Planeta dos Macacos. Não sei.
Antes me explicam, ligeiramente constrangidos, fazendo hora para que a coisa afinal funcione e o espetáculo se inicie, que se trata de uma câmera de raios infra-vermelhos que capta a imagem em resolução de 600 frames por segundo e que depois passa para outra câmera que. Acho que eu deveria ter ficado impressionada. Não fiquei.
Sabe o que me impressionaria? O camp.
Alguém que usasse isso mesmo, produzindo os mesmos impressionantes feixes de luz, com a mesma trilha sonora, tudo igual. Mas caçoando. O que falta nessa arte é a crítica radical, arrasadora, de um movimento que, tendo a virulência que só os outcasts têm, a virulência de uma cicuta social, não apresentasse o bom-mocismo, o politicamente-correto, a postura de eu-é-que-estou-certo de quem sabe que está fazendo algo importante. Porque, não me entenda mal. Acho a arte tecnológica importante. Quero dizer, na teoria. A inclusão de novos instrumentos para fazer a mesma coisa de sempre: arte. É claro que é importante. Mas talvez aí esteja o problema – no que se entende por arte. Esses engenheiros de computação dublês de artistas ninguém-mais-avançado-do-que-eu acham que arte é fazer bonito, é fazer perfeito. Deve ter a ver com algum tipo de deformação na formação. A deles. A de engenheiros de computação. Ou com uma sexualidade de questionamentos facilmente resolvíveis, uma sexualidade de adões e evas.
Talvez ainda cheguem lá. Kitsch eles já são. Depois da demo de feixes de luz, me brindaram com fotos de mitos anteriores à Eva atualizada do palco. Sim, Martin Luther King. Sim, o cogumelo atômico. Ahn, My Lai. E até mesmo a Marilyn Monroe.
(Para os igualmente incultos, mas de menor idade, My Lay foi aquele massacre com napalm no Vietnam. Você já viu, sim, é a menina correndo nua pela estrada, o corpo queimado.)
E a própria Eva, claro.
O espetáculo acaba com ela, já menos espantada, se levantando e depois caindo frente a um sol de plasma, naquele laranja que só aditivo químico consegue dar. Lindo. É. Pois é. Susan Sontag disse, sobre a assunto, que kitsch todos nós somos. Mas camp, só tendo um auto-conhecimento ultra-moderno, sem ilusões. Assumo meu lado kitsch. O tal do sol era lindo. E eu ainda punha um Roberto Carlos da boa fase para completar. Mas, hélàs, gosto mesmo é do camp.
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